clichê

 Clichê


Sobre os lençóis acetinados, Cristina se esforça para resgatar o cobertor que, há alguns minutos, deslizou para o chão de carpete vermelho. Quer ela encobrir a languidez do corpo nu.

Roberto é jovem e revela seus harmoniosos dotes atléticos no afã de vestir a cueca preta. Apaga o cigarro que esquecera queimando no cinzeiro de vidro acima do criado mudo, estende cavalheirescamente o braço esquerdo por sobre o corpo de Cristina e puxa, de uma só vez, o cobertor para a cama.

- Obrigada Bob, tu és sempre tão prestativo. – Cristina tem a voz terna e seus olhos castanhos úmidos focam as pupilas de Roberto. – Sempre sinto frio quando cai a tarde.

- Não agradeça. – Roberto senta junto ao encosto da cama e acende outro cigarro. – Mas acho que sentes vergonha da nudez. Não se trata de frio. Estou errado?

- Sei lá, Bob... – Cristina volta-se para a direita e mira um óleo sobre tela de tons pastéis, na parede do quarto, que retrata a intimidade de um casal de orientais. – Eu não sei bem se quero falar sobre isso.

- Bom, se quiseres, fiques à vontade para falar...

- Bob, tenho a impressão que te divertes enquanto me deixas assim, atordoada. Não consigo falar contigo direito. – Cristina, agora sentada, coloca o travesseiro sobre o colo. – Me dá um cigarro, Bob.

- Nunca te vi fumando mais de um. Esse é o terceiro, mas se queres... – Roberto atende à solicitação e alcança o cigarro já aceso para a mulher, enquanto sorri com certa amabilidade exibindo os dentes perfeitos. ― Está bem, estou te escutando...

─ Bob...

─ O que há, Cris? ― Roberto cruza os braços e lança o olhar para a cena oriental.

─ Tu sabes... ao menos, penso que sabes. Tu és esperto. ─ Cristina traga o cigarro e a nuvem de fumaça envolve seus cabelos castanhos, dispersos sobre os ombros.

─ O que eu sei, Cris? 

─ Tá bem Bob, então escuta: eu te amo! E não me faças repetir isso, por favor.

─ Como assim? ― Roberto tosse com a fumaça.

─ Aconteceu... tu bem sabes que coisas assim acontecem... e eu sei que não sou a primeira que te diz isso... já nos encontramos cinco vezes desde a primeira. Para mim, é bem normal que aconteça dessa forma. Cinco vezes...

─ Tudo bem, e daí?

─ E daí que eu quero te encontrar mais... ─ Cristina termina o cigarro, esmagando-o com impaciência no cinzeiro. ― Eu acho que preciso de ti. 

─ Mas não era para ser assim, Cris. Acho que tu nem sabes muito bem o que estás sentindo e o que estás me dizendo. Tenho certeza de que amanhã nem vais lembrar. É só o calor do momento, compreende?

─ Poderias ser meu homem... Namorado, talvez.

─ Falamos disso outra hora, ok? Daqui a pouco preciso estar na aula. Começa as sete e eu preciso estar pronto. E o pior é que não é bom chegar na faculdade com os cabelos molhados. ― Roberto levanta rapidamente e cata as peças de roupa espalhadas pelo chão do quarto.

─ Amanhã está bem, Bob? Pode ser? Dá outro cigarro?

─ Claro, pode ser amanhã. Espero teu telefonema, ou manda um torpedo quando puderes. Pega aí o cigarro.

─ Acende para mim Bob. A faculdade não está em greve? Ouvi na rádio universitária no programa de segunda-feira.

─ A federal entrou em greve, mas não estudo na universidade pública, lembra?

─ Ah! Isso mesmo... Tinha mesmo esquecido. Tudo muito caro para pouca qualidade!

─ Estás me chamando de burro? ― Bob sorri ironicamente enquanto olha para a mulher. – O que insinuas?

─ Acho que estou... senão conversavas comigo agora mesmo!

─ Não dá, Cris, tu sabes que preciso ir... ― Bob abraça as peças de roupa e entra no banheiro. ― Vou para o banho, Cris.  

─ Tá bem, vou dormir um pouquinho... Sozinha, como sempre. Podes me acordar quando saíres do banho? ― Cristina estira-se sobre a cama e ajeita o cobertor sobre o corpo. ― Ah! Bob, não esquece: deixei tua grana aí na pia, ao lado da saboneteira.


Wasil Sacharuk


SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

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