um beijo é pouco
precisa muita saliva
a regar a rosa
wasil sacharuk
de água e areia
vivi o amor profundo
chão de oceano (haicai#1)
wasil sacharuk
enquanto não colhes
a natureza te ama
e te deixa dormir
wasil sacharuk
Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
O CURSO DE UMA PARCERIA
(DOIS ANOS DE DECIMAR E WASIL)
A cultura é nosso alimento
Servido na idealização virtual
O poema dá asa ao pensamento
Escandido ou em improvisação usual
Enchemos barriga com letra de vento
A verve visita o futuro e o passado ancestral
Testemunhamos a perda do trema e acento
A poesia quebrou a tramela do novo portal
Toda a nossa força ao longo dos anos
Que partiu de atividades lúdicas pelo virtualismo
Tomou compromisso em outros rumos
E sorriu nas proximidades do pluralismo
Conhecemos o signo de outros arcanos
Abarcados na sistemática do empirismo
Tentamos riscar com auxílio de prumo
Para desvendar o segredo do lirismo
Uma vida de leveza em parceria poética
Que trouxe pessoas com ideias em comum
Uma sensação experimentada pela dialética
Em semânticas despretensiosas oriundas do sul
E a inspiração nunca foi esquelética
Nessa antologia sempre cabe mais um
Nem de vanguarda e nem velha caquética
A fome de versos nem pensa em jejum.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
Futuro do Hoje
Hoje acordei a fluidez
Cores escorriam brancas
Na tela azul daquele dia
Ouvi sorrisos de criança
Hoje rasguei a minha tez
Avancei minhas retrancas
Reli um livro de poesia
Plantei semente de esperança
Hoje chamusquei velhas folhas
Bolhas de sabão eu pintei!
Hoje prometi para o ontem
Não me esquecer do amanhã
Hoje repensei as escolhas
Nas asas da fênix viajei
Ergui a alma sobre o monte
Novo colorido a uma tela vã
A obra, cujo título é futuro
Hoje acaba de ser iniciada
Com pinceladas de verdade
Aladas ondas na própria tela
Vou iluminar o tom escuro
Novo horizonte e nova estrada
Serão os objetos da vontade
Um abraço na vida mais bela.
Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk
para firmar o cambicho
chama logo o padre
bagual
e te acolhera com a prenda
tu vais de bombacha
que é teu normal
e ela vai de vestido de renda
o carancho véio fará perguntas
tu concordas com tudo
o que ele diz
pois doutro jeito tu não te juntas
e a gauchada quer festa feliz
chama os viventes da cercania
escreve o convite em poesia
e garante uns tragos
para o gaiteiro
para festejar o lindo cambicho
vamos alugar o salão do bolicho
e levantar poeira
um dia inteiro
wasil sacharuk
o alienígena
Todas as manhãs o alienígena acorda e toca o próprio corpo para sentir que existe de fato. No quarto, o espelho embaçado pelo seu assopro é a certeza da sua interferência nas coisas do mundo. Roda e roda pelo submundo. Também visita lugares seletos, mas só ouve murmúrios incompreensíveis das pessoas que conversam em seus próprios dialetos. Alheio a tudo, suas ideias também não são acessíveis aos mundanos de qualquer lugar. Assovia uma melodia singular. Todavia, o alienígena voa, quando poderia simplesmente andar, mas prefere se locomover logo acima das cabeças dessa gente esquisita. Vez por outra, ouve vozes distantes e sons dissonantes e isso tudo o irrita. Também vivencia eventos antecipados nos sonhos premonitórios. Tudo ocorre da forma como sonhou. Seu olhar é um observatório, por isso vê as pessoas por dentro. Não tudo, mas os traços das personalidades e um tanto de seus pensamentos. Ele simplesmente sabe quando alguém é do bem. Além disso, lê os mais finos gestos de mãos, as falas mais rebuscadas, os sorrisos... Assim ele conhece vários níveis de qualquer pessoa e suas conclusões são infalíveis. Alguns o assustam, outros provocam tristeza, poucos o fazem sorrir timidamente. Ninguém o faz sentir-se contente, leve e cheio de asas resplandecentes.
wasil sacharuk
Nua e mais nada
quero tua palavra nua,
sem pele, sem remendos, sem acertos
quero tua palavra rabiscada
exagerada
sem lamentos
quero tua palavra direta
enxertada
enfiada
afiada
aprofundando minha alma de teu perto
quero decorar teu dialeto
ouvir tua boca calada
mascando palavras repletas
sem ornamentos
sem emboscadas
tua tônica sem acento
teu verbo sem movimento
em locuções encantadas
quero a palavra que completa
e mais nada.
Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk
O pingente
Mariana finalmente encontrou o pingente no cantinho da pia marfim, ao lado da saboneteira. Ela o havia perdido pela casa há três ou quatro dias. Tentou segurá-lo, no entanto, molhada e escorregadia, a joia tilintou sobre a torneira dourada, repicou repetidas vezes sobre a cerâmica cinza e perdeu-se novamente.
Dissuadida da nova busca, cuidou de abrir a água para encher a pequena banheira de hidromassagem.
Mariana sentou-se ao vaso e passou a escovar os cabelos com a escova de largas cerdas. Sentia arranhar levemente o couro cabeludo percorrendo memórias que escorriam às vertentes ao longo dos fios negros e lisos.
Penteada, segurou a toalha preta entre as duas mãos e descansou sua face sobre ela. Apertou o tecido sobre os olhos.
As memórias persistiam.
Enquanto despia-se, percorreu o chão com o olhar e encontrou o pingente caprichosamente oculto no vão entre os dois tapetinhos azuis.
