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homenagem de MARCIA POESIA DE SÁ

 

Ao Mago da pena.
( O acolherador !)

Tu que do vento uivante fazes versos
e que do frio intenso fazes queimar esperanças.
Tu que com esta vida brincas de criança,
e escreves amalgamando distâncias...

tu que ousas crer no improvável
e com total talento ensinas o inabalável
desejo de melhoras e sonhos reais.

Tu que começastes sozinho a unir pedrinhas
e a brincar com palavras, formastes linhas
de um conto especial que jamais finda!

- Meu muito Obrigada !

Tu que sugas o verde amargo
e sopras os mais densos e doces verbos
sobre o horizonte da página antes, brancas
deste pseudo acaso literário.

Hoje vejo não uma, mas muitas páginas
e mais páginas se unem a nós,
neste teu, e hoje, nosso infindo livro de abraços.

E é a tu, imensa folha imã de nós todos,
alguém a quem me orgulho de chamar de amigo,
que venho hoje, assim tão simplesmente agradecer
e de todo meu coração queira saber,

sou do teu sonho, da tua amizade e do teu riso,
um ser inteiro e eternamente cativo !

Márcia Poesia de Sá

homenagem de ROGÉRIO GERMANI

 O mago


Tatear silêncios requer talento de mago
baú de palavras seduzidas num eclipse de almas
ser ave destemida perante a tempestade das horas tristes

carece ter floridas lavas nos dedos
vastos enigmas nas trilhas da pele povoada por versos
confluente rio em busca de respostas para os calafrios
que brotam constantes no peito

misturar provérbios
unguentos
orações celtas nos olhos descampados
beber da água cristalina que o coração produz e estende
ao primeiro nômade que guarda sua voz de cânfora
sentir-se luz
mãe e filho do tempo

Dédalo peregrino acendendo tochas no vagar das horas.

Rogério Germani



homenagem de PAULO MORAES

 AMIGO POETA!!

(em homenagem ao Poeta Wasil Sacharuk, por sua contribuição à poesia
e por estimular e incentivar o surgimento de novos poetas)

Ah meu amigo!
Eu sei que tu conjuras
flores imaturas
e das tuas mãos saem afagos
de eterna saudação.
Ah meu amigo!
O sol brilha nas tuas palavras.
Elas são como um bálsamo
repleto de amanhãs.
É o teu corpo invencível
que derrota os malefícios
e conduz os teu passos firmes
entre as pedras amigas.
Já vi tua caneta romper muralhas,
com a sensibilidade
dos jardins resolutos.
Entre o sonho e a vigília
tu preparas o banquete das estrelas.
É a Lua que te aplaude
com seu robusto peito de pérola.
Navegamos juntos, nos mesmos versos,
colhendo os horizontes de cada dia.
Mas sempre, és tu,
quem rema com maior entusiasmo.
Nesta fortaleza estamos amparados,
por causa da tua incessante generosidade,
carregando os nossos fardos
de ânsia de poesia.

PAULO MORAES

carta de EVA CROCHEMORE

 Sr. Guardião de dons e talentos,


Sempre considerei admirável, por sua nobreza, a tarefa que desempenhas. Não só guardas todos os dons e talentos, mas também te agradas sobremaneira em distribuí-los entre os humanos, de modo que seja edificada a vida de um com o talento do outro. Nesta benemérita mutualidade, propões que ofertemos ao outro o nosso melhor.

É fascinante como derramas sobre os artistas teus fluidos generosos, cabendo aos poetas, verdadeiros chefs da poética gourmet, preparar com arte a palavra-alimento que sacia as almas famintas de sensibilidade e carentes de beleza interior.

Aos músicos concedes como dádiva criativas sonoridades; aos artistas plásticos, fantásticas imagens, cor e forma; e aos literatos, o som, a cor e a forma que a poesia desenha, pinta e sonoriza.

Pude sentir teu toque. Foi na madura idade, de coração contrito. Tu bem sabias da dor daquela perda me pesando a alma. Senti teu orvalho, teu refrigério. E a inspiração vinda do teu mundo fez eclodir em mim lampejos de arte. Talvez considerasses que era chegada a hora de eu me despedir do meu artista plástico que fora para junto de ti havia meses. Desenhei, naquela tarde, surpreendentes e admiráveis imagens reveladoras de singela beleza a retratar boas lembranças. Aqueles desenhos simbolizaram uma homenagem póstuma. Nunca mais desenhei.

