vício

 vício 


E o meu vício em ti despejo

Nesse teu feitiço maldito

Até que eu perca o sentido

Vingado, pregado, vencido


E na magia do teu rito

A chama arde de desejo

Eu encantado no ensejo

De um prazer louco, aflito


Faz do momento calado, retido

Armado, desalmado, temido

A maravilha do teu grito

Dessa nudez que só eu vejo


E na relíquia do teu beijo

De bicho, irado, instinto

Aberto, regado, despido

Fatalmente desmedido


wasil sacharuk 

haicais

tua alma guarda
surpresas e os encantos
tudo e além

wasil sacharuk

......

um beijo é pouco
precisa muita saliva
a regar a rosa

wasil sacharuk

......


de água e areia
vivi o amor profundo
chão de oceano (haicai#1)

wasil sacharuk

.......


enquanto não colhes
a natureza te ama
e te deixa dormir

wasil sacharuk

.......

engodo e magia
a cortina de fumaça
brumas de poesia

wasil sacharuk

......

Plata dos amantes
de Argentina milonga
e tango em Corrientes

wasil sacharuk

.......

um verde criança
o cíclico movimento
outra estação

wasil sacharuk

......

todos os anos
a gratidão ao outono
livre recriação

wasil sacharuk

......

o tempo é réu
desse deserto de ter
outra despedida

wasil sacharuk

......

nosso amor profundo
de água vento e areia
é chão no oceano

wasil sacharuk

......

boca de vento
e ouvidos de maré
que dançam na lua

wasil sacharuk

........

poros de areia
teu par de dunas habita
doces fantasias

wasil sacharuk 






o curso de uma parceria

O CURSO DE UMA PARCERIA 

(DOIS ANOS DE DECIMAR E WASIL)


A cultura é nosso alimento

Servido na idealização virtual

O poema dá asa ao pensamento

Escandido ou em improvisação usual


Enchemos barriga com letra de vento

A verve visita o futuro e o passado ancestral

Testemunhamos a perda do trema e acento

A poesia quebrou a tramela do novo portal


Toda a nossa força ao longo dos anos

Que partiu de atividades lúdicas pelo virtualismo

Tomou compromisso em outros rumos

E sorriu nas proximidades do pluralismo


Conhecemos o signo de outros arcanos

Abarcados na sistemática do empirismo

Tentamos riscar com auxílio de prumo

Para desvendar o segredo do lirismo


Uma vida de leveza em parceria poética

Que trouxe pessoas com ideias em comum

Uma sensação experimentada pela dialética

Em semânticas despretensiosas oriundas do sul


E a inspiração nunca foi esquelética

Nessa antologia sempre cabe mais um

Nem de vanguarda e nem velha caquética

A fome de versos nem pensa em jejum.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk






futuro de hoje

 Futuro do Hoje


Hoje acordei a fluidez

Cores escorriam brancas

Na tela azul daquele dia

Ouvi sorrisos de criança


Hoje rasguei a minha tez

Avancei minhas retrancas

Reli um livro de poesia

Plantei semente de esperança


Hoje chamusquei velhas folhas

Bolhas de sabão eu pintei!

Hoje prometi para o ontem

Não me esquecer do amanhã


Hoje repensei as escolhas

Nas asas da fênix viajei

Ergui a alma sobre o monte

Novo colorido a uma tela vã


A obra, cujo título é futuro

Hoje acaba de ser iniciada

Com pinceladas de verdade

Aladas ondas na própria tela


Vou iluminar o tom escuro

Novo horizonte e nova estrada

Serão os objetos da vontade

Um abraço na vida mais bela.


Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk



para firmar o cambicho

 para firmar o cambicho


chama logo o padre

 bagual

e te acolhera com a prenda

tu vais de bombacha

que é teu normal

e ela vai de vestido de renda


o carancho véio fará perguntas

tu concordas com tudo

 o que ele diz

pois doutro jeito tu não te juntas

e a gauchada quer festa feliz


chama os viventes da cercania

escreve o convite em poesia

e garante uns tragos 

para o gaiteiro


para festejar o lindo cambicho

vamos alugar o salão do bolicho

e levantar poeira 

um dia inteiro


wasil sacharuk



o alienígena

o alienígena

Todas as manhãs o alienígena acorda e toca o próprio corpo para sentir que existe de fato. No quarto, o espelho embaçado pelo seu assopro é a certeza da sua interferência nas coisas do mundo. Roda e roda pelo submundo. Também visita lugares seletos, mas só ouve murmúrios incompreensíveis das pessoas que conversam em seus próprios dialetos. Alheio a tudo, suas ideias também não são acessíveis aos mundanos de qualquer lugar. Assovia uma melodia singular. Todavia, o alienígena voa, quando poderia simplesmente andar, mas prefere se locomover logo acima das cabeças dessa gente esquisita. Vez por outra, ouve vozes distantes e sons dissonantes e isso tudo o irrita. Também vivencia eventos antecipados nos sonhos premonitórios. Tudo ocorre da forma como sonhou. Seu olhar é um observatório, por isso vê as pessoas por dentro. Não tudo, mas os traços das personalidades e um tanto de seus pensamentos. Ele simplesmente sabe quando alguém é do bem. Além disso, lê os mais finos gestos de mãos, as falas mais rebuscadas, os sorrisos... Assim ele conhece vários níveis de qualquer pessoa e suas conclusões são infalíveis. Alguns o assustam, outros provocam tristeza, poucos o fazem sorrir timidamente. Ninguém o faz sentir-se contente, leve e cheio de asas resplandecentes.

wasil sacharuk


nua e mais nada

 Nua e mais nada


quero tua palavra nua,

sem pele, sem remendos, sem acertos

quero tua palavra rabiscada

exagerada

sem lamentos

quero tua palavra direta

enxertada

enfiada

afiada

aprofundando minha alma de teu perto

quero decorar teu dialeto

ouvir tua boca calada

mascando palavras repletas

sem ornamentos

sem emboscadas

tua tônica sem acento

teu verbo sem movimento

em locuções encantadas

quero a palavra que completa

e mais nada.


Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk


O pingente

Mariana finalmente encontrou o pingente no cantinho da pia marfim, ao lado da saboneteira. Ela o havia perdido pela casa há três ou quatro dias. Tentou segurá-lo, no entanto, molhada e escorregadia, a joia tilintou sobre a torneira dourada, repicou repetidas vezes sobre a cerâmica cinza e perdeu-se novamente.

Dissuadida da nova busca, cuidou de abrir a água para encher a pequena banheira de hidromassagem.

Mariana sentou-se ao vaso e passou a escovar os cabelos com a escova de largas cerdas. Sentia arranhar levemente o couro cabeludo percorrendo memórias que escorriam às vertentes ao longo dos fios negros e lisos.

Penteada, segurou a toalha preta entre as duas mãos e descansou sua face sobre ela. Apertou o tecido sobre os olhos.

As memórias persistiam.

Enquanto despia-se, percorreu o chão com o olhar e encontrou o pingente caprichosamente oculto no vão entre os dois tapetinhos azuis.

Abaixou-se, resgatou a peça e observou-a demoradamente. Logo, jogou-a hesitante dentro da banheira já quase cheia. 

Entrou lentamente na banheira, resgatou a jóia e a prendeu firmemente na mão direita, fechou os olhos e deixou a água cobrir sua cabeça. 