Abaixou-se, resgatou a peça e observou-a demoradamente. Logo, jogou-a hesitante dentro da banheira já quase cheia.
Entrou lentamente na banheira, resgatou a jóia e a prendeu firmemente na mão direita, fechou os olhos e deixou a água cobrir sua cabeça.
Contornado pela forma de uma folhinha de palma, havia um nome sutilmente gravado no pingente de ouro junto às lembranças submersas.
Mas o nome não mais importa quando uma história chega ao fim.
wasil sacharuk
Parindo futuros
Ando rasgando certezas
dissimulando conceitos
refazendo o tear
Ando apagando belezas
percorrendo os intentos
anunciando degredos
Ando bipartindo medos
parindo sonhos como fazem as nuvens
quando venta
reduzindo abstratas formas
a novas descobertas
Ando abrindo vielas
mordendo desilusões e as digerindo
engolindo frações das coisas complexas
com sentimentos mais puros
Ando alucinadamente
parindo futuros.
Marcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk
a desvendar mistérios
vasculhei flancos
e cantos da mente
em busca de dons escondidos
contra incidentes descabidos
e essa culpa
aguda e silente
e cantei à surdez dos ouvidos
indiquei contramão do oriente
ensaiei ficar indiferente
à outorga dos risos escondidos
desbravei infinitos de chão
de tudo e nada
de sim e de não
revirando os ossos
dos porquês
e segurei a poesia nas mãos
pois sei que ela é a razão
que sempre faz
eu tentar outra vez
wasil sacharuk
Meus guris
Não saiam da rima
não percam o clima
tudo o que a vida ensina
é a insistência dos dias
a perpetuação das manias
e os disfarces da poesia
Como disse tia Marisa
se eu não me engano
sintam no rosto a brisa
liberta do minuano
Escrevam em versos a vida
caso for dolorida
caso for um engano
façam dela poema
mesmo rima e sem plano
sem razão ou sistema
até fora de esquema
ou propósito insano
Façam dos dias dilemas
dos inimigos teus manos
das dores não façam danos
e jamais se esqueçam
que os nossos problemas
são desafios dos arcanos
E sempre compreendam
que o horror dos sistemas
são desígnios humanos.
Wasil Sacharuk
O mestre e o coelho, um poema de Páscoa
O grande mestre inesquecível
do amor, da morte e da vida
fascina a todo que investiga
porque sua fé o tornou invencível
Antes de ser crucificado
passou coragem e sabedoria
deixou frases como aprendizado
nem mesmo a tortura o impediria
de deixar o amor e a fé como legado
E essa herança indescritível
fez a humanidade dividida
o mestre morreu a ainda briga
e sua palavra é o motivo plausível
Mas o mestre deixou seu recado
que foi interpretado à revelia
enquanto a igreja inventou o pecado
vendendo remédio pra toda a agonia
com coelho dentuço e chocolate melado.
Decimar Biagini & Wasil Sacharuk
O POETA E O LEITOR
Nada se interpõe entre o poeta
e o destino superado pela obra
Nada se sobrepõe ao hermeneuta
que alinha alegrado à manobra
O poeta faz a lida virar fato
em forma e conteúdo no entremeio
inventivo, narrativo ou abstrato
Convida o leitor para um passeio
No trajeto infindável de sua meta
se delineia de instável à normal
o objeto maleável da obra aberta
Por sua vez, o leitor se é atento
Remexe, vira, põe e tira o sal
e colabora com cinquenta porcento.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
plexo solar
se sinto o que penso
se sinto o que digo
sinto o que penso que sinto
provavelmente minto
se falo encontro o amigo
depois eu dispenso
o momento é intenso
mais tarde eu nem ligo
em cada sentimento distinto
eu provo o absinto
divido contigo
um viés do meu lenço
digo que sinto imenso
comunico e complico
traduzo meu instinto
numa costura sem vinco
se sinto e não digo me intrigo
e me encontro em poema pretenso
disforme libertino e sem senso
só para beijar meu umbigo
wasil sacharuk
A passarada vista da varanda
há gente que teima
em achar poesia
onde poesia já não existe
escrita sob demanda
não há chegada
nem despedida
beijo de entrada
ou até de saída
quase sempre desanda
mas nunca desiste
há gente que teima
que passarinho passa o dia
a ouvir canções tristes
em vez de cantar ciranda
da varanda
vemos a passarada
a jogar sementes de vida
tirar sentido no nada
coisa mais que sabida
isso sempre encanta
e a poesia resiste resiste...
Wasil Sacharuk
malleus maleficarum
havia jurado
coisa alguma
julgado por heresia
condenado ao fim dos dias
falácias despudoradas
a única verdade
sustenta a insanidade
de subtrair prata vultosa
a garantir o óleo
da lâmpada luminosa
desaparecidos amigos
já há uma semana
Gerard, Eliphas, Joana
levados do abrigo
que o demônio
não os tenha
lançado ao fogo
a carne
as vísceras
os ossos
a corda aperta o pescoço
desenlace da sina
o repúdio
a ira
a raiva assassina
a cara escarrada
da hipocrisia
infeliz arremedo
dispara ditames
alastra a dominação
o rastro de medo
em nome da salvação
wasil sacharuk
Lusofonia de um poema
As minhas palavras de Fado
gostam de cantar continentes
e dançar carnavais de funaná.
As minhas palavras de bacalhau
têm fome de cachupa e funje
e sede de água de côco.
As minhas palavras de Tejo
navegam pelo Amazonas
e banham-se no Zambeze.