Quando me abri a receber mais de ti, me surpreendeste com pequena porção do gosto pela escrita. Ainda homenageei o meu irmão-artista com o meu primeiro poema. Sei que ele o leu no meu coração. Não parei mais de escrever.

Agradeço-te por isso, sábio guardião, mas principalmente por teres me apresentado a Oficina de Arte de Todas as Letras. Lá fui recebida por teus talentosos poetas, teus agraciados artistas que fazem da palavra seu instrumento musical, sua tela, sua obra de arte em prosa e verso. E a cada encontro tens preparado um banquete de talentos, para nos deliciarmos com as melhores porções que preparamos e servimos uns para os outros.

Com gratidão,

Tua oficineira

Eva Crochemore, janeiro de 2019.



Véio China: sobre wasil sacharuk

 "Talvez tenha sido por volta 2008 a primeira vez que o li, aliás, o vi comentando algum poeta numa comunidade de Orkut chamada Bar do Escritor.


Lembro que olhei atentamente para aquele avatar de cabelos longos, olhar severo e o conjunto me levou a um desses guerrilheiros que se perderam nas selvas da América do Sul à década de 70, afinal sempre fora desconfiados com os cabeludos apesar de ter sido um nos tempos do Led Zeppelin.

Olhei novamente para a pequena foto que carregava abaixo o nome de Wasil Sacharuk. e me pareceu evidente que ali o intelecto de um revolucionário se mantinha oculto sob a vastidão dos cabelos castanhos.

Porém Wasil não era um revolucionário das armas assim como os uruguaios do Tupamaros. Não, na guerrilha de Sacharuk não se deflagravam tiros e nem se era picado por cobras ou saciado da sede por riachos que riscavam as florestas, pois os projéteis da revolução de Wasil nada mais são que as linhas da poesia.

Recordo ainda que nos primeiros textos ali postados pude perceber-lhe o traço e a verve do inspirado, uma escrita pujante e contundente grafando prosas e poesias por vezes no esmero do sotaque sulista do seu Rio Grande do Sul.

Sim, não seria menos verdadeiro confessar que em algumas oportunidades procurei na internet a tradução paras alguns termos gauchescos para poder compreender e a assimilar a grandeza das suas construções.

Lembro também que Wasil foi o primeiro artista a quem me interessou o trabalho com a produção de vídeo-poema. Recordo também que o primeiro seu que vi foi (É a verve) e o seu trabalho me deixou maluco tal o esmero que fora produzido, pois além das filmagens e edições ficava por sua conta a declamação, efeitos sonoros e a trilha musical. E fiquei tão impressionado que pedi para ele que fizesse um vídeo para um poema meu, diga-se, generosamente ele o fez e me presenteou, e é algo que até hoje me encanta e honra tal a perfeição do aspecto visual, narrativo e a trilha sonora composta por ele.

Enfim, não há como falar de Wasil Sacharuk sem traduzi-lo em arte, afinal ele é uma das prazerosas manifestações dela.

Pois, imenso é meu orgulho ao ser companheiro de letras deste magnífico poeta e prosador.

Parabéns Wasil Sacharuk!"

Veio china



wasil sacharuk - poeta gaúcho

Wasil Sacharuk (1967–2026)

Wasil Sacharuk nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, cidade que o viu crescer, criar e se tornar uma voz singular da poesia contemporânea. Poeta, performador de spoken word e facilitador de oficinas literárias, construiu uma obra que recusa o refúgio da lírica ornamental para se instalar num território de linguagem crua, visceral, sem anestesia.

Sacharuk dedicou-se à facilitação de oficinas de produção textual literária e de escrita criativa, com foco no desenvolvimento do interesse pela produção textual e na troca de experiências entre escritores amadores. Atuou como multiplicador cultural na sua região, incentivando novos autores e promovendo o contato direto entre a poesia e o público — atividade que alinhou com sua convicção de que a palavra poética precisa ser não apenas lida, mas vivida em voz alta.