Contornado pela forma de uma folhinha de palma, havia um nome sutilmente gravado no pingente de ouro junto às lembranças submersas.

Mas o nome não mais importa quando uma história chega ao fim.

wasil sacharuk



parindo futuros

 Parindo futuros


Ando rasgando certezas

dissimulando conceitos

refazendo o tear


Ando apagando belezas

percorrendo os intentos

anunciando degredos


Ando bipartindo medos

parindo sonhos como fazem as nuvens 

quando venta

reduzindo abstratas formas

a novas descobertas


Ando abrindo vielas

mordendo desilusões e as digerindo

engolindo frações das coisas complexas

com sentimentos mais puros


Ando alucinadamente 

parindo futuros.


Marcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk


a desvendar mistérios

 a desvendar mistérios


vasculhei flancos 

e cantos da mente

em busca de dons escondidos

contra incidentes descabidos

e essa culpa 

aguda e silente


e cantei à surdez dos ouvidos

indiquei contramão do oriente

ensaiei ficar indiferente

à outorga dos risos escondidos


desbravei infinitos de chão

de tudo e nada 

de sim e de não

revirando os ossos 

dos porquês


e segurei a poesia nas mãos

pois sei que ela é a razão

que  sempre faz

eu tentar outra vez


wasil sacharuk


meus guris

 Meus guris


Não saiam da rima

não percam o clima

tudo o que a vida ensina

é a insistência dos dias

a perpetuação das manias

e os disfarces da poesia


Como disse tia Marisa

se eu não me engano

sintam no rosto a brisa

liberta do minuano


Escrevam em versos a vida

caso for dolorida

caso for um engano

façam dela poema

mesmo rima e sem plano

sem razão ou sistema

até fora de esquema

ou propósito insano


Façam dos dias dilemas

dos inimigos teus manos

das dores não façam danos

e jamais se esqueçam

que os nossos problemas

são desafios dos arcanos


E sempre compreendam

que o horror dos sistemas

são desígnios humanos.


Wasil Sacharuk


o mestre e o coelho

 O mestre e o coelho, um poema de Páscoa


O grande mestre inesquecível

do amor, da morte e da vida

fascina a todo que investiga

porque sua fé o tornou invencível


Antes de ser crucificado

passou coragem e sabedoria

deixou frases como aprendizado

nem mesmo a tortura o impediria

de deixar o amor e a fé como legado


E essa herança indescritível

fez a humanidade dividida

o mestre morreu a ainda briga

e sua palavra é o motivo plausível


Mas o mestre deixou seu recado

que foi interpretado à revelia

enquanto a igreja inventou o pecado

vendendo remédio pra toda a agonia

com coelho dentuço e chocolate melado.


Decimar Biagini & Wasil Sacharuk





o poeta e o leitor

O POETA E O LEITOR


Nada se interpõe entre o poeta

e o destino superado pela obra

Nada se sobrepõe ao hermeneuta

que alinha alegrado à manobra


O poeta faz a lida virar fato

em forma e conteúdo no entremeio

inventivo, narrativo ou abstrato

Convida o leitor para um passeio


No trajeto infindável de sua meta

se delineia de instável à normal

o objeto maleável da obra aberta


Por sua vez, o leitor se é atento

Remexe, vira, põe e tira o sal

e colabora com cinquenta porcento.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk




plexo solar

 plexo solar


se sinto o que penso

se sinto o que digo

sinto o que penso que sinto

provavelmente minto


se falo encontro o amigo

depois eu dispenso

o momento é intenso

mais tarde eu nem ligo


em cada sentimento distinto

eu provo o absinto

divido contigo

um viés do meu lenço


digo que sinto imenso

comunico e complico

traduzo meu instinto

numa costura sem vinco


se sinto e não digo me intrigo

e me encontro em poema pretenso

disforme libertino e sem senso

só para beijar meu umbigo


wasil sacharuk



A passarada vista da varanda

 A passarada vista da varanda


há gente que teima 

em achar poesia

onde poesia já não existe


escrita sob demanda 

não há chegada

nem despedida

beijo de entrada 

ou até de saída

quase sempre desanda

mas nunca desiste


há gente que teima

que passarinho passa o dia

a ouvir canções tristes

em vez de cantar ciranda


da varanda

vemos a passarada

a jogar sementes de vida

tirar sentido no nada

coisa mais que sabida

isso sempre encanta

e a poesia resiste resiste...


Wasil Sacharuk



malleus maleficarum

malleus maleficarum


havia jurado

coisa alguma

julgado por heresia

condenado ao fim dos dias


falácias despudoradas

a única verdade

sustenta a insanidade

de subtrair prata vultosa

a garantir o óleo

da lâmpada luminosa


desaparecidos amigos

já há uma semana

Gerard, Eliphas, Joana

levados do abrigo


que o demônio

não os tenha

lançado ao fogo


a carne

as vísceras

os ossos

a corda aperta o pescoço

desenlace da sina

o repúdio

a ira

a raiva assassina


a cara escarrada

da hipocrisia

infeliz arremedo

dispara ditames

alastra a dominação

o rastro de medo

em nome da salvação


wasil sacharuk


lusofonia de um poema

 Lusofonia de um poema


As minhas palavras de Fado 

gostam de cantar continentes

e dançar carnavais de funaná.

As minhas palavras de bacalhau

têm fome de cachupa e funje

e sede de água de côco.

As minhas palavras de Tejo

navegam pelo Amazonas

e banham-se no Zambeze.

Quem as quiser encontrar

tem de ter na mão um planisfério

e descobrir onde fica Lusofonia


Digo alguns versos de samba

às ruas de Trás-os-Montes

com os Pauliteiros de Miranda.

Digo alguns versos de feijoada

com um tanto de óleo de palma

e uma garrafa de vinho do Dão.

Digo versos de pedra da Mina

que ecoam na Montanha do Pico

e são ouvidos no alto do Binga.

E quem os quiser escutar

tem que sucumbir aos mistérios

e as belezas da Língua Portuguesa.


Emanuel Lomelino & Wasil Sacharuk


meus tons

 Meus Tons

 

Algo em mim tem tom lúgubre

caverna escura insalubre

para guardar os meus eus


também cintilo um tom vivo

certo calor radioativo

retido sob os meus véus


minha face é tão pálida

de melanina inválida

para clarear o meu céu


meu sentimento é tão blue

rústico ríspido e cru

matizes frios dos meus breus


e eu me dissolvo nas cores

máscaras das minhas dores

em tons que não são meus


wasil sacharuk


o surgimento da poesia

 O SURGIMENTO DA POESIA


A poesia advém da própria fala

Fruto da necessidade de comunicação

entre elementos da alma que não cala

Produto da oralidade e da contemplação


O poeta recita a alma nas salas

insinua a linguagem enamorada

em versos embecados de gala

cria mundos no alicerce do nada


Das narrativas primitivas surgiu o ritmo

que é a sonoridade da palavra já cantada

ou simplesmente o rimar no aspecto lírico


Os versos decantados ganharam asas

do aço diluído na palavra revelada

e vida capturada em contexto estilístico.


