vício

 vício 


E o meu vício em ti despejo

Nesse teu feitiço maldito

Até que eu perca o sentido

Vingado, pregado, vencido


E na magia do teu rito

A chama arde de desejo

Eu encantado no ensejo

De um prazer louco, aflito


Faz do momento calado, retido

Armado, desalmado, temido

A maravilha do teu grito

Dessa nudez que só eu vejo


E na relíquia do teu beijo

De bicho, irado, instinto

Aberto, regado, despido

Fatalmente desmedido


wasil sacharuk 

haicais

tua alma guarda
surpresas e os encantos
tudo e além

wasil sacharuk

......

um beijo é pouco
precisa muita saliva
a regar a rosa

wasil sacharuk

......


de água e areia
vivi o amor profundo
chão de oceano (haicai#1)

wasil sacharuk

.......


enquanto não colhes
a natureza te ama
e te deixa dormir

wasil sacharuk

.......

engodo e magia
a cortina de fumaça
brumas de poesia

wasil sacharuk

......

Plata dos amantes
de Argentina milonga
e tango em Corrientes

wasil sacharuk

.......

um verde criança
o cíclico movimento
outra estação

wasil sacharuk

......

todos os anos
a gratidão ao outono
livre recriação

wasil sacharuk

......

o tempo é réu
desse deserto de ter
outra despedida

wasil sacharuk

......

nosso amor profundo
de água vento e areia
é chão no oceano

wasil sacharuk

......

boca de vento
e ouvidos de maré
que dançam na lua

wasil sacharuk

........

poros de areia
teu par de dunas habita
doces fantasias

wasil sacharuk 






o curso de uma parceria

O CURSO DE UMA PARCERIA 

(DOIS ANOS DE DECIMAR E WASIL)


A cultura é nosso alimento

Servido na idealização virtual

O poema dá asa ao pensamento

Escandido ou em improvisação usual


Enchemos barriga com letra de vento

A verve visita o futuro e o passado ancestral

Testemunhamos a perda do trema e acento

A poesia quebrou a tramela do novo portal


Toda a nossa força ao longo dos anos

Que partiu de atividades lúdicas pelo virtualismo

Tomou compromisso em outros rumos

E sorriu nas proximidades do pluralismo


Conhecemos o signo de outros arcanos

Abarcados na sistemática do empirismo

Tentamos riscar com auxílio de prumo

Para desvendar o segredo do lirismo


Uma vida de leveza em parceria poética

Que trouxe pessoas com ideias em comum

Uma sensação experimentada pela dialética

Em semânticas despretensiosas oriundas do sul


E a inspiração nunca foi esquelética

Nessa antologia sempre cabe mais um

Nem de vanguarda e nem velha caquética

A fome de versos nem pensa em jejum.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk






futuro de hoje

 Futuro do Hoje


Hoje acordei a fluidez

Cores escorriam brancas

Na tela azul daquele dia

Ouvi sorrisos de criança


Hoje rasguei a minha tez

Avancei minhas retrancas

Reli um livro de poesia

Plantei semente de esperança


Hoje chamusquei velhas folhas

Bolhas de sabão eu pintei!

Hoje prometi para o ontem

Não me esquecer do amanhã


Hoje repensei as escolhas

Nas asas da fênix viajei

Ergui a alma sobre o monte

Novo colorido a uma tela vã


A obra, cujo título é futuro

Hoje acaba de ser iniciada

Com pinceladas de verdade

Aladas ondas na própria tela


Vou iluminar o tom escuro

Novo horizonte e nova estrada

Serão os objetos da vontade

Um abraço na vida mais bela.


Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk



para firmar o cambicho

 para firmar o cambicho


chama logo o padre

 bagual

e te acolhera com a prenda

tu vais de bombacha

que é teu normal

e ela vai de vestido de renda


o carancho véio fará perguntas

tu concordas com tudo

 o que ele diz

pois doutro jeito tu não te juntas

e a gauchada quer festa feliz


chama os viventes da cercania

escreve o convite em poesia

e garante uns tragos 

para o gaiteiro


para festejar o lindo cambicho

vamos alugar o salão do bolicho

e levantar poeira 

um dia inteiro


wasil sacharuk



o alienígena

o alienígena

Todas as manhãs o alienígena acorda e toca o próprio corpo para sentir que existe de fato. No quarto, o espelho embaçado pelo seu assopro é a certeza da sua interferência nas coisas do mundo. Roda e roda pelo submundo. Também visita lugares seletos, mas só ouve murmúrios incompreensíveis das pessoas que conversam em seus próprios dialetos. Alheio a tudo, suas ideias também não são acessíveis aos mundanos de qualquer lugar. Assovia uma melodia singular. Todavia, o alienígena voa, quando poderia simplesmente andar, mas prefere se locomover logo acima das cabeças dessa gente esquisita. Vez por outra, ouve vozes distantes e sons dissonantes e isso tudo o irrita. Também vivencia eventos antecipados nos sonhos premonitórios. Tudo ocorre da forma como sonhou. Seu olhar é um observatório, por isso vê as pessoas por dentro. Não tudo, mas os traços das personalidades e um tanto de seus pensamentos. Ele simplesmente sabe quando alguém é do bem. Além disso, lê os mais finos gestos de mãos, as falas mais rebuscadas, os sorrisos... Assim ele conhece vários níveis de qualquer pessoa e suas conclusões são infalíveis. Alguns o assustam, outros provocam tristeza, poucos o fazem sorrir timidamente. Ninguém o faz sentir-se contente, leve e cheio de asas resplandecentes.

wasil sacharuk


nua e mais nada

 Nua e mais nada


quero tua palavra nua,

sem pele, sem remendos, sem acertos

quero tua palavra rabiscada

exagerada

sem lamentos

quero tua palavra direta

enxertada

enfiada

afiada

aprofundando minha alma de teu perto

quero decorar teu dialeto

ouvir tua boca calada

mascando palavras repletas

sem ornamentos

sem emboscadas

tua tônica sem acento

teu verbo sem movimento

em locuções encantadas

quero a palavra que completa

e mais nada.


Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk


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