Publicou ao longo de sua trajetória os seguintes títulos:

Uma Outra Gnose
Sete Sinas
Catilinárias I
Catilinárias II
Da Janela Virtual, com Decimar Biagini
Escorpião – versos autobiográficos


Sua obra escrita abrange poesia, prosa poética, crônica e conto — gêneros que transitaram com fluidez em sua produção, sempre marcados pela mesma densidade expressiva.

Foi na performance oral que Sacharuk encontrou sua forma mais potente de expressão. Seu canal no YouTube, SACHARUK poesia falada, reúne dezenas de vídeos de spoken word — performances em que o poeta entrega cada verso com intensidade interpretativa, transformando o poema escrito em experiência sensorial.

Sacharuk também interpretou poemas de outros autores, como Rogério Germani, Lino d'Acácia, demonstrando que sua relação com a palavra transcendia a autoria: ele era também um intérprete, um canal entre o texto e o ouvinte.

A obra de Sacharuk é marcada por uma linguagem brutal e sem ornamento. Seu vocabulário poético convoca sangue, gesso, mármore, ferro, sal e vísceras — materiais que evocam tanto a materialidade do corpo quanto a dureza da existência. Entre os temas centrais da sua produção, destacam-se:
A morte — não como abstração filosófica, mas como exercício de lucidez cruel e aceitação estoica; um confronto honesto com a finitude
O amor — descrito com intervenções profundas e por vezes violentas, marcado pela tensão permanente entre posse e liberdade
A espiritualidade — Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica, ligada à terra, ao instinto e à experiência direta do sagrado

Sua poesia não busca conforto. Confronta. Incendeia. Como descreve uma das apresentações de spoken word: "Wasil Sacharuk surge não apenas como som, mas como uma incisão necessária."

Wasil Sacharuk deixou um acervo poético que desafia o leitor a abandonar o conforto e a enfrentar a palavra em seu estado mais bruto. Sua obra — entre o escrito, o falado e o performado — permanece como testemunho de um poeta que escolheu a honestidade da crueza em vez da beleza do enfeite. Tributos como o vídeo "O Amigo Wasil Sacharuk" (2011), produzido por contemporâneos que reconheceram sua grandeza antes mesmo da consagração ampla, atestam o impacto de sua presença no meio literário sul-brasileiro.

Sacharuk escreveu, falou e respirou poesia. E onde doía, nasceu ritmo.

wasil sacharuk

Wasil Sacharuk ocupou um lugar interessante na poesia brasileira recente: ele não veio do circuito tradicional de grandes editoras e prêmios, mas de uma produção intensa, híbrida e muito marcada pela circulação digital. Isso o coloca na linha de frente de uma geração que pensa poesia não só como livro, mas como presença em rede, performance, voz e música.Sua atuação em grupos como a Nova Ordem da Poesia e projetos como Inspiraturas reforça um traço importante: ele não se isolava, mas se entendia como parte de uma comunidade de escrita, apostando em trocas, oficinas e formação de novos autores.

A contribuição temática de Sacharuk passa por três eixos fortes:

Crítica social e política: há uma recusa do conformismo, um desconforto com estruturas de poder, com desigualdade, com o automatismo da vida urbana e do trabalho.

Existencialismo ateísta: sua poesia frequentemente confronta a ideia de sentido transcendente, preferindo uma visão lúcida, às vezes dura, da finitude e do absurdo. Isso o aproxima de uma linhagem que vai de certos modernistas a poetas contemporâneos que desmontam o discurso religioso e metafísico.

Musa e afetos: ao mesmo tempo, há uma dimensão amorosa e erótica, mas quase sempre atravessada por ironia, consciência crítica e jogo de linguagem—não é um romantismo ingênuo, é um amor que sabe de suas contradições.

Essa combinação ajuda a construir uma voz que não separa o íntimo do político, nem o pensamento filosófico da experiência cotidiana.

Forma e experimentação: entre tradição e ruptura

Um ponto forte da contribuição de Sacharuk é a forma como ele dialogou com a tradição sem se submeter a ela:

Uso de formas fixas (sonetos, acrósticos, limericks): ele recupera estruturas clássicas, mas as preenche com temas contemporâneos, linguagem coloquial, humor e crítica. Isso cria um contraste produtivo entre forma “nobre” e conteúdo “desobediente”.

Valorização da musicalidade e da rima: em tempos de predominância do verso livre, ele insiste na sonoridade como eixo de sentido, não como ornamento. A rima, o ritmo e o jogo fonético são usados para intensificar o impacto crítico ou afetivo do poema.

