nenúfar

  nenúfar

se te fazes -morena- tão ninfácea - és nenúfar que se destaca doutros nenúfares do azul jardim - se te quero possuir e espero que sim - escalo montanhas alucino nas curvas em  total sincronismo entre a estrada e o fio do abismo
empresta tuas águas às enxurradas sob o olhar de Jaci a agarrar o firmamento - espero o momento de beijar-te morena  - teus lábios rosados ao pordossol ciumento

wasil sacharuk














malva papoila

 malva papoila


circunda leve 
a tromba-língua
ao botão da flor 
delicada

pétalas afastadas
e nos grãos
 falsos dentes 
falsos dedos
livres desvelos 
ao entorno

malva papoila
bailarina tão louca
e o poeta borboleta 
guarda na boca 
seu néctar

wasil sacharuk






costa da laguna

costa da laguna


vem mulher anda comigo
          pela costa da laguna
     onde o amor faz abrigo
e Netuno faz a Lua
brotar na tua cabeça

espia a tristeza na rua
e meu mergulho inusitado
lê meu poema encantado
 antes que me esqueças
            vê nas frestas da janela
            que essa noite espera
            que sejamos amantes

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

o demônio sobre a mesa
o messias sobre as águas
quando ainda me aguardas
naquela torre onde tu moras
onde sempre te acordas
ao sopro do meu fantasma

ele te devolve a vida
num feixe iluminado
o teu barco à deriva
tem a guia na vontade
do meu coração calado
              duro de pedra

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

vem mulher anda comigo
              pela costa do mar
a imprimir nossas pegadas
   junto ao  curso das gaivotas
no próximo sol doce
eu só quero te abraçar

jardineiros das memórias
cataremos flores mortas
que viveram tão valentes
tal crianças inocentes
horizontes da história
reflexos da eternidade
nossas faces no espelho

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

wasil sacharuk





genuíno

  genuíno 

o meu avesso
tem tons desconexos
mas não tem gênero
não tem cor
nem sexo

é o melhor lugar
avesso de estar
avesso de ser
genuíno que é

o avesso de mim
é avesso em ti
de tão nosso
e o teu avesso
é o que de mim
eu mais gosto

wasil sacharuk







sais de banho



sais de banho

subtraio os teus pensamentos
rasgo as tuas  roupas
arranco tuas promessas
desde as singelas
até as mais loucas
misturo aos sais do teu banho 
partículas ocultas de mim

subtraio os teus vícios
teus fins teus inícios
drogas e culpas
invado domínios
subjugo o arbítrio
aos recônditos sinistros 
dos escondidos segredos
e dos ossos do medo

subtraio teu baú de artifícios
obscuros diamantes
lapidados na mente
 hades latente de fogo e lama

subtraio a tua  liberdade 
se minha crueldade 
 te prende na cama

de novo e de novo

o que de ti subtraio
logo mais eu devolvo

wasil sacharuk










engrenagem

engrenagem 


ao crepúsculo 
da tua vontade
posso ser engrenagem
encaixe insistente
coroa dentada
amor mecânico
só sacanagem

posso também
desnudar-te as fragilidades
causar-te abalo sísmico
da crosta latejante
até a profundidade
sarar tua nuca arranhada
no bálsamo de um beijo

posso ainda provar-te
que um ou dois dedos 
podem rasgar superfícies
romper as comportas
das marés

e minha herética fé
relega ao simulacro
dissolve em arremedo
tudo o que pode ser fraco
tudo o que pode dar medo

e até posso bem mais
porém isso é segredo

wasil sacharuk






SACHARUK - MALVA PAPOILA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK  - MALVA PAPOILA 

Sacharuk conduz o espectador por uma jornada sensorial onde a palavra falada se torna corpo, engrenagem e abismo. Através de uma performance visceral, Sacharuk explora as fronteiras do desejo e a busca pelo "avesso" genuíno do ser.  O poeta entrega uma sequência de textos que transcendem a simples leitura, transformando a palavra falada em uma experiência tátil e emocional. Com uma voz que oscila entre a precisão mecânica e a vulnerabilidade absoluta, Sacharuk convida o público a explorar o que existe sob a pele e além das máscaras sociais.

A sequência performática inicia com uma metáfora industrial do amor ("amor mecânico", "coroa dentada"), evoluindo para uma entrega quase mística e geográfica ("costa da laguna", "Netuno"). O poeta transita entre a agressividade da posse e a delicadeza da descoberta, culminando na reflexão sobre o "avesso" — um lugar sem gênero ou cor, onde a identidade se funde com o outro.