Decimar Biagini & Wasil Sacharuk





obituário filosofal

 OBITUÁRIO FILOSOFAL


Morrer, 

cair como um grão de areia

no deserto da existência


Do que viver cara feia

em norte que desnorteia

dessa obsolescência


Fenecer,

como fora d’água uma sereia

na secura da insolvência


Do que a banheira cheia

mas preso numa cadeia

entre hipocrisia e carência


Esmorecer,

subitamente como uma abelha

após soltar o ferrão pela indecência


Do que ser como ovelha

sem progresso ou centelha

nas fronteiras da demência.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk





pobre Anita



Pobre Anita

Não guardo mais a lembrança da festa do meu último aniversário. Obviamente lembro da data que, decerto, não poderia ter esquecido. Sou capricorniano e isso, outrora, já foi relevante. No entanto, sei que Anita estava presente, provavelmente, usando um daqueles seus vestidos decotados e alinhados às curvas generosas do seu corpo.

Brigamos muito por quaisquer motivos. Foi esse o mais evidente atributo da nossa convivência. Divorciar, ela não cogitava. Eu levantava o dinheiro e ela aos seus jovens amantes.

Minhas filhas também compareceram à festa, afinal, as reuniões de aniversário da família apenas aconteciam em virtude do mérito e esforço das meninas.

Hoje o cão esteve aqui. Passou cerca de dez minutos farejando algo no canteirinho que adorna minha cova rasa. Talvez tenha percebido algum bicho desses que revolvem a terra e se alimentam das coisas orgânicas. São tantos: formigas, larvas, minhocas e outros que eu nem conhecia antes. A cadeia alimentar é um processo infalível e sério.

O tempo passou tão rapidamente. Posso perceber que o velho e bom Toby se aproxima dos seus últimos tempos. É um cão idoso, está gordo e suas patas não suportam mais o peso do seu corpo. Toby sempre vem aqui e descansa suas patas grandes sobre o gramado.

Há semanas não vejo as meninas e quanto à Anita, a vaca megera, que se foda.

Consola-me saber que sempre que ela vir ao quintal terá de olhar para o canteiro que que ela mesmo cavou e plantou a semente da própria destruição. As memórias são indeléveis e a seguirão mesmo que ela mude de endereço.

Se possível, dia desses, quando aqui ela chegar aqui pertinho, deliciosa sobre seus sapatos altos, eu puxarei sem dó aos seus lindos pés.

Ah, livrar-se assim de mim não fará com que Anita me esqueça tão facilmente.

Pobre Anita!

wasil sacharuk

pura

 Pura


Cada palavra, perplexo

Cada cume um uno

Palpita tesão dislexo

Cada desejo uma fome

Cada estrofe desforme

Cada respiro

Engolindo

Seu suspiro


cada vão desconexo

cada escolha um rumo

que valha um amor sem nexo

em cada nó que consome

cada palavra de fome

naquilo que inspiro

subtraindo

tuas defesas


sua forma

seu trejeito

aquele desejo

nunca deforma

toma forma

toma a mim

toma

e toma

em coma


meu mundo perfeito

entre um beijo

e o que me toma

e retoma

como um fim


e tuas

tão tuas

são minhas

e fome

vai

me engole


nua

tão crua

nas manhas

que se come

que se bebe

que se fode

a loucura

mais pura.


Dani Maiolo & Wasil Sacharuk


aos amantes

 aos amantes


aos amantes

sou  desvelo

escuto segredos

solto os cabelos

sei rir das piadas

mas não sinto nada

além do corriqueiro


os amantes

oferto sarcasmo

alguns pleonasmos

bem redundantes

e traicoeiros

além de orgasmos

muito vibrantes

mas não verdadeiros


wasil sacharuk


as diferenças

 as diferenças


a alma das dores

reverbera nas noites

pela eternidade


não foi por desavença

nem pelo estalido do açoite

sequer a sina da negritude

ou a farsa da liberdade


sobrevivem as diferenças

na corrupção da atitude

na falta de boa vontade


wasil sacharuk


batom

 batom


acordei cedo

não estavas

ao lado direito

senti um receio

aperto no peito

nenhum recado

nenhum beijo

fui ao banheiro

olhei no espelho

achei tua boca

estampada em vermelho


e de novo o vermelho

aflorou meu desejo


wasil sacharuk


Beatriz

 Beatriz


Seu rosto, branca tela em nu semblante,

Beatriz que, a mim, seu Dante, fez omisso.

Mostrou-se em todo o viço e o torturante

Requebro serpenteante a torna aquela


De olhares de gazela e seus rompantes

Com brilho de diamantes, de silícios.

Em frestas e interstícios balbuciantes,

Segreda-nos desplantes, minha bela,


O deus que me acautela e é tão gigante

Que faz mirabolantes meus suplícios

E remete-me aos vícios, oh, donzela:


Mulher que se revela e, ofegante,

Se dá exorbitante em sacrifício.

Se faz meu precipício, minha cela...


Magmah & Wasil Sacharuk


canto da invernada

 Canto da Invernada


Se passa acolherando vidas

e aquerenciando a clausura

que se faz dessa invernada


e nem se espera mais nada

de qualquer patrão superior

ou de um loscanha estanciero


a lida tem sido tão dura

já passou tanto janeiro

o capataz anda abichornado

meio preso nos arreios


mas quem não se encanta

na perplexidade da lábia

que discursa o forneiro?


que manda um rasgo estridente

a irromper pela sesmaria

gritando para ver calmaria


E eu que sou peão velho

levanto os pelegos no pago

e toco reponte sem embargo


abro cancha ao meu filho

que alimente nosso tordilho

faça que o pingo ganhe asas

troteie bem longe das casas


que se dispare haragano

a traçar destino orelhano

e aprenda a saltar o aramado

sem ficar todo estropiado


abraço meu lindo guri

e peço que se vá a la cria

que recolute a minha poesia

para ler bem longe daqui


de regalo, leve meu coração

decantado em versos sulinos

para cantar tal um hino

dos piquetes desse rincão.


Wasil Sacharuk


púrpura é a cor

 


Púrpura é a cor

Nós
somos um poema encaixado
que não desprende os versos
e suplica por coesão
mas deixo que vivas tua vida

sem saber o que passa
sem saber o que passa
sem saber o que passa
apenas por essa súplica...

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Mas eu não folheio
essas páginas para que o livro
acabe
meu sustento encontro
nas linhas de rosas e espinhos
e nas noites tão frias
eu te esgoto: vampiro sou
sim, nas noites tão frias
para poder dormir sob o sol
que nasce em tuas costas

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Sol e cristais
vejo o teu céu
espinhado nas rosas
púrpura é a cor
que vertes de mim
do inferno que sou
oh, não me permitas mais
nunca mais ser
um inferno para ti

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk






a velha detrás duma moita

 


a velha detrás duma moita

havia uma velha
detrás duma moita
espichava uma perna
encolhia a outra

a velha escolhia pato
no quintal da vizinha
passava pato
passava pato
pato e mais pato

e o tal pato
não aparecia
contou dona Diquinha

e a velha dizia
calma
ainda está passando pato
ainda está passando pato
pato e mais pato

e o tal pato
ela nunca escolhia
então essa história
nunca termina

perguntasse à Diquinha
ainda está passando pato?
ela logo respondia

havia uma velha
detrás duma moita
espichava uma perna
encolhia a outra

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk






 


flor de cacto

 flor de cacto

O que sabes sobre poesia? 
Se o meu canto nasce sob o teu olhar e te sobrevoa os sentidos
pousa em ti sementes
bebe de tuas nascentes e ainda não o consegues captar?