Verso livre e experimental: ao mesmo tempo, não se prende a um único modelo; transita por poemas mais soltos, narrativos, fragmentários, o que mostra uma consciência de que a forma é escolha ética e estética, não regra fixa.

Essa versatilidade formal é uma contribuição importante: ela mostra que a poesia contemporânea pode ser múltipla sem perder coerência de voz.

Linguagem: entre coloquialidade, ironia e densidade


A linguagem de Sacharuk costuma operar em três registros que se cruzam:

Coloquialidade: expressões do cotidiano, fala comum, termos de trabalho, cidade, internet. Isso aproxima o leitor e quebra a aura de “poesia difícil” como algo distante da vida real.

Ironia e humor: há um uso recorrente de ironia, sarcasmo, trocadilhos, que funcionam como ferramentas de crítica e de desromantização. O riso aqui não é leve: é muitas vezes um riso que denuncia.

Densidade reflexiva: mesmo quando o tom é leve, o fundo é filosófico. Ele trabalha com perguntas sobre sentido, morte, tempo, memória, mas sem cair em jargão acadêmico—é uma filosofia encarnada na experiência.

Essa combinação contribui para uma poesia que é acessível sem ser rasa, e que pode dialogar tanto com leitores iniciantes quanto com leitores mais experientes.

Outro aspecto relevante da contribuição de Sacharuk é o modo como ele encarnou o poeta contemporâneo conectado:

Publicação massiva online: centenas de poemas disponíveis em blogs, redes, vídeos, ampliam o acesso e criam uma relação mais direta com o público.

Parceria com música e performance: sua atuação em projetos multimídia reforça a ideia de que a poesia hoje não está confinada à página—ela pode ser voz, som, corpo, vídeo.

Comunidade e formação: ao facilitar oficinas e participar de coletivos, ele ajudou a democratizar o fazer poético, tirando a poesia do pedestal e colocando-a como prática compartilhada.

Isso tudo contribui para um modelo de poeta que não é apenas autor de livros, mas agente de cena, alguém que movimenta e alimenta um ecossistema literário.

A ESTÉTICA DOS DESADORNOS DE WASIL SACHARUK

Estética: A Matéria sem Filtros

A proposta estética de Sacharuk reside na desconstrução do "belo" tradicional. O poeta estabelece um compromisso ético e estético com a crueza.  Seus poemas são povoados por elementos de forte presença tátil e peso físico — ferro, gesso, mármore, sal, vísceras, sangue. Há uma recusa sistemática à metáfora etérea ou puramente intelectualizada. O poema se constrói como um objeto concreto, quase geológico.

O cotidiano claustrofóbico: Elementos simples do dia a dia (como o balanço de roupas no varal ou a travessia de uma rua) são carregados de uma tensão latente. A realidade ordinária é constantemente tensionada pelo fantasma da finitude e da incomunicabilidade.

Espiritualidade telúrica: O sagrado em sua poesia não ascende aos céus; ele se enterra. É uma espiritualidade que se manifesta na carne, no apodrecimento, na persistência da matéria e no confronto estoico com a morte.

O Corte e a Fragmentação

Os versos de Sacharuk rejeitam a simetria métrica tradicional. Eles se estruturam sob a lógica da fratura: curtos e isolados. Muitas vezes, uma única palavra ou uma imagem breve ocupa uma linha inteira, funcionando como um bloco isolado de sentido. Isso obriga o leitor a uma leitura verticalizada, onde o espaço em branco da página (ou da tela do blog) ganha peso de silêncio.

O ritmo na poesia de Sacharuk é ditado pelo corpo e pela necessidade de oxigênio. Não há a cadência regular da canção, mas sim a irregularidade do batimento cardíaco ou da respiração sob pressão.

A apneia: O ritmo simula a falta de ar. O poema se desenvolve em blocos de emissão rápida de voz, seguidos por suspensões abruptas. O silêncio entre os versos não é apenas uma pausa de leitura, mas uma interrupção física do fluxo de ar.

Sincopamento e Spoken Word: Na transposição do texto para a voz (comum em suas récitas acompanhadas de trilhas sonoras densas ou experimentais), o ritmo ganha contornos de jazz ou de rap alternativo. A palavra falada não se submete à música; ela disputa espaço com ela, criando uma polirritmia onde a voz hesita, acelera ou se arrasta de forma imprevisível.