Quem as quiser encontrar
tem de ter na mão um planisfério
e descobrir onde fica Lusofonia
Digo alguns versos de samba
às ruas de Trás-os-Montes
com os Pauliteiros de Miranda.
Digo alguns versos de feijoada
com um tanto de óleo de palma
e uma garrafa de vinho do Dão.
Digo versos de pedra da Mina
que ecoam na Montanha do Pico
e são ouvidos no alto do Binga.
E quem os quiser escutar
tem que sucumbir aos mistérios
e as belezas da Língua Portuguesa.
Emanuel Lomelino & Wasil Sacharuk
Meus Tons
Algo em mim tem tom lúgubre
caverna escura insalubre
para guardar os meus eus
também cintilo um tom vivo
certo calor radioativo
retido sob os meus véus
minha face é tão pálida
de melanina inválida
para clarear o meu céu
meu sentimento é tão blue
rústico ríspido e cru
matizes frios dos meus breus
e eu me dissolvo nas cores
máscaras das minhas dores
em tons que não são meus
wasil sacharuk
O SURGIMENTO DA POESIA
A poesia advém da própria fala
Fruto da necessidade de comunicação
entre elementos da alma que não cala
Produto da oralidade e da contemplação
O poeta recita a alma nas salas
insinua a linguagem enamorada
em versos embecados de gala
cria mundos no alicerce do nada
Das narrativas primitivas surgiu o ritmo
que é a sonoridade da palavra já cantada
ou simplesmente o rimar no aspecto lírico
Os versos decantados ganharam asas
do aço diluído na palavra revelada
e vida capturada em contexto estilístico.
Decimar Biagini & Wasil Sacharuk
OBITUÁRIO FILOSOFAL
Morrer,
cair como um grão de areia
no deserto da existência
Do que viver cara feia
em norte que desnorteia
dessa obsolescência
Fenecer,
como fora d’água uma sereia
na secura da insolvência
Do que a banheira cheia
mas preso numa cadeia
entre hipocrisia e carência
Esmorecer,
subitamente como uma abelha
após soltar o ferrão pela indecência
Do que ser como ovelha
sem progresso ou centelha
nas fronteiras da demência.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
Pura
Cada palavra, perplexo
Cada cume um uno
Palpita tesão dislexo
Cada desejo uma fome
Cada estrofe desforme
Cada respiro
Engolindo
Seu suspiro
cada vão desconexo
cada escolha um rumo
que valha um amor sem nexo
em cada nó que consome
cada palavra de fome
naquilo que inspiro
subtraindo
tuas defesas
sua forma
seu trejeito
aquele desejo
nunca deforma
toma forma
toma a mim
toma
e toma
em coma
meu mundo perfeito
entre um beijo
e o que me toma
e retoma
como um fim
e tuas
tão tuas
são minhas
e fome
vai
me engole
nua
tão crua
nas manhas
que se come
que se bebe
que se fode
a loucura
mais pura.
Dani Maiolo & Wasil Sacharuk
aos amantes
aos amantes
sou desvelo
escuto segredos
solto os cabelos
sei rir das piadas
mas não sinto nada
além do corriqueiro
os amantes
oferto sarcasmo
alguns pleonasmos
bem redundantes
e traicoeiros
além de orgasmos
muito vibrantes
mas não verdadeiros
wasil sacharuk
as diferenças
a alma das dores
reverbera nas noites
pela eternidade
não foi por desavença
nem pelo estalido do açoite
sequer a sina da negritude
ou a farsa da liberdade
sobrevivem as diferenças
na corrupção da atitude
na falta de boa vontade
wasil sacharuk
batom
acordei cedo
não estavas
ao lado direito
senti um receio
aperto no peito
nenhum recado
nenhum beijo
fui ao banheiro
olhei no espelho
achei tua boca
estampada em vermelho
e de novo o vermelho
aflorou meu desejo
wasil sacharuk
Beatriz
Seu rosto, branca tela em nu semblante,
Beatriz que, a mim, seu Dante, fez omisso.
Mostrou-se em todo o viço e o torturante
Requebro serpenteante a torna aquela
De olhares de gazela e seus rompantes
Com brilho de diamantes, de silícios.
Em frestas e interstícios balbuciantes,
Segreda-nos desplantes, minha bela,
O deus que me acautela e é tão gigante
Que faz mirabolantes meus suplícios
E remete-me aos vícios, oh, donzela:
Mulher que se revela e, ofegante,
Se dá exorbitante em sacrifício.
Se faz meu precipício, minha cela...
Magmah & Wasil Sacharuk
Canto da Invernada
Se passa acolherando vidas
e aquerenciando a clausura
que se faz dessa invernada
e nem se espera mais nada
de qualquer patrão superior
ou de um loscanha estanciero
a lida tem sido tão dura
já passou tanto janeiro
o capataz anda abichornado
meio preso nos arreios
mas quem não se encanta
na perplexidade da lábia
que discursa o forneiro?
que manda um rasgo estridente
a irromper pela sesmaria
gritando para ver calmaria
E eu que sou peão velho
levanto os pelegos no pago
e toco reponte sem embargo
abro cancha ao meu filho
que alimente nosso tordilho
faça que o pingo ganhe asas
troteie bem longe das casas
que se dispare haragano
a traçar destino orelhano
e aprenda a saltar o aramado
sem ficar todo estropiado
abraço meu lindo guri
e peço que se vá a la cria
que recolute a minha poesia
para ler bem longe daqui
de regalo, leve meu coração
decantado em versos sulinos
para cantar tal um hino
dos piquetes desse rincão.