Que pensas tu sobre os dias
que meus encantos se diluem num mar de risos divertidos
que ora se fazem ausentes
entregues às vertentes das noites sem luar?

O que sabes sobre a saudade? 
Quando a minha asa de ausência, outra de presença 
permanecem presas no teu colo por vontade de estar? 

Que pensas tu das verdades?
se a minha inocência se desfaz maledicência
pela correnteza onde vejo o meu mundo naufragar?

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar

O que sabes sobre o amor? 
Quando ele não rima morte com dor
querer com indiferença
teimosia com desistência?

Que pensas tu sobre a flor
jogada sobre um fundo sem cor
a morrer nas descrenças
das mitologias e das ciências?

O que sabes sobre minhas cores e meus aromas? 
Sobre os meus sorrisos e seus significados? 
Sobre os recônditos de minhas belezas? 
Sobre minha nuvem e da chuva que dela jorra? 
Sobre meus pedaços e inteireza? 
Sobre minha crueza e nudez?

O que sabes de mim? 
que pensas tu das certezas?
Que te torna tão dono de um amor-abandono assim?
e por fim, a flor de cacto
é bela nas asperezas

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar.

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk











A colaboração poética de Mell Shirley Soares e Wasil Sacharuk

A colaboração poética de Mell Shirley Soares e Wasil Sacharuk

A parceria de Mell Shirley Soares com Wasil Sacharuk se revela num pequeno conjunto de poemas assinados a quatro mãos — "flor de cacto", "a velha detrás duma moita" e "púrpura é a cor" — e é justamente a sua dissonância que a torna instigante. Diante de uma obra conhecida pela linguagem brutal de sangue, ferro e vísceras, esses três poemas mostram Sacharuk disposto a moderar a própria verve para acolher a voz da parceira, sem abdicar inteiramente da marca que o define.

O ponto mais alto da colaboração é "flor de cacto", um poema de interrogação amorosa construído quase todo em anáfora — "O que sabes sobre poesia?", "O que sabes sobre a saudade?", "Que pensas tu das verdades?" —, num questionamento que percorre todos os recônditos de um eu lírico feminino: as cores, os aromas, "os recônditos de minhas belezas", "minha crueza e nudez". É aqui que a estética de Sacharuk e a de Mell se encontram: a palavra "crueza", raro momento em que a matéria dura de sua poesia aparece no léxico da parceira, convive com imagens de delicadeza vegetal — a flor que "se espinha / e sangra toda ao brotar". O refrão que abre e fecha o poema ("Flor de cacto, tão singela / que se espinha... / Flor de cacto, tão bela / tão sozinha / quebra / se o vento soprar") funciona como um pacto lírico dos dois: beleza e ferida na mesma imagem, a ternura atravessada pela espinha — quase uma miniatura da "estética dos desadornos" de Sacharuk traduzida em chave floral e feminina.

"Púrpura é a cor" aprofunda o registro amoroso e o leva ao limite vampírico: "eu te esgoto: vampiro sou", declara o eu lírico, "nas noites tão frias / para poder dormir sob o sol / que nasce em tuas costas". Há aqui a tensão clássica de Sacharuk entre posse e liberdade — o amor como dependência ("quando estás distante / falta em mim / um pedaço grande") e como risco de aniquilação ("não me permitas mais / nunca mais ser / um inferno para ti"). A metáfora do "poema encaixado" que "não desprende os versos" pode ser lida como autodescrição da própria parceria: dois textos que se suplicam coesão, dois poetas que não se separam das próprias estrofes. O sangue — cor purpúrea vertida "do inferno que sou" — reaparece como pigmento amoroso, o único adorno que o poeta se permite.

Em contraste deliberado, "a velha detrás duma moita" é humor puro, quase cordel: a velha que espicha uma perna e encolhe a outra, esperando um pato que "nunca escolhia", com dona Diquinha como narradora circular. A história "nunca termina" porque a espera nunca se resolve — e o poema termina recomeçando, como uma cantiga de roda. É a face leve do Sacharuk parceiro: a mesma generosidade com que versou em payada com Decimar Biagini, agora a serviço de um humor popular que provavelmente traz o sotaque e o gosto de Mell Shirley Soares.

O que une os três poemas é a mutabilidade. Sacharuk demonstra ser, nas parcerias, um poeta que se adapta ao interlocutor sem se anular: com Mell, ele abre mão da lírica telúrica e dos materiais duros para habitar o canto interrogativo, o erotismo sangrento contido e a anedota popular — e a assinatura dupla em cada texto ("Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk") confirma que a obra é de fato de dois. É uma colaboração menos de estilo comum e mais de cumplicidade de tons: a flor que espinha, o vampiro que esgoto, a velha que espera pato — três faces do mesmo gesto de perguntar ao outro o que ele sabe sobre nós.





o último charrua

 O Último Charrua


No alto de uma coxilha
Viu-se um índio repontando horizonte
Um lobo sem sua matilha
O último cocar de sua brava gente

Filho de Tupan, esquecido pelo tempo
Preso a miséria da civilização escassa
O cusco ovelheiro, seu único alento
Índio cor de cobre, esteio de sua raça
Em uma bombacha e encarnado lenço
Pés descalços e pobre, domava que dava graça

Modesto Charrua, a coronilha da raça
Que sina a sua, a última alma que passa

Parecia com pingo sem tropilha
Viveu de saudade sem canga errante
Mas não se reculutou na pandilha
Viu o encanto nativo cada vez mais distante

O rebenque da sorte guasqueou o intento
Entendeu que na lida há o dia da caça
E cantou solito aporreando o relento
A milonga tristonha de esperança escassa
Se o desejo do homem é cambicho sedento
A bonança de um é do outro a ameaça

Modesto charrua, o fim é o livramento
Que sina a sua, espírito xucro do vento.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk







soneto livre ao endividado

 SONETO LIVRE AO ENDIVIDADO


Cada dia que passa chega uma fatura

Cartões de crédito, àgua, luz e telefone

Os desgraçados ainda abreviam sobrenome

Que saudade da venda da esquina, da fartura


Local onde vendiam fiado e chamavam pelo nome

Hoje sou só um cpf com caixa de correio

Se inventar de pagar todas as contas passo fome

O que é pior é que o mês recém está no meio


Agora vou me jogar nos braços da inadimplência

Jogar tudo às favas ou qualquer outra indecência

E os meus credores que procurem o juizado


Vou me aposentar e não pagar nenhuma conta

Com a taxa de juros vai ficar em alta monta

Por isso vou cuidar de contratar advogado.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk







TE ESPERO COM UM SONETO

 TE ESPERO COM UM SONETO


Oi meu amigo, preparei algo para ti

É um soneto incompleto e carente

Com o fim de relatar o que hoje vi

Li muita poesia, vi inseto e vi gente


Mas, poeta, meu dia não foi normal

O passo do destino pisou na bosta

passei com dor na coluna cervical

que me deixou com um S nas costas


Nova onda de gripe A está prevista

Daí já não deixo a porta aberta

Por isso me sinto tão pessimista


Olhei o noticiário e lembrei de ti

Falava de poetas em descoberta

Que descobriram esta arte em si.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk





Tateando no escuro

 Tateando no escuro


Busco no poema a essência

Para iluminar meu rumo obscuro

Busco efeito mágico da cadência

É só o verso simples que procuro


Sigo tateando no escuro

Sem guia, sem clarividência

Sigo procurando verso puro

Sem mapa, sem muita paciência


Eu queria uma verve magnética

Desfile de rimas da minha verdade

Mesmo que se insinue cáustica


Preenchendo minha necessidade

Mas nunca o vazio da alma poética

Reescrevendo linhas em ansiedade.