"Crepúsculo da tua vontade posso ser engrenagem, encaixe insistente, coroa dentada, amor mecânico."

"O meu avesso tem tons desconexos. Mas não tem gênero, não tem cor nem sexo."

"Provar a tua pele na língua portuguesa."

É um convite para refletir sobre nossas fragilidades, nossos medos e a beleza de se perder no traçado das quimeras. A poesia aqui é viva, pulsante e, acima de tudo, honesta.

Vale assistir para entender como o spoken word pode ser uma ferramenta de autoconhecimento e conexão. Wasil Sacharuk não oferece apenas versos; ele oferece um espelho para o nosso próprio avesso.

#SpokenWord #PoesiaFalada #WasilSacharuk #LiteraturaBrasileira #PerformancePoetica #ArteEExpressao #PoesiaViva #Cultura #DesejoEPoeisa #OAvessoDeMim #Poesia #SpokenWord #WasilSacharuk #Cultura #Literatura #Arte #Reflexão #PoesiaContemporanea #Performance #EscritaCriativa




flores n'água

 flores n'água


falsos amores bizarros
seduzidos e consumidos
nenhum deles foi caro
perecíveis tal flores
fugazes como os sabores
facilmente esquecidos
depois de provados

falsos amores frustrados
dilacerados rendidos
serviram como escravos
minha alcova de horrores
só ingênuos impostores
pretensiosos perigos
fatalmente enganados

convencidos e fascinados
tanto heróis ou bandidos
no fundo meros atores
canastrões amadores
 parasitas nocivos
e foram só patrocínio
de subvenções e agrados

as flores mantenho n'água
só para vê-las murchar
no vaso regado de mágoas
catando a luz pelo ar

wasil sacharuk











esqueletos

 esqueletos ☠️💀🦴💀


naveguei tantos mares
explorei outras terras
remei o dó nas galeras
com dores nas costas
e de olhos tristonhos
em busca do porto
para ancorar alguns sonhos

marés de tantos azares
outras de sorte ou quimeras
abandonei causas velhas
pisei na fama e na bosta
mirei destinos tacanhos
joguei pérolas aos porcos
servi senhores estranhos

separei dos meus pares
fui ovni entre estrelas
ficamos eu e as panelas
pois eu perdi as apostas
que fiz com deus e demônio
vi meus sonhos aos ossos
de esqueletos medonhos

wasil sacharuk













jogos confusos

 jogos confusos


pensei em sangrar
os meus pulsos
pensei em cortar
os meus cabelos
escrever uma carta
pela última vez
registrar minhas letras

porém das lembranças
que terei do futuro
de mim voarão borboletas
cintilantes estrelas
no céu mais escuro

dos murros
dos muros
e das incertezas
desses jogos confusos

então quero viver
pintar aves nos céus
amainar asperezas
negociar com os sonhos
perdoar as mentiras
e morrer natural
pelos dias lentos
aprender a sorrir
eu quero viver

pensei em conter
meus impulsos
pensei em contar
meus segredos
pensei palavras exatas
dissecar minha tristeza
em poesia

mas as certezas
que eu ainda tinha
migrarão tal andorinhas
e outras novas belezas
tomarão seu lugar

então quero viver
e poisar no papel
as lágrimas belas
do universo tristonho
entender diferenças
e morrer bem normal
sem meus lamentos
aprender a viver
eu quero viver

wasil sacharuk 












dores de toda gente

  dores de toda gente 


vi pela janela aberta
os nós do cotidiano
a natureza morta
para o deleite humano
 vi pelas grades tortas
semblantes indiferentes
cabeças girando tontas
dores de toda gente

haviam razões incertas
os mais tolos enganos
pessoas andando lentas
ratos saindo dos canos
crianças correndo soltas
em busca dos pais ausentes
cães mijando em volta
dores de toda gente

vi a carência farta
os pensamentos insanos
amor que mata e que corta
saúde restrita a planos
comportamentos psicopatas
ofertas de sexo quente
conversas vazias baratas 
dores de toda gente

as vidas resultam ingratas
e poderia ser diferente
são sempre tão inexatas
as dores de toda gente

wasil sacharuk









enxaqueca

 da lógica estrambótica incompreensiva das coisas

(enxaqueca)

entro e saio da metafísica
chego pertinho da ética
vislumbro o traçado na lógica
insana cruel estrambótica