Wasil Sacharuk
flor de cacto
A colaboração poética de Mell Shirley Soares e Wasil Sacharuk
A parceria de Mell Shirley Soares com Wasil Sacharuk se revela num pequeno conjunto de poemas assinados a quatro mãos — "flor de cacto", "a velha detrás duma moita" e "púrpura é a cor" — e é justamente a sua dissonância que a torna instigante. Diante de uma obra conhecida pela linguagem brutal de sangue, ferro e vísceras, esses três poemas mostram Sacharuk disposto a moderar a própria verve para acolher a voz da parceira, sem abdicar inteiramente da marca que o define.
O ponto mais alto da colaboração é "flor de cacto", um poema de interrogação amorosa construído quase todo em anáfora — "O que sabes sobre poesia?", "O que sabes sobre a saudade?", "Que pensas tu das verdades?" —, num questionamento que percorre todos os recônditos de um eu lírico feminino: as cores, os aromas, "os recônditos de minhas belezas", "minha crueza e nudez". É aqui que a estética de Sacharuk e a de Mell se encontram: a palavra "crueza", raro momento em que a matéria dura de sua poesia aparece no léxico da parceira, convive com imagens de delicadeza vegetal — a flor que "se espinha / e sangra toda ao brotar". O refrão que abre e fecha o poema ("Flor de cacto, tão singela / que se espinha... / Flor de cacto, tão bela / tão sozinha / quebra / se o vento soprar") funciona como um pacto lírico dos dois: beleza e ferida na mesma imagem, a ternura atravessada pela espinha — quase uma miniatura da "estética dos desadornos" de Sacharuk traduzida em chave floral e feminina.
"Púrpura é a cor" aprofunda o registro amoroso e o leva ao limite vampírico: "eu te esgoto: vampiro sou", declara o eu lírico, "nas noites tão frias / para poder dormir sob o sol / que nasce em tuas costas". Há aqui a tensão clássica de Sacharuk entre posse e liberdade — o amor como dependência ("quando estás distante / falta em mim / um pedaço grande") e como risco de aniquilação ("não me permitas mais / nunca mais ser / um inferno para ti"). A metáfora do "poema encaixado" que "não desprende os versos" pode ser lida como autodescrição da própria parceria: dois textos que se suplicam coesão, dois poetas que não se separam das próprias estrofes. O sangue — cor purpúrea vertida "do inferno que sou" — reaparece como pigmento amoroso, o único adorno que o poeta se permite.
Em contraste deliberado, "a velha detrás duma moita" é humor puro, quase cordel: a velha que espicha uma perna e encolhe a outra, esperando um pato que "nunca escolhia", com dona Diquinha como narradora circular. A história "nunca termina" porque a espera nunca se resolve — e o poema termina recomeçando, como uma cantiga de roda. É a face leve do Sacharuk parceiro: a mesma generosidade com que versou em payada com Decimar Biagini, agora a serviço de um humor popular que provavelmente traz o sotaque e o gosto de Mell Shirley Soares.
O que une os três poemas é a mutabilidade. Sacharuk demonstra ser, nas parcerias, um poeta que se adapta ao interlocutor sem se anular: com Mell, ele abre mão da lírica telúrica e dos materiais duros para habitar o canto interrogativo, o erotismo sangrento contido e a anedota popular — e a assinatura dupla em cada texto ("Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk") confirma que a obra é de fato de dois. É uma colaboração menos de estilo comum e mais de cumplicidade de tons: a flor que espinha, o vampiro que esgoto, a velha que espera pato — três faces do mesmo gesto de perguntar ao outro o que ele sabe sobre nós.
O Último Charrua
No alto de uma coxilha
Viu-se um índio repontando horizonte
Um lobo sem sua matilha
O último cocar de sua brava gente
Filho de Tupan, esquecido pelo tempo
Preso a miséria da civilização escassa
O cusco ovelheiro, seu único alento
Índio cor de cobre, esteio de sua raça
Em uma bombacha e encarnado lenço
Pés descalços e pobre, domava que dava graça
Modesto Charrua, a coronilha da raça
Que sina a sua, a última alma que passa
Parecia com pingo sem tropilha
Viveu de saudade sem canga errante
Mas não se reculutou na pandilha
Viu o encanto nativo cada vez mais distante
O rebenque da sorte guasqueou o intento
Entendeu que na lida há o dia da caça
E cantou solito aporreando o relento
A milonga tristonha de esperança escassa
Se o desejo do homem é cambicho sedento
A bonança de um é do outro a ameaça
Modesto charrua, o fim é o livramento
Que sina a sua, espírito xucro do vento.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
SONETO LIVRE AO ENDIVIDADO
Cada dia que passa chega uma fatura
Cartões de crédito, àgua, luz e telefone
Os desgraçados ainda abreviam sobrenome
Que saudade da venda da esquina, da fartura
Local onde vendiam fiado e chamavam pelo nome
Hoje sou só um cpf com caixa de correio
Se inventar de pagar todas as contas passo fome
O que é pior é que o mês recém está no meio
Agora vou me jogar nos braços da inadimplência
Jogar tudo às favas ou qualquer outra indecência
E os meus credores que procurem o juizado
Vou me aposentar e não pagar nenhuma conta
Com a taxa de juros vai ficar em alta monta
Por isso vou cuidar de contratar advogado.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
TE ESPERO COM UM SONETO
Oi meu amigo, preparei algo para ti
É um soneto incompleto e carente
Com o fim de relatar o que hoje vi
Li muita poesia, vi inseto e vi gente
Mas, poeta, meu dia não foi normal
O passo do destino pisou na bosta
passei com dor na coluna cervical
que me deixou com um S nas costas
Nova onda de gripe A está prevista
Daí já não deixo a porta aberta
Por isso me sinto tão pessimista
Olhei o noticiário e lembrei de ti
Falava de poetas em descoberta
Que descobriram esta arte em si.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
Tateando no escuro
Busco no poema a essência
Para iluminar meu rumo obscuro
Busco efeito mágico da cadência
É só o verso simples que procuro
Sigo tateando no escuro
Sem guia, sem clarividência
Sigo procurando verso puro
Sem mapa, sem muita paciência
Eu queria uma verve magnética
Desfile de rimas da minha verdade
Mesmo que se insinue cáustica
Preenchendo minha necessidade
Mas nunca o vazio da alma poética
Reescrevendo linhas em ansiedade.