Wasil Sacharuk & Decimar Biagini





misérias psicossociais

MISÉRIAS PSICOSSOCIAIS


O conhecimento abria perspectivas

As escolas se multiplicavam

Havia amadurecimento de cientistas

Que humanamente se solidarizavam


Horas e horas de dedicação

Num projeto desacreditado por muitos

Exaurida a vida numa invenção

Ridicularizada por sagrados cultos


Não quero calar o meu grito

Talvez eu escreva a canção

Do nó amargurado e aflito

No abismo dos meus vãos

A fé pode dar o motivo

Mas a vida pede razão


Hoje as informações estão democratizadas

Tão acessíveis, na era da cultura virtual

Espectadores com opções nada limitadas

Participando ativamente em um novo portal


No entanto, as promessas básicas

De expandir a qualidade de vida psicossocial

Do homem moderno, caiu em lágrimas

Em contato direto com a solidão, a mentira e o mal


O índio não quer mais apito

Vestiu canarinho e calção

Levou muito a sério o incentivo

De ver o Brasil campeão

Mantém o desejo vivo

Comendo migalhas de pão


Onde estão os pensadores modernos?

Dando golpes em cartão de crédito?

Invadindo Wall Street com seus ternos?


Onde estão os engenheiros de ideias criativas?

Burlando o PAC ou estádios na copa 2014?

Economizando em material para tragédias inventivas?


O governo dá o tom e o crivo

Deixa esse povo na mão

Do congresso ao executivo

Serviço sem prestação

O objetivo exclusivo

É dar asas para a ambição


Onde estão os poetas da inteligência

Que desenvolveram a arte de pensar

Com suas obras completas por excelência

Que extenderam ao leitor um evolutivo desvendar?


A vida largada aos confins da indiferença

Nem se percebe a vastidão dos passos

Cidadania agora é respirar esperança

E o fim solidário num imenso abraço


Por fim, ficou cansativo

Cumprir papel de cidadão

É mais fácil ser subversivo

Sem saúde e nem educação

Não haverá homem altivo

Abaixo do cu de um cão.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk





QUANDO O POETA CHEGA NAS CASAS

 QUANDO O POETA CHEGA NAS CASAS


O soneto sempre faz algum barulho

Seja irônico, engraçado ou de amor

Nossa arte é expressão e não entulho

E o poeta é um parceiro inspirador


Nossa cria trouxe-me orgulho

Já vejo o olhar atento do leitor

Cada soneto é um novo mergulho

Tu és artista, poeta, pai e professor


Já perdi o momento de ser pop

Mas fico feliz se a vaidade entope

Por isso vou na carona do amigo doutor


És também propagandista da NOP

E tua maturidade não requer ibope

Mas é algo que merece todo clamor



Wasil Sacharuk & Decimar Biagini






A parceria poética de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

 A parceria poética de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Toda grande parceria poética nasce de um acaso. A de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk nasceu de um acaso digital: os acrósticos compulsivos escritos na comuna Fernando Pessoa do Orkut, em 2008, que acabariam por gerar a comunidade literária Nova Ordem da Poesia (NOP) e, anos depois, este Da janela virtual (2012), antologia compilada dos fóruns em que os dois versaram lado a lado. O próprio título do livro é uma declaração de método: a poesia aqui não se faz na torre de marfim, mas na janela aberta para a rede — e, ao mesmo tempo, para a coxilha.

A invenção do "sonetiálogo"

O coração da parceria é uma forma que os dois criaram sem querer: o soneto dividido meio a meio, em diálogo entre os poetas, batizado pelo poeta LCP Valle de "sonetiálogos". Em Três anos em sonetos livres, eles definem o espírito da empreitada: "Da vontade libertada no verso / Mantida no esqueleto de um soneto / A amizade digitada no universo". Há aí uma tese estética que atravessa o livro inteiro: libertar o soneto da sua rigidez sem abandonar o seu esqueleto. A métrica cede, o jogo de pergunta e resposta entre Pelotas e Cruz Alta permanece — e a amizade vira forma literária.

Poemas como Chasque Dominical e Soneto Internauta — Pelotas e Cruz Alta mostram o procedimento em ação. No Chasque, o vento minuano "chega matreiro", o passarinho morto pela geada no costado da casa convive com a TV que "só fala em morte", e o domingo do poeta se resolve em "vinho, costela e mate". É o regionalismo gaúcho — o "sotaque campeiro e discurso bagual" de que fala Wasil no relato de abertura — atravessado pelo cotidiano urbano e pela tela do computador: "Numa conversa de poetas por um satélite no ar / Com um trago, um desafio e parceria para rimar".

O gaúcho e o internauta na mesma guaiaca

O que dá unidade ao livro é essa dupla pertença. Em Trova de Guapos, os dois assumem a máscara do versador improvisador — "Sou taura da presilha até a ilhapa, / não tenho cara de sorro manso" — num registro de payada que desafia, troca provocações e termina em deferência mútua: "em cada parceria a amizade se renova". Já A Venda da Oberta desce à colônia, com sua "jovem polaca" e o velho de "herança eslava", registrando o povoamento do Rio Grande pelo imigrante — o mesmo caldo de que o próprio sobrenome Sacharuk é herdeiro.

Mas a janela virtual também produz lucidez crítica. Misérias Psicossociais é talvez o poema mais denso da coletânea: contra a promessa frustrada da era digital — "as promessas básicas / De expandir a qualidade de vida psicossocial / Do homem moderno, caiu em lágrimas / Em contato direto com a solidão, a mentira e o mal" —, os poetas perguntam: "Onde estão os pensadores modernos? / Dando golpes em cartão de crédito?". A ironia social, que em As Fraldas do Brasil vira escárnio eleitoral declarado ("Tratei o voto / como jogo de loto"), mostra que o humor do duo não é mera brincadeira: é arma.


Melancolia, vinho e Orkut

Há também um fundo triste, quase elegíaco, que equilibra a comicidade. Em O Último Charrua, o índio "meio lobo sem sua matilha" na coxilha encena o desaparecimento de um mundo — "Que sina a sua, a última alma que passa". Em Obituário Filosofal, a morte aparece em imagens de deserto e sereia fora d'água, num lirismo contido que surpreende quem só esperava o chiste. E o poema-título, Da Janela Virtual, resume a solidão do escrevedor na rede: "Debruçado / e sem esperança / Feito um animal / Angustiado / Da vida que cansa". Já O Suicídio Revisto do Orkut Pessoal é um documento afetivo da época: o poeta que já pensou em sair da rede e volta "para o vício da doença sem cura / De escrever num azul de letras pretas" — as letras azuis em fundo branco do Orkut viraram metáfora de adição literária.