logo
tuas manhas são coisas
que minha cabeça não toca
a ti são moedas de troca
terror versus racionalidade
colagem de alguns fragmentos
inventam qualquer verdade

eu queria um apelo holístico
sensível e também silogístico
mas só revirei sentimento
enxaqueca gastrite lamento
e a maldita incompreensão
escambo entre o sim e o não

eu queria ir além da razão
sobre-humano divino ou ético
com premissa e conclusão
um lampejo profético
de inconformismo dialético
a fé numa puta falácia

também queria eficácia
saber juntar os caquinhos
e enquanto vivo sozinho
lerei versos de alegria
talvez eu cometa a audácia
e risque uma nova poesia

wasil sacharuk








o signo

 

o signo 

busca a palavra que designa
quando morre toda a vida
quando seca a ferida

busca a palavra que é digna
quando a morte ressuscita
quando a primeira vez se grita

busca a palavra que resigna
quando a morte ou a vida
é tão contingente e iludida

busca a palavra - o signo
que representa a morte
que representa a vida
que sentencia a sorte
se vitoriosa ou perdida
que ruma a um novo norte
nova missão cumprida

busca a palavra da morte
busca a palavra da vida

wasil sacharuk





SACHARUK - ESQUELETOS Full - poesia falada spoken word

 SACHARUK - ESQUELETOS 

O Signo da Vida: A Poesia Visceral de Wasil Sacharuk

Em uma performance que transita entre a angústia existencial e a celebração da vida, Wasil Sacharuk utiliza o spoken word para dissecar as dores do cotidiano e a busca incessante por uma linguagem que dê sentido à morte e à existência.

ESQUELETOS é uma coletânea de textos interligados. Começa com a busca pela "palavra que designa", um signo que represente a dualidade entre a vida e a morte. Segue para uma reflexão sobre a lógica e a ética, mergulhando nas "dores de toda a gente" observadas através de uma janela. O ponto de virada ocorre quando o eu lírico, após considerar o fim, escolhe a vida, decidindo "pintar aves nos céus" e transformar lágrimas em poesia. Finaliza com metáforas marítimas de desilusão e uma crítica ácida aos "falsos amores bizarros".

"Busca a palavra que resigna quando a morte ou a vida é tão contingente, iludida."

"Vi pela janela aberta os nós do cotidiano. A natureza morta para o deleite humano."

"São sempre tão inexatas as dores de toda a gente."

"Das lembranças que terei do futuro, de mim voaram borboletas."

"No vaso regado de mágoas, catando a luz pelo ar."

A palavra que designa, a palavra que cura. 🗣️✨

O poeta Wasil Sacharuk nos leva a uma viagem profunda  pela busca de um sentido maior. Entre a angústia e a esperança, ele nos lembra que a poesia é a audácia que nos permite continuar.

💬  Uma reflexão poderosa sobre ética, lógica e, acima de tudo, humanidade.

#WasilSacharuk #SpokenWord #Poesia #Reflexão #Cultura #Arte #DoresDoMundo #VidaEPoesia #LiteraturaContemporanea  #PoesiaFalada #WasilSacharuk #PoesiaBrasileira #ArteIndependente #Literatura #Cultura #Sentimentos #Resiliência





Vermelho

Vermelho

Termino meu chá de flores na cantina do mercado público e consulto em vão o relógio do celular. Basta perceber a atmosfera melancólica retratada na cor do céu para inferir que a tarde se esmorece. Só isso me interessa nesse momento. Os afazeres estão esgotados.

É nessa hora aproximada que, invariavelmente, no caminho para casa, busco o sentido da vida nos acontecimentos. Minha rotina se dilui no tumulto das ruas centrais. Às sextas-feiras o movimento é assustador. Os flashes dos faróis ocultam os indivíduos em silhuetas que circulam em meio a multidão. E espero a melhor oportunidade para atravessar a rua. Isso sempre acontece. A espera, bem inserida no cotidiano, já não cansa mais e, dizem, o seguro morreu de velho.

Seu Ademir, da padaria, ergue o corpanzil por detrás de um balcão frigorífico e me passa o pacote de pães, sem perder de vista a senhora baixinha que sai do estabelecimento em direção a banca 26, e brada: 

─ Até mais vê-la Dona Edith. Obrigado pela preferência. Amanhã teremos sua torta, pode confiar.

Suas palavras portam uma estranha certeza. As coisas serão novamente como planejado, Assim como foi ontem e durante a semana inteira. 