Wasil Sacharuk & Decimar Biagini
MISÉRIAS PSICOSSOCIAIS
O conhecimento abria perspectivas
As escolas se multiplicavam
Havia amadurecimento de cientistas
Que humanamente se solidarizavam
Horas e horas de dedicação
Num projeto desacreditado por muitos
Exaurida a vida numa invenção
Ridicularizada por sagrados cultos
Não quero calar o meu grito
Talvez eu escreva a canção
Do nó amargurado e aflito
No abismo dos meus vãos
A fé pode dar o motivo
Mas a vida pede razão
Hoje as informações estão democratizadas
Tão acessíveis, na era da cultura virtual
Espectadores com opções nada limitadas
Participando ativamente em um novo portal
No entanto, as promessas básicas
De expandir a qualidade de vida psicossocial
Do homem moderno, caiu em lágrimas
Em contato direto com a solidão, a mentira e o mal
O índio não quer mais apito
Vestiu canarinho e calção
Levou muito a sério o incentivo
De ver o Brasil campeão
Mantém o desejo vivo
Comendo migalhas de pão
Onde estão os pensadores modernos?
Dando golpes em cartão de crédito?
Invadindo Wall Street com seus ternos?
Onde estão os engenheiros de ideias criativas?
Burlando o PAC ou estádios na copa 2014?
Economizando em material para tragédias inventivas?
O governo dá o tom e o crivo
Deixa esse povo na mão
Do congresso ao executivo
Serviço sem prestação
O objetivo exclusivo
É dar asas para a ambição
Onde estão os poetas da inteligência
Que desenvolveram a arte de pensar
Com suas obras completas por excelência
Que extenderam ao leitor um evolutivo desvendar?
A vida largada aos confins da indiferença
Nem se percebe a vastidão dos passos
Cidadania agora é respirar esperança
E o fim solidário num imenso abraço
Por fim, ficou cansativo
Cumprir papel de cidadão
É mais fácil ser subversivo
Sem saúde e nem educação
Não haverá homem altivo
Abaixo do cu de um cão.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
QUANDO O POETA CHEGA NAS CASAS
O soneto sempre faz algum barulho
Seja irônico, engraçado ou de amor
Nossa arte é expressão e não entulho
E o poeta é um parceiro inspirador
Nossa cria trouxe-me orgulho
Já vejo o olhar atento do leitor
Cada soneto é um novo mergulho
Tu és artista, poeta, pai e professor
Já perdi o momento de ser pop
Mas fico feliz se a vaidade entope
Por isso vou na carona do amigo doutor
És também propagandista da NOP
E tua maturidade não requer ibope
Mas é algo que merece todo clamor
Wasil Sacharuk & Decimar Biagini
A parceria poética de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
Toda grande parceria poética nasce de um acaso. A de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk nasceu de um acaso digital: os acrósticos compulsivos escritos na comuna Fernando Pessoa do Orkut, em 2008, que acabariam por gerar a comunidade literária Nova Ordem da Poesia (NOP) e, anos depois, este Da janela virtual (2012), antologia compilada dos fóruns em que os dois versaram lado a lado. O próprio título do livro é uma declaração de método: a poesia aqui não se faz na torre de marfim, mas na janela aberta para a rede — e, ao mesmo tempo, para a coxilha.
A invenção do "sonetiálogo"
O coração da parceria é uma forma que os dois criaram sem querer: o soneto dividido meio a meio, em diálogo entre os poetas, batizado pelo poeta LCP Valle de "sonetiálogos". Em Três anos em sonetos livres, eles definem o espírito da empreitada: "Da vontade libertada no verso / Mantida no esqueleto de um soneto / A amizade digitada no universo". Há aí uma tese estética que atravessa o livro inteiro: libertar o soneto da sua rigidez sem abandonar o seu esqueleto. A métrica cede, o jogo de pergunta e resposta entre Pelotas e Cruz Alta permanece — e a amizade vira forma literária.
Poemas como Chasque Dominical e Soneto Internauta — Pelotas e Cruz Alta mostram o procedimento em ação. No Chasque, o vento minuano "chega matreiro", o passarinho morto pela geada no costado da casa convive com a TV que "só fala em morte", e o domingo do poeta se resolve em "vinho, costela e mate". É o regionalismo gaúcho — o "sotaque campeiro e discurso bagual" de que fala Wasil no relato de abertura — atravessado pelo cotidiano urbano e pela tela do computador: "Numa conversa de poetas por um satélite no ar / Com um trago, um desafio e parceria para rimar".
O gaúcho e o internauta na mesma guaiaca
O que dá unidade ao livro é essa dupla pertença. Em Trova de Guapos, os dois assumem a máscara do versador improvisador — "Sou taura da presilha até a ilhapa, / não tenho cara de sorro manso" — num registro de payada que desafia, troca provocações e termina em deferência mútua: "em cada parceria a amizade se renova". Já A Venda da Oberta desce à colônia, com sua "jovem polaca" e o velho de "herança eslava", registrando o povoamento do Rio Grande pelo imigrante — o mesmo caldo de que o próprio sobrenome Sacharuk é herdeiro.