Repetições rituais: O uso de anáforas (repetição de palavras no início de versos sucessivos) funciona como uma batida de metrônomo, ancorando o poema em uma pulsação obsessiva que acumula tensão até o desfecho.

A linguagem de Sacharuk é feita de matérias-primas brutas: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Não há distância lírica aqui. As imagens não fluem com elegância; elas cortam, rasgam, perfuram. Essa escolha de vocabulário não é casual—é uma recusa deliberada ao refinamento ornamental, uma insistência em confrontar o leitor/ouvinte com substâncias reais, densas, inescapáveis.

Ao recusar o adorno, Wasil Sacharuk transforma o poema em um corpo exposto: um organismo feito de ossos fonéticos, músculos rítmicos e uma respiração que se recusa a simular uma harmonia que não existe na experiência humana.

Wasil Sacharuk oferece uma poesia sem ornamento, que recusa o conforto da abstração lírica. Sua estética é a do enfrentamento direto com a morte, o desejo, a matéria. O ritmo é respiratório, vocalizado, visceral. Os sons cortam mais do que acariciam. E em tudo isso há uma dignidade radical—a recusa de mentir, de embelezar o insuportável. 

Sua obra constitui um exercício de escavação existencial, um mergulho sem adornos na crueza da experiência humana.

AS MUSAS NA POESIA DE WASIL SACHARUK


A obra de Wasil Sacharuk revela uma relação visceral e quase anatômica com suas musas. Elas não são figuras etéreas ou idealizadas no sentido clássico; são entidades de carne, sombra e resistência, que forçam o poeta a um confronto constante com sua própria finitude e crueza.  São de Natureza Selvagem, rebelde e autossuficiente e têm por função provocar a transmutação do poeta através da dor e do desejo.  Um embate de forças onde "quem é caça" e "quem é caçador" se confunde.

A Musa como Espelho e Sombra

Psicologicamente, a musa em Sacharuk não serve para o consolo, mas para a desestabilização. Ela é frequentemente retratada como uma força autônoma que "conhece a própria sombra e não a nega" (Inteira ou não é).

Há uma recusa clara à musa-objeto. A mulher descrita pelo poeta "não se traduz nos versos alheios" e "é inteira ou não é". Isso indica uma projeção psicológica de alguém que busca no outro uma completude que não aceita fragmentações ou submissões.

Dualidade Arquetípica (Hera e Hades): 

Em poemas como Récita I, a relação é descrita como uma "foda sem hierarquia nem divindade". As musas transitam entre o sagrado e o profano, o acolhimento e a violência. Elas são, simultaneamente, a "brisa leve" que acarinha e a "ave carnívora" que bica até verter sangue (Dono das Horas).

Enfrentamento da Morte: 

A musa é a parceira no "sapateado sobre cacos de vidro". Ela compartilha com o poeta a lucidez cruel de que o amor é uma forma de resistência em um mundo que "metaboliza o pó".


A Estética do Desadorno

Literariamente, as musas de Sacharuk são o motor de uma linguagem que ele mesmo define como brutal e desadornada. Elas exigem uma poesia que recusa o "ângulo reto" (Hipotenusa).

As musas são associadas a elementos táteis e densos: sangue, gesso, ferro, sal e vísceras. Elas não inspiram rimas fáceis, mas "lapsos poéticos" que habitam a realidade de forma diferente.

A Metáfora da Escultura:

Em Camille, a musa é invocada como uma escultora (referência a Camille Claudel). O poeta pede para ser recriado na "pedra mais fria", sugerindo que a influência feminina em sua obra é um processo de desbaste, de corte e de entalhe verdadeiro.

Dialeto Singular: 

A comunicação com a musa ocorre através de uma "linguagem desaprendida" ou de "emissões úmidas". O amor é um "pacto de sangue" que goteja pelos cantos da boca, transformando a lírica em um evento sensorial e eletromagnético (Chuva e Raio).

As musas de Wasil Sacharuk são, em última análise, a personificação da própria poesia dele: pelada de roupas, crenças e ciências, existindo apenas na verdade nua do impacto entre dois corpos e duas estranhezas.

SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...