Soneto de bêbado não tem proprietário

O que sustenta tudo, porém, é a cumplicidade. Em Sonetos com as Botas Cheias, o improviso alcoólico dos dois rende a melhor autodefinição do método: "Soneto de bêbado não tem proprietário". Em Sacharuk — Um Vivente Bagual, Decimar homenageia o parceiro numa cascata de "meios" — "Meio bruxo meio pessimista / Meio louco meio mago" — que só pode terminar como termina: "Mas acima de tudo / Um completo amigo". E em Um Domingo Diferente, a declaração final: "Abri meu coração, foi o melhor que fiz / Lancei a voz no mundo / encontrei o amigo escritor".

Da janela virtual é, no fundo, um livro sobre o que acontece quando a amizade encontra uma forma. Decimar e Wasil descobriram que o soneto — forma antiga, "acadêmica", quase museológica — podia ser refeito à imagem de dois gaúchos conversando por satélite, entre mate, canha e Orkut. Como eles mesmos escrevem em A Origem do Sonetiálogo Gaúcho: "Nascia o soneto sem métrica e sem prumo / Não era acadêmico e nem era arremedo". Não era. E a prova está nestas páginas, onde a tradição campeira e a internet se dão as mãos — ou melhor, se brindam.

Leia os poemas da parceria: https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Decimar%20Biagini?m=0

poema paisano

 Poema paisano


pendurado perpendicular

parece pacote pendente

pelo precipício

pichando paredes

pincela profanos painéis


poisa pleno

para proferir palavras

pacientemente paridas

pecador perdido

pássaro pagão

pensa pagar pelo pão

pífias promessas

porém prova pobres pratos

pagos por parcas patacas


padece pela peste

perece pela praga

paga pesado preço

pelas pílulas punitivas


parte protegido

pela paisagem

paisano pelos pampas

passa portas

pula pedras

percorre praias

prados

puxado pelas pernas


pesca peixes pictóricos

pelo profundo panorama

percebe passar patos

pelos parques

pelas páginas poéticas


paira pela paixão

paladino pateta

plana por puro prazer

planta papoilas

para penetrar pelas pétalas


permanece poeta

preso por piedade

profere parábolas

previsões profecias

pensa pedaços

pequenas partículas

para pintar poesia.


wasil sacharuk




Respirando as cores do vento

 Respirando as cores do vento


Amigo, senta aqui comigo

vamos conversar?


vamos falar da vida e das dores

e dos amores que temos

e dos que ainda queremos conquistar?


Que tal um pouco de nostalgia...

uns dez anos de melodia 

e mais um tanto de poesia?


E se faltar algum brilho

vamos pintar o ostracismo

com faces de novidade?


Amigo, vamos sair juntos

para caminhar?


Desbravar a rota das flores

margaridas e crisântemos

respirar todas cores do ar


Até que amanheça o dia

outro dia e outro dia

palavreando sem pensar


E se faltar luz

vamos incendiar a tristeza

com faíscas de amizade.


Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk



a desvendar mistérios

 a desvendar mistérios


vasculhei flancos 

e cantos da mente

em busca de dons escondidos

contra incidentes descabidos

e essa culpa 

aguda e silente


e cantei à surdez dos ouvidos

indiquei contramão do oriente

ensaiei ficar indiferente

à outorga dos risos escondidos


desbravei infinitos de chão

de tudo e nada 

de sim e de não

revirando os ossos 

dos porquês


e segurei a poesia nas mãos

pois sei que ela é a razão

que sempre faz

eu tentar outra vez


wasil sacharuk




Rio Grande do Sul

 


Rio Grande do Sul


quando piá ouvi o canto

cresci no doce mistério

ganhei da vida o encanto

no anúncio do quero-quero


cavalguei minha sina da terra

no lombo do velho pingo

por seis dias subi a serra

e nem descansei no domingo


sou amor pelo Rio Grande

e toco essa lida avante

tal animal orelhano

no cambicho do minuano


e canto a quem se encante

que fique e siga adiante

e seja um gaúcho de fato


quem ama o meu Rio Grande

rincão peleador e gigante

dos ximangos e dos maragatos


wasil sacharuk


as horas e as águas

 As Horas e as Águas


Quedam-se águas de tristeza

destemperanças derramadas

perdem-se gotas de beleza

amolecidas 

e consternadas 


As horas insistem paradas

descaso que abraça o instante

leito infinito 

no rumo do nada

desoriente ao navegante 


Sem mais cristais no futuro

apenas rochas indiferentes

as gemas opacas no escuro

jamais terão outro presente 


As horas destilam cadentes

ponteando um tempo tardio

a dor que brotou na nascente

não vai parar 

o curso do rio


wasil sacharuk


caprichosa cura

Caprichosa cura


carecia contar certos causos

com considerações concernentes

contos contados 

com conclusões certeiras


carecia conhecer ciências

considerações coerentes

conjugar conhecimentos

com coisas convincentes


carecia cativar corações

costurar cortes

curar convalescenças

conduzir crenças

com carinhoso critério


carecia cantar

comovente canção

com cuidado

caprichosa cura


carecia companhia

câmera com cordas

colorida com clarinetas

contrabaixos

cítara

címbalos

condução competente


carecia conjugar

coisa com coisa

crença com conhecimento

ciência com coração.


wasil sacharuk


certas circunstâncias

 Certas Circunstâncias


Calo...


Calo conforme coração cede

cutuca célere 

comovido

coração caído

consignado 

com certas circunstãncias


Coração carece calar

cessar consonâncias

cessar calores

carinhos

conversas cantadas


cada certeza 

cai calada

carrega consigo

cada conclusão conveniente


calo com companheiros

com compromissos

com conquistas

com carinhos


certas circunstâncias

conduzem corpo calar

consternado

cativo

caindo como casarão centenário

corroído


calo, contudo

continuarei 

cortando caminhos

com cabeça competindo

com certas circunstâncias.


Wasil Sacharuk





lírica!

 Lírica!


Lírica do grito desvairado

Investe teu sonho pervertido

Risca na minha pele nua

Interstícios de suor decantado

Cata as gotas vertidas

Antes que o sol se insinue


Derrama os versos, louca

Ousa recitar ao meu ouvido

Saliva um poema em minha boca


Serve a poética aos seios

Envolta no fogo imaginativo

Incendeia sob o vestido

Os versos do meus desejos

Seduz o meu olhar cativo


wasil sacharuk


meus velhos cacos



meus velhos cacos

Se me desgarro da ventania
ronca a bomba das velhas tristezas
busco os sorrisos nas cercanias
no rincão que é o pago
das minhas belezas

quando cai a noite na estância
a cordeona chama a dança
o guaipeca, a prenda e as crianças
alegria ao luar da querência

o mate da noite ao pé da coronilha
a prenda me balda
no abraço apertado
o cambicho segue alvorotado
se esparrama por toda a coxilha

dou de laço na vida xerenga
no revesgueio dos velhacos
não levo vareio nem fico capenga
acolhero os meus velhos cacos.

wasil sacharuk

militância

 Militância


-O trabalho é fácil: você vai militar no facebook. Consiste em compartilhar posts mentirosos e denegrir os opositores. Moleza. Até criança faz.

-Mas, dona Gleisi, se alguém perguntar algo que eu não sei? O que eu faço?

-Sabe dizer: não vai ter golpe? Sabe? Então diz aí.

-Sei, "não vai ter golpe"

-Isso, perfeito. Então repete isso sem parar. Não vai precisar dizer mais nada.

-Mas se o coxinha insistir? Tem uns que insistem.