Mas a janela virtual também produz lucidez crítica. Misérias Psicossociais é talvez o poema mais denso da coletânea: contra a promessa frustrada da era digital — "as promessas básicas / De expandir a qualidade de vida psicossocial / Do homem moderno, caiu em lágrimas / Em contato direto com a solidão, a mentira e o mal" —, os poetas perguntam: "Onde estão os pensadores modernos? / Dando golpes em cartão de crédito?". A ironia social, que em As Fraldas do Brasil vira escárnio eleitoral declarado ("Tratei o voto / como jogo de loto"), mostra que o humor do duo não é mera brincadeira: é arma.
Há também um fundo triste, quase elegíaco, que equilibra a comicidade. Em O Último Charrua, o índio "meio lobo sem sua matilha" na coxilha encena o desaparecimento de um mundo — "Que sina a sua, a última alma que passa". Em Obituário Filosofal, a morte aparece em imagens de deserto e sereia fora d'água, num lirismo contido que surpreende quem só esperava o chiste. E o poema-título, Da Janela Virtual, resume a solidão do escrevedor na rede: "Debruçado / e sem esperança / Feito um animal / Angustiado / Da vida que cansa". Já O Suicídio Revisto do Orkut Pessoal é um documento afetivo da época: o poeta que já pensou em sair da rede e volta "para o vício da doença sem cura / De escrever num azul de letras pretas" — as letras azuis em fundo branco do Orkut viraram metáfora de adição literária.
Soneto de bêbado não tem proprietário
O que sustenta tudo, porém, é a cumplicidade. Em Sonetos com as Botas Cheias, o improviso alcoólico dos dois rende a melhor autodefinição do método: "Soneto de bêbado não tem proprietário". Em Sacharuk — Um Vivente Bagual, Decimar homenageia o parceiro numa cascata de "meios" — "Meio bruxo meio pessimista / Meio louco meio mago" — que só pode terminar como termina: "Mas acima de tudo / Um completo amigo". E em Um Domingo Diferente, a declaração final: "Abri meu coração, foi o melhor que fiz / Lancei a voz no mundo / encontrei o amigo escritor".
Da janela virtual é, no fundo, um livro sobre o que acontece quando a amizade encontra uma forma. Decimar e Wasil descobriram que o soneto — forma antiga, "acadêmica", quase museológica — podia ser refeito à imagem de dois gaúchos conversando por satélite, entre mate, canha e Orkut. Como eles mesmos escrevem em A Origem do Sonetiálogo Gaúcho: "Nascia o soneto sem métrica e sem prumo / Não era acadêmico e nem era arremedo". Não era. E a prova está nestas páginas, onde a tradição campeira e a internet se dão as mãos — ou melhor, se brindam.
Leia os poemas da parceria: https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Decimar%20Biagini?m=0
Poema paisano
pendurado perpendicular
parece pacote pendente
pelo precipício
pichando paredes
pincela profanos painéis
poisa pleno
para proferir palavras
pacientemente paridas
pecador perdido
pássaro pagão
pensa pagar pelo pão
pífias promessas
porém prova pobres pratos
pagos por parcas patacas
padece pela peste
perece pela praga
paga pesado preço
pelas pílulas punitivas
parte protegido
pela paisagem
paisano pelos pampas
passa portas
pula pedras
percorre praias
prados
puxado pelas pernas
pesca peixes pictóricos
pelo profundo panorama
percebe passar patos
pelos parques
pelas páginas poéticas
paira pela paixão
paladino pateta
plana por puro prazer
planta papoilas
para penetrar pelas pétalas
permanece poeta
preso por piedade
profere parábolas
previsões profecias
pensa pedaços
pequenas partículas
para pintar poesia.
wasil sacharuk
Respirando as cores do vento
Amigo, senta aqui comigo
vamos conversar?
vamos falar da vida e das dores
e dos amores que temos
e dos que ainda queremos conquistar?
Que tal um pouco de nostalgia...
uns dez anos de melodia
e mais um tanto de poesia?
E se faltar algum brilho
vamos pintar o ostracismo
com faces de novidade?
Amigo, vamos sair juntos
para caminhar?
Desbravar a rota das flores
margaridas e crisântemos
respirar todas cores do ar
Até que amanheça o dia
outro dia e outro dia
palavreando sem pensar
E se faltar luz
vamos incendiar a tristeza
com faíscas de amizade.
Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk
a desvendar mistérios
vasculhei flancos
e cantos da mente
em busca de dons escondidos
contra incidentes descabidos
e essa culpa
aguda e silente
e cantei à surdez dos ouvidos
indiquei contramão do oriente
ensaiei ficar indiferente
à outorga dos risos escondidos
desbravei infinitos de chão
de tudo e nada
de sim e de não
revirando os ossos
dos porquês
e segurei a poesia nas mãos
pois sei que ela é a razão
que sempre faz
eu tentar outra vez
wasil sacharuk
Rio Grande do Sul
quando piá ouvi o canto
cresci no doce mistério
ganhei da vida o encanto
no anúncio do quero-quero
cavalguei minha sina da terra
no lombo do velho pingo
por seis dias subi a serra
e nem descansei no domingo
sou amor pelo Rio Grande
e toco essa lida avante
tal animal orelhano
no cambicho do minuano
e canto a quem se encante
que fique e siga adiante
e seja um gaúcho de fato
quem ama o meu Rio Grande
rincão peleador e gigante
dos ximangos e dos maragatos
wasil sacharuk
As Horas e as Águas
Quedam-se águas de tristeza
destemperanças derramadas
perdem-se gotas de beleza
amolecidas
e consternadas
As horas insistem paradas
descaso que abraça o instante
leito infinito
no rumo do nada
desoriente ao navegante
Sem mais cristais no futuro
apenas rochas indiferentes
as gemas opacas no escuro
jamais terão outro presente
As horas destilam cadentes
ponteando um tempo tardio
a dor que brotou na nascente
não vai parar
o curso do rio
wasil sacharuk
Caprichosa cura
carecia contar certos causos
com considerações concernentes
contos contados
com conclusões certeiras
carecia conhecer ciências
considerações coerentes
conjugar conhecimentos
com coisas convincentes
carecia cativar corações
costurar cortes
curar convalescenças
conduzir crenças
com carinhoso critério
carecia cantar
comovente canção
com cuidado
caprichosa cura
carecia companhia
câmera com cordas
colorida com clarinetas
contrabaixos
cítara
címbalos
condução competente
carecia conjugar
coisa com coisa
crença com conhecimento
ciência com coração.
wasil sacharuk
Certas Circunstâncias
Calo...
Calo conforme coração cede
cutuca célere
comovido
coração caído
consignado
com certas circunstãncias
Coração carece calar
cessar consonâncias
cessar calores
carinhos
conversas cantadas
cada certeza
cai calada
carrega consigo
cada conclusão conveniente
calo com companheiros
com compromissos
com conquistas
com carinhos
certas circunstâncias
conduzem corpo calar
consternado
cativo
caindo como casarão centenário
corroído
calo, contudo
continuarei
cortando caminhos
com cabeça competindo
com certas circunstâncias.
Wasil Sacharuk
Lírica!
Lírica do grito desvairado
Investe teu sonho pervertido
Risca na minha pele nua
Interstícios de suor decantado
Cata as gotas vertidas
Antes que o sol se insinue
Derrama os versos, louca
Ousa recitar ao meu ouvido
Saliva um poema em minha boca
Serve a poética aos seios
Envolta no fogo imaginativo
Incendeia sob o vestido
Os versos do meus desejos
Seduz o meu olhar cativo
wasil sacharuk
Militância
-O trabalho é fácil: você vai militar no facebook. Consiste em compartilhar posts mentirosos e denegrir os opositores. Moleza. Até criança faz.
-Mas, dona Gleisi, se alguém perguntar algo que eu não sei? O que eu faço?
-Sabe dizer: não vai ter golpe? Sabe? Então diz aí.
-Sei, "não vai ter golpe"
-Isso, perfeito. Então repete isso sem parar. Não vai precisar dizer mais nada.
-Mas se o coxinha insistir? Tem uns que insistem.
-Se o coxa insistir tu cospe nele
-Cuspir pela internet?
-É, acho que não dá. Então diz "não vai ter golpe"... fica repetindo. No fim do dia te trago um pão com mortadela
-E os trinta paus, a senhora vai trazer também?
-Não dá, o diretório está com dificuldades. Roubaram o cofre.
-Então acho que não vou querer o trabalho, dona Gleisi.
-Seu fascista, reaça! Você tem ódio de pobre, seu elite branca!
wasil sacharuk
Molemar
Adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor
lancei corpomol
sobromar
desandou molemar
molemar
Malamor, mintenda
vertente rebolenta
dos beiços caldeados
molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar
Malamor, miscuta
teu jeito disputa
sereia do mar
molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar
Adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor.
Wasil Sacharuk
a cavalgadura da caterva
ao esplêndido berço
donde pastam ovelhas
estende toalha de mesa
velha bandeira vermelha
agora é só pano
larga a pinga
sobre a estrela amarela
quer ter um remédio
contra o tormento
há um vácuo no crânio
dos jumentos
que provoca esquecimento
e os fazem andar sem intento
pelas vielas
repetir os enganos
pelas noites da cidade
o sol da liberdade
é quadrado
visto de uma cela
nenhum raio fúlgido
nenhum plano
e a récua deita nos campos
para ver futebol e novela
wasil sacharuk
Outros Ventos
Há pouca escolha a quem teme
pois sempre haverá um destino
as velas ao vento do norte
as vidas na alçada da morte
E quem faz o escrutínio
quando a sorte vira o leme?
acaso não haja quem reme
cumprirá o destino o desígnio
Com naufrágios e ventos fortes
a existência é só um pacote
a obra da vida em desatino
sobre o alicerce que treme
Talvez a maldade nos queime
quiçá os ventos mudem o sentido
ou uma nova leitura da sorte
esconda o arcano do corte
E de todo o tempo investido
enquanto esse medo ainda reine
e não mude, não faça e não teime
a vida atracada num porto perdido.
Wasil Sacharuk
ponte para o retiro
quero cruzar pela ponte
que interliga horizontes
leva ao céu tal escada
enrosca na crosta do mundo
lá no fim disso tudo
e lá encontro o início do nada
quero planar nas estradas
asfaltos, vielas e trilhos
verei sedentários e andarilhos
nos cantos das ruas
sob a mesma lua
com a mente resignada
quero alma elevadiça
visão privilegiada
ver de longe a injustiça
as mentiras e a cobiça
a dignidade ultrajada
decerto vi isso antes
quero montar elefantes
não deixar minhas pegadas
gravadas pelos caminhos
para evitar emboscadas
dos espíritos dissonantes
e trilhar o universo sozinho
wasil sacharuk
A Paz do Vazio
Houve dias em que fostes minha unica estrada
Meu unico caminho, minha verdade...