Dona Edith acena com a cabeça, o rosto ornamentado pelo sorriso tão formal quanto carinhoso ao cumprimento acalorado do comerciante.

─ É uma excelente senhora, essa Dona Edith. Freguesa antiga e fiel. ─ Diz o homem com simpatia bem treinada.

Dentre outras frutas, a 26 tem maçãs que parecem pequenas se comparadas as demais expostas no mercado, entretanto, são muito vermelhas. Dizem que as frutas dali são livres de agrotóxicos, no entanto, mais caras. Pequenas maçãs são vítimas de preconceito por parte do consumidor. A aparência das grandes impressiona mais. E as gôndolas carregadas quebram a frieza do corredor revestido de azulejos portugueses fomentando uma interessante competição entre a arquitetura e os apelos do marketing. Por fim, todos esses quadros acabam ignorados no mercado visualmente poluído. 

Dona Edith escolhe maçãs. Depois de pinçá-las com as pontas dos dedos, cuidadosamente analisa cada uma antes de encaixá-las, pacientemente, nos espaços vãos do seu cesto de compras. 

─ Pedro, meu querido filho, hoje tem quarenta e quatro anos. Adorava essas maçãs pequenas quando garoto. As bem vermelhas, como essas, eram suas preferidas. Sempre dizia que as menores são mais saborosas. 

Flávio, que frequenta comigo o curso de atendimento eficaz, escuta a velha enquanto cata belas peras importadas vulneravelmente empilhadas no compartimento ao lado das maçãs. 

Quando os administradores do mercado acendem as lâmpadas fluorescentes, próximo às dezoito horas, as frutinhas mais indefesas começam a perder o viço. Mas aquelas maçãzinhas são muito vermelhas.

Eu que já não tenho o mesmo vigor de antes, levo uma vidinha exatamente igual a de todos lá da firma. Decepção após decepção. Angústia seguida de angústia. Vou perdendo a raiz. Onze anos distante da minha velha e, ainda, meu pai teve a felicidade de partir dessa para melhor antes de me ver caminhar sozinho pela primeira vez. Talvez ele tivesse a exata intenção de não me ver andar. Coisas que se movimentam tendem a causar algum incômodo.

Flávio está, também, envelhecido. Mesmo com a proximidade de sua aposentadoria, ainda insiste num discurso duvidoso sobre reciclagem profissional. Enquanto empilha as peras, metaboliza as lamentações de Dona Edith sobre o filho Pedro e sobre os ossos descalcificados. Deixa evidente no semblante certo cansaço e falta de paciência. Em breve esse pobre vai, como todos os outros, padecer nas garras da seguridade social.

─ Meu Pedro ainda deve gostar de maçãs. Seu primeiro carro, aquele esportivo, era vermelho e acho que o segundo também... Não lembro.

A velha deslumbrada com a rara oportunidade de interação social enche o cesto de maçãs. Um exagero. Fica pesado e vermelho... bem vermelho. Queixa-se dos braços fracos. Osteoporose é um perigo na velhice. E eu, se beber bastante leite. talvez me previna contra isso. Não fosse a provável desconfiança da velhinha, eu teria oferecido ajuda. Atualmente ninguém confia em mais ninguém e eu me sinto tanto constrangido.

Ela abraça aquele cesto de plástico tal quem carrega um tesouro. É improvável que coma tantas. Vejo seus olhinhos marejados pelo esforço, ou talvez, alguma palavra amarga que tenha saltado da boca do meu colega Flávio a tenha deprimido. Discutir o passado pode não ser uma boa idéia. Não é nem mesmo um assunto inteligente ou produtivo. Não entendo porque os velhos perdem tanto tempo com isso. Depois está aí o resultado: olhos marejados, vermelhos. 

As vivências do passado não retornam, bem, pelo menos não do jeito como foram antes. O passado é sólido como concreto no pensamento de algumas pessoas. Há gente no mundo que respira passado. E, curiosamente, sobrevivem.

A velha exibe ar emblemático, tateia nervosamente sua niqueleira lilás e espalha um punhado de moedas e cédulas amassadas sobre o balcão da operadora de caixa. É hilariante observar a menina ensaiando uma caricatura de desprezo pintada num sorriso amarelo, enquanto conta as malditas moedinhas. Mas, não deixo de notar que Dona Edith se vale de uma educação admirável. Não dá margem ao conflito. Toma para si a bolsa de plástico com suas frutinhas acondicionadas e despede-se da moça, gentilmente, sem tomar conhecimento do inconveniente que causou. O dinheiro tem suas peculiaridades. Por causa dele existem as guerras. Por isso contam-se moedas e o cliente tem sempre razão. Aprendi tudo no curso.