-Se o coxa insistir tu cospe nele

-Cuspir pela internet?

-É, acho que não dá. Então diz "não vai ter golpe"... fica repetindo. No fim do dia te trago um pão com mortadela

-E os trinta paus, a senhora vai trazer também?

-Não dá, o diretório está com dificuldades. Roubaram o cofre.

-Então acho que não vou querer o trabalho, dona Gleisi.

-Seu fascista, reaça! Você tem ódio de pobre, seu elite branca!


wasil sacharuk


molemar

 Molemar


Adocei melamor

a amargador

dessa rimacu

sei de cor


lancei corpomol

sobromar

desandou molemar

molemar


Malamor, mintenda

vertente rebolenta

dos beiços caldeados


molemar malamor

locamor

malamor molemar

molemar


Malamor, miscuta

teu jeito disputa

sereia do mar


molemar malamor

locamor

malamor molemar

molemar


Adocei melamor

a amargador

dessa rimacu

sei de cor.


Wasil Sacharuk






a cavalgadura da caterva

 a cavalgadura da caterva


ao esplêndido berço

donde pastam ovelhas

estende toalha de mesa

velha bandeira vermelha

agora é só pano


larga a pinga

sobre a estrela amarela

quer ter um remédio

contra o tormento


há um vácuo no crânio 

dos jumentos

que provoca esquecimento

e os fazem andar sem intento

pelas vielas

repetir os enganos

pelas noites da cidade


o sol da liberdade

é quadrado

visto de uma cela

nenhum raio fúlgido

nenhum plano


e a récua deita nos campos

para ver futebol e novela


wasil sacharuk 


outros ventos

 Outros Ventos


Há pouca escolha a quem teme

pois sempre haverá um destino

as velas ao vento do norte

as vidas na alçada da morte


E quem faz o escrutínio

quando a sorte vira o leme?

acaso não haja quem reme

cumprirá o destino o desígnio


Com naufrágios e ventos fortes

a existência é só um pacote

a obra da vida em desatino

sobre o alicerce que treme


Talvez a maldade nos queime

quiçá os ventos mudem o sentido

ou uma nova leitura da sorte

esconda o arcano do corte


E de todo o tempo investido

enquanto esse medo ainda reine

e não mude, não faça e não teime

a vida atracada num porto perdido.


Wasil Sacharuk


ponte para o retiro

 ponte para o retiro


quero cruzar pela ponte

que interliga horizontes

leva ao céu tal escada

enrosca na crosta do mundo

lá no fim disso tudo


e lá encontro o início do nada


quero planar nas estradas

asfaltos, vielas e trilhos

verei sedentários e andarilhos

nos cantos das ruas

sob a mesma lua


com a mente resignada


quero alma elevadiça

visão privilegiada

ver de longe a injustiça

as mentiras e a cobiça

a dignidade ultrajada


decerto vi isso antes


quero montar elefantes

não deixar minhas pegadas

gravadas pelos caminhos

para evitar emboscadas

dos espíritos dissonantes


e trilhar o universo sozinho


wasil sacharuk


que se dance



que se dance

a que diabo serve
todo brilho de verve
que se consome faceiro
no óleo do candeeiro?

posse coisa de momento
porém todavia contudo não é

todo dia sai um rebento
trazido pela maré
sem dificuldade

e o meu pensamento
é alugar um chalé
no centro da cidade
de São Lourenço
sem rádio nem tevê

alto do chão de tão leve
o espírito se atreve
insinua arteiro
abre as portas do puteiro

fosse coisa de momento
mas porém contudo não é

é desejo sedento
ou profissão de fé

fogo que arde
sopro do vento
qualquer outro clichê
que cause alarde
pelo entendimento
ou pela batida do pé

wasil sacharuk

a paz do vazio

 A Paz do Vazio


Houve dias em que fostes minha unica estrada

Meu unico caminho, minha verdade...

Houve dias em que tua voz era lei

E já nem sei, por onde andam tais dias


De nós quase não lembro mais nada

das nossas tardes no centro da cidade

perdi no tempo tudo o que a ti jurei

bem que tentei, mas não encontrei poesia


Os nossos versos soltos pelo vento

cartas de amor, amarelaram lentas

nem mesmo tormentas, existem mais


Nosso mundo foi tragado pelo tempo

Não há mais calor, nem nos dias quentes

ficamos indiferentes, encontramos a paz.


Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk


aspirações aceleradas

aspirações aceleradas 

Amanda andava altiva
alma aérea
abrupta
avançava aos ares
angulosa
a alimentar anjos astrais

abdicava as amizades
aspirava ao amor
algum amor
ah!

Amanda acreditava
áries ascendente áries
astuta, auspiciosa
alto astral!

amor às antigas?
ah ah ah ah

Amanda
a avassaladora
astuta artista
acessível
altamente acessível

acenava
acintosamente
abordava alguém
assim... alguém
aleatóriamente 
almejava algo anônimo
atestava acordos amorosos

afoita
adentrava alcovas
apagava abajures
abria as alças
abraçava apaixonada
acariciava
acoplava
amor abrasante
amor animal

Amanda acesa
ardente
abaulava as ancas
arqueava abundante
ajoelhada
abocanhava
aspirava

arrebatadora
afim... adentrada

assimilava
até abarrotar
abençoada
ao amor abreviado
alma absoluta
alma abastecida

avião aterrisava 
Amanda alimentada
agradecia
assistia ao amante
acabado
abafado
abatido
aturdido

wasil sacharuk

sopro norte dos ventos

  sopro norte dos ventos

 

índia menina

na terra da dor e da rima

da tribo dos versos rasgados

trazes tristeza enlaçada

nos cabelos entrançados

 

quero estar

nos traços da lua

por querer te saber

por te querer

 

sonhaste tanto 

durante dias inteiros

atravessaram janeiros

ilusões e desencantos

desenganos e devaneios

 

Índia menina 

todos os dias

revela um segredo 

escrito no chão

no arroubo da perfeição

que de tão perfeito

provoque algum medo

 

deslizo os dedos

entre teus cabelos

acarinho tuas queixas

afago as lembranças

liberto os lamentos

desfaço tuas tranças

ao sopro norte dos ventos

 

wasil sacharuk


chove

 Chove


Pingam os pingos

labirintos


caem as águas

maremotos


mortos os mortos

afogamento


chove e chovo junto...


Singram os vincos

malabaristas


vertem as mágoas

mares mortos


correm os córregos

sentimento


chove e choro muito.


Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk


da envergadura ao voo

 da envergadura ao voo

 

o que te prende o olhar

e te obriga a escrever?

 

acaso te suspendeste 

nas linhas inimigas

que conduzem palavras?

 

o que sabes das garras

que perfuram a fronte?