Houve dias em que tua voz era lei
E já nem sei, por onde andam tais dias
De nós quase não lembro mais nada
das nossas tardes no centro da cidade
perdi no tempo tudo o que a ti jurei
bem que tentei, mas não encontrei poesia
Os nossos versos soltos pelo vento
cartas de amor, amarelaram lentas
nem mesmo tormentas, existem mais
Nosso mundo foi tragado pelo tempo
Não há mais calor, nem nos dias quentes
ficamos indiferentes, encontramos a paz.
Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk
sopro norte dos ventos
índia menina
na terra da dor e da rima
da tribo dos versos rasgados
trazes tristeza enlaçada
nos cabelos entrançados
quero estar
nos traços da lua
por querer te saber
por te querer
sonhaste tanto
durante dias inteiros
atravessaram janeiros
ilusões e desencantos
desenganos e devaneios
Índia menina
todos os dias
revela um segredo
escrito no chão
no arroubo da perfeição
que de tão perfeito
provoque algum medo
deslizo os dedos
entre teus cabelos
acarinho tuas queixas
afago as lembranças
liberto os lamentos
desfaço tuas tranças
ao sopro norte dos ventos
wasil sacharuk
Chove
Pingam os pingos
labirintos
caem as águas
maremotos
mortos os mortos
afogamento
chove e chovo junto...
Singram os vincos
malabaristas
vertem as mágoas
mares mortos
correm os córregos
sentimento
chove e choro muito.
Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk
da envergadura ao voo
o que te prende o olhar
e te obriga a escrever?
acaso te suspendeste
nas linhas inimigas
que conduzem palavras?
o que sabes das garras
que perfuram a fronte?
arrancarei-te as asas
para que tu me contes
faças o que faças
espinha com farpas
depois te abandona
em divagações inexatas
razões insensatas
e logo abaixo
assina teu nome
wasil sacharuk
A PARCERIA POÉTICA DE ANGELA MATTOS E WASIL SACHARUK
Uma escrita de interpenetração
O traço mais forte dessa parceria não está nos temas — erotismo, desejo, entrega — mas na construção formal que os poemas adotam. Quase todos funcionam por espelhamento e simetria: o eu lírico de um poeta provoca, e a resposta do outro chega como consequência necessária, não como réplica. Em metade, esse dispositivo é levado à perfeição: o poema inteiro é um jogo com o morfema "meio", que se degrada e se multiplica ("meio poema", "meio sem jeito", "meias palavras", "meio proibida...ou totalmente perdida") até colapsar na linha que justifica o poema todo — "e por meio do meu meio / que tu me chegas inteiro". É engenharia poética de altíssimo nível: a metade vira figura do próprio poema a dois, e a totalidade só é alcançada pelo que é incompleto. Não creio que esse verso sobreviva em escrita individual; ele só existe porque há dois.
A voz de Angela Mattos
A contribuição de Angela salta aos olhos nos poemas em que o vocabulário devocional é profanado por dentro. Em o cheiro do cio, rezas, ladainhas, chá sagrado e bordados desfechos orbitam um desejo que "é mais febre do que fé" — a religiosidade popular (as "rezadeiras" reaparecem em sopro) é usada como matéria sensorial, não como crença. Há ali uma feminilidade poética concreta: renda, cabelos, seios, pernas que "se denunciam abertas" — o corpo feminino não é descrito de fora, é quem fala. Essa é a diferença crucial em relação à poesia erótica masculina tradicional: em desejo confesso, a imagem do peito amado como "leito donde verte minha poesia" inverte a posição — a mulher habita o corpo do homem como quem se abriga num texto.
O toque de Sacharuk
Sacharuk traz o que sempre trouxe: a precisão geométrica e a violência contida. Em tão somente, o amor comportado que "se afia ao desígnio das garras" e a naufragar "nas vertentes da interseção / na rota angular saliente" — essa geometria da paixão, com ângulos e arestas, é assinatura dele. Em a névoa e a nudez, a sedução é tratada como rito quase letal: "poemas letais" murmurados na nuca, um "navegante obscena dos mundos abissais", o tu que "arrancou minhas roupas na magia do teu rito". O perigo, a heresia, a névoa que toca a pele antes que se possa fugir — é o Sacharuk telúrico e pagão, aquele que recusava a fé institucionalizada para situar o divino na carne e na terra, agora filtrado pela sensibilidade de Angela, que devolve esse mundo em chave de encantamento feminino.
O que a parceria produz que nenhum produziria sozinho
Se eu tivesse de resumir em uma frase: a tensão entre a nudez e o véu. Os poemas vivem exatamente nesse limite — a renda que "vela os lábios que fremem", o pudor "que se fazia véu sobre as janelas", a névoa antes da nudez. A Angela concede o pudor, o bordado, a espera, a ladainha; o Sacharuk insiste na invasão, no sopro que apaga a distância. O resultado é um erotismo que nunca é explícito por grosseria nem recatado por convenção — ele é declaradamente ritual, quase litúrgico: confessar desejos, rezar por um beijo, dançar até chegar "aos poros da poesia".
Tecnicamente, destaco três acertos: o uso de rimas internas e assonâncias que dão aos versos uma textura de cantiga profana ("o gosto e o cheiro / do divino e vadio"); o verso curto, de respiração suspensa, que imita o ofego do próprio tema; e a honestidade de não resolver os poemas — tão somente termina onde começou, no querer "ser amor, tão somente", como se o amor permanecesse sempre em estado de reivindicação, nunca de posse.
Leia os poemas dessa parceria aqui: https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Angela%20Mattos
SACHARUK - HERESIA Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...