A parceria Sacharuk & Germani: o mago encontra o intérprete

 

A parceria Sacharuk & Germani:  o mago encontra o intérprete

Entre todas as colaborações que povoam o acervo do blog memorial sangue e sal, a parceria de Wasil Sacharuk com Rogério Germani ocupa um lugar peculiar: é a mais discreta e talvez a mais reveladora. Se Decimar Biagini e Márcia Poesia de Sá colaboraram com Sacharuk pela via do choque — o sonetiálogo gauchesco, o colorido contra a crueza —, a troca com Germani opera por identidade de temperamento: dois poetas da musicalidade, da amizade declarada e da palavra que flui mais do que fere.

A colaboração deixou no memorial ao menos três poemas assinados a quatro mãos — "Essencial", "Vidas paralelas" e "Quase luz no imenso vazio" — e se completa na direção oposta: Sacharuk foi, ao longo da carreira, intérprete dos poemas de Germani em suas performances de poesia falada, transformando o texto alheio em voz. A relação, portanto, não era só de coautoria na página, mas de circulação viva: Germani escrevia, Sacharuk dizia. Cada um habitava o território do outro.

Em "Essencial", a dupla constrói uma declaração de afeto pela via da gramática — o sorriso, a alma, o encontro "em qualquer conjugação, momento ou lapso". O poema trata a amizade como conjugação verbal: "Necessário feito o ar / é tua musa em cadência / o lastro direito de sonhar". É a amizade como sistema linguístico compartilhado, algo que só um texto a dois consegue enunciar sem cair no sentimentalismo.

"Quase luz no imenso vazio" é o mais ambicioso do conjunto. Nele, uma figura feminina na janela — musa, leitora, talvez a própria poesia — "insiste em coroar um verso", e a lágrima aparece não como melodia fácil, mas como "o sal liquefeito de amálgama". O verso condensa o que a parceria produzia: o sal — matéria bruta, assinatura sacharuquiana por excelência — dissolvido em água, ou seja, a crueza temperada pela música de Germani. É o desadorno e o canto negociando espaço no mesmo poema.

"Vidas paralelas", por fim, medita sobre o que o poema a dois faz com o mistério: "Há um mistério guardado / nas rubras fendas de peito aberto / em cada silêncio abrigado no verso". A reta que divide os mundos e remete o poeta a vislumbrar estrelas é, no fundo, a descrição da própria colaboração — duas vidas que não se fundem, mas correm paralelas e no poema se tocam.

O testemunho mais comovente da amizade, porém, é a homenagem "O mago", Germani devolve a Sacharuk o que este lhe dera em voz: um retrato poético do amigo como "ave destemida perante a tempestade das horas tristes", com "floridas lavas nos dedos" — imagem que já incorporava o vocabulário do parceiro (lava, matéria incandescente) para celebrar sua generosidade de "Dédalo peregrino acendendo tochas no vagar das horas".

A colaboração Sacharuk–Germani prova que a "estética dos desadornos" não era só uma poética da dureza. Nos poemas com Germani, o ferro e o sal cedem espaço ao rio e à luz — e mesmo assim sem trair o compromisso essencial do autor de Pelotas: a palavra sempre vivida, nunca apenas lida. Foi nisso que os dois encontraram seu ponto comum, e por isso, onde Germani escrevia, Sacharuk achava ritmo para dizer.

leia os poemas da dupla aqui Rogério Germani