 

arrancarei-te as asas

para que tu me contes

 

faças o que faças

espinha com farpas

depois te abandona

 

em divagações inexatas

razões insensatas

e logo abaixo 

assina teu nome

 

wasil sacharuk

sopro

 

Sopro

O convite feito era para dançar
mas chegou aos poros da poesia
um convite para amar

Embebidos na magia
os versos verteram suor
falaram das coisas belas

E a despeito do pudor
que se fazia véu sobre as janelas
soprou as velas das rezadeiras

Cobriu-se do sopro que a noite enleia
esperou o rebento do dia
repleta de lua faceira

Angela Mattos & Wasil Sacharuk



desejo confesso

 

Desejo confesso

Gosto de ficar em teu peito
leito donde verte minha poesia
gosto dessa tua mania
de me bagunçar os cabelos
os pêlos e os versos

Gosto dos rumos dispersos
que conversam com tua ousadia
e gosto da tua filosofia
que me faz sucumbir em desvelos
meu desejo confesso

E gosto além da conta
dessa afronta dos beijos teus
ah o apogeu em tua boca
quando sente-me a pele sedenta
e me sacia o corpo ávido

Mas amo o sorriso tão cálido
que os teus lábios ostentam
quando se abrem aos meus

Angela Mattos & Wasil Sacharuk



tão somente

 

Tão somente

Senti agitar-se
o amor comportado
incomodado com as amarras

assisti afiar-se
ao desígnio das garras
o amor assustado
quer ser amor
tão somente

regurgitando o morno
salivando pelo hálito quente
repudiando o hábito idílico

vi espiar pela fresta
sem temer a escuridão
sondar o coração
e descobrir-se ofegante

e vi naufragar tal aresta
nas vertentes da interseção
na rota angular saliente
quer ser amor
tão somente.

Angela Mattos & Wasil Sacharuk







a névoa e a nudez

 


A névoa e a nudez

Sussurraram as estrelas
alertando sobre o que ia nas sombras
mandaram correr e calar a poesia
mas a revelia das rezas
deixei o manto que me cobria

Vertia da escuridão o som de teus escritos
algo entre um mantra e um beijo
um alerta bendito, um chamado maldito
um verso me mandou fugir
escapar e cobrir minha nudez

Tarde demais...
tua névoa já havia tocado minha tez
navegante obscena dos mundos abissais
arrancou minhas roupas na magia
do teu rito

Tua mão obstinada conduziu os manuscritos
linhas desprovidas de limpidez
espíritos andantes sem valia e nem porquês
tomaram forma pela luz da eufonia

Tarde demais...
tua boca incandescente calou o meu grito
morto transpassado pela tua ousadia
murmuraste em minha nuca poemas letais
e despenquei insólita no teu infinito.

Angela Mattos & Wasil Sacharuk







o cheiro do cio

 

O cheiro do cio

Peço-lhe um beijo
e distraio a espera
brincando com cachos e laços
com fendas e fitas
com a renda bendita
que vela os lábios que fremem
e os poros que gemem
ansiando por um sim

Entrego-lhe desejos
nas repletas gotículas
que desaguam quimeras
logo embebem os espaços
entre anseios e as pernas
quando se abrem e tremem
e se denunciam abertas
ansiando por um sim

E conto as horas e os cafés
as pétalas e os ramos
conto as rezas e os danos
refaço o bordado que se desfez
beije-me de uma vez
peço na ladainha
que é mais febre do que fé
e na água que ferve
a erva é chá sagrado
mas o aroma é cio almiscarado

Respondo aos apelos
dos beijos revelados
entre os meus seios
o segredo e o pecado
do gosto e do cheiro
divino e vadio
do cio almiscarado

Angela Mattos & Wasil Sacharuk








metade

 


Metade

Tenho pra ti meio poema
escrito meio sem jeito
sobre as pernas meio abertas
meio suando entre as letras
de uma escrita meio atrevida
a espera de uma linha para se esparramar
meio vestida...ou totalmente despida

e por meio do meu meio
que tu me chegas inteiro
murmurando meias palavras
meio sem meias medidas
com intenções meio incertas
metendo a metade a me completar
em versos de poesia
meio proibida...ou totalmente perdida

Angela Mattos & Wasil Sacharuk









A PARCERIA POÉTICA DE ANGELA MATTOS E WASIL SACHARUK

 A PARCERIA POÉTICA DE ANGELA MATTOS E WASIL SACHARUK 

Uma escrita de interpenetração

O traço mais forte dessa parceria não está nos temas — erotismo, desejo, entrega — mas na construção formal que os poemas adotam. Quase todos funcionam por espelhamento e simetria: o eu lírico de um poeta provoca, e a resposta do outro chega como consequência necessária, não como réplica. Em metade, esse dispositivo é levado à perfeição: o poema inteiro é um jogo com o morfema "meio", que se degrada e se multiplica ("meio poema", "meio sem jeito", "meias palavras", "meio proibida...ou totalmente perdida") até colapsar na linha que justifica o poema todo — "e por meio do meu meio / que tu me chegas inteiro". É engenharia poética de altíssimo nível: a metade vira figura do próprio poema a dois, e a totalidade só é alcançada pelo que é incompleto. Não creio que esse verso sobreviva em escrita individual; ele só existe porque há dois.

A voz de Angela Mattos

A contribuição de Angela salta aos olhos nos poemas em que o vocabulário devocional é profanado por dentro. Em o cheiro do cio, rezas, ladainhas, chá sagrado e bordados desfechos orbitam um desejo que "é mais febre do que fé" — a religiosidade popular (as "rezadeiras" reaparecem em sopro) é usada como matéria sensorial, não como crença. Há ali uma feminilidade poética concreta: renda, cabelos, seios, pernas que "se denunciam abertas" — o corpo feminino não é descrito de fora, é quem fala. Essa é a diferença crucial em relação à poesia erótica masculina tradicional: em desejo confesso, a imagem do peito amado como "leito donde verte minha poesia" inverte a posição — a mulher habita o corpo do homem como quem se abriga num texto.

O toque de Sacharuk

Sacharuk traz o que sempre trouxe: a precisão geométrica e a violência contida. Em tão somente, o amor comportado que "se afia ao desígnio das garras" e a naufragar "nas vertentes da interseção / na rota angular saliente" — essa geometria da paixão, com ângulos e arestas, é assinatura dele. Em a névoa e a nudez, a sedução é tratada como rito quase letal: "poemas letais" murmurados na nuca, um "navegante obscena dos mundos abissais", o tu que "arrancou minhas roupas na magia do teu rito". O perigo, a heresia, a névoa que toca a pele antes que se possa fugir — é o Sacharuk telúrico e pagão, aquele que recusava a fé institucionalizada para situar o divino na carne e na terra, agora filtrado pela sensibilidade de Angela, que devolve esse mundo em chave de encantamento feminino.

O que a parceria produz que nenhum produziria sozinho

Se eu tivesse de resumir em uma frase: a tensão entre a nudez e o véu. Os poemas vivem exatamente nesse limite — a renda que "vela os lábios que fremem", o pudor "que se fazia véu sobre as janelas", a névoa antes da nudez. A Angela concede o pudor, o bordado, a espera, a ladainha; o Sacharuk insiste na invasão, no sopro que apaga a distância. O resultado é um erotismo que nunca é explícito por grosseria nem recatado por convenção — ele é declaradamente ritual, quase litúrgico: confessar desejos, rezar por um beijo, dançar até chegar "aos poros da poesia".

Tecnicamente, destaco três acertos: o uso de rimas internas e assonâncias que dão aos versos uma textura de cantiga profana ("o gosto e o cheiro / do divino e vadio"); o verso curto, de respiração suspensa, que imita o ofego do próprio tema; e a honestidade de não resolver os poemas — tão somente termina onde começou, no querer "ser amor, tão somente", como se o amor permanecesse sempre em estado de reivindicação, nunca de posse.

Leia os poemas dessa parceria aqui: https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Angela%20Mattos