A velha vale-se de ambas as mãos para juntar a bolsa de maçãs ao seu peito e, com suas pernas curtinhas e sobrecarregadas, desce a escadaria do centro comercial em direção à Avenida 13 de Maio, em frente ao mercado. Hora do rush. E como acontece todos os dias, ao final das jornadas de trabalho, a ordem é, novamente, disputar espaço no ônibus, no metrô, nas calçadas e rodovias.

Tudo acontece rapidamente. A bolsa de plástico fino, dessas modernas com uma logomarca gigantesca impressa em cores gritantes, não agüenta o peso de tantas maçãs e rompe-se. É sempre assim. Os eventos imprimem sua marca no nosso destino subitamente. As sobras é que contam a história. 

Fico desorientado em meio à confusão. Dona Edith, os faróis, o vermelho e aquele som ensurdecedor. E toda aquela gente com tanta pressa? Invariavelmente a história se repete: quando todos chegam aos seus destinos, só encontram as sobras. Não se toma banho duas vezes no mesmo rio. As águas de agora são resquícios de um rio que já era. O grego Heráclito anunciou com razão.

Uma maçã, apenas uma, despenca pelas escadarias, machucada, alcança o tráfego a rolar como uma perfeita bola, quica um degrau por vez, numa lentidão impressionante, até cessar seu curso nos meus sapatos pretos de camurça. Olho em volta e nem me preocupo em recolhê-la. A sobra.

A lua, então, nunca mais se esconderá e promete noites mais longas... depois dos afazeres esgotados.


wasil sacharuk 




avenidas da vida

Avenidas da Vida

“Aos nove dias do mês de julho do ano de 1931, às quatro horas e vinte minutos, nasceu na cidade de Pelotas, no Hospital de Beneficência Portuguesa, a criança do sexo masculino de nome Milton Carlos Lobo Simões, filho de...”. Eis o que preambulava a certidão de nascimento do eternamente pequeno Miltinho, menino peralta que cresceu longe das avenidas da vida. Famigerado na vizinhança pela alcunha de Pedevalsa, a qual ostentou até que encontrasse a sua rua sem saída. Logo após, voltou a usar o nome Milton, gravado em bronze.

Pedevalsa nasceu pobre e pacato, assim como todos do entorno. Eram tampos de salutar humanidade, trabalho mais digno e coesão familiar. Outros valores combinavam apenas com os ricos. 

O velho Manuel, seu pai, foi o primeiro músico na cidade a tocar flauta transversal num conjunto de boleristas. Eventualmente cantava arranhando um castelhano deficiente. Doralina distribuía parca atenção entre as tarefas de dona de casa, comerciária e mãe. A última rendeu-lhe desconfortos. Primeiro incomodou-se com as vizinhas, logo, as professoras do filho e, mais tarde, novamente com as primeiras, que agora eram outras.

Na escola Pedevalsa foi suficiente. As notas baixas eram relevadas pela eficácia de sua sedutora expressividade aliada a barganhas afetivas. Assim, angariando simpatia, jamais repetiu ano. Aos treze, enquanto cursava o ginasial, teve seu pedido de emprego atendido pela gráfica do jornal. Imprimiu o diário até os vinte e quatro anos de idade, intercalando o tempo entre o trabalho, pouco estudo e as mil e uma noitadas na Baiúca.

Baiúca era a bola da vez. A casa noturna mais freqüentada da cidade. Era Miltinho quando chegou e, paulatinamente, consolidou-se Pedevalsa. A alcunha foi inspirada na graça arrebatadora e na plasticidade com que seus pés deslizavam sobre a pista de dança. Foi levado, observado, apadrinhado e amparado pelo observador de talentos boêmios Mário dos Discos, funcionário da loja de elepês.

Deixou a escola. Assumiu de vez a Baiúca. Era o dançarino principal, contratado para o secreto deleite da clientela feminina. E no primeiro mês, o patrão descontou de seu salário a bebida consumida pelo dançarino, logo, pouco dinheiro sobrou. Daí sobreveio a insatisfação e a busca de um novo salão.

Nesses trinta dias edificou certa fama entre as mulheres da alta sociedade, o que lhe facilitou o ingresso imediato como dançarino principal de outra casa, mais requintada: ‘O Sobrado’. 

De bigode bem aparado, boa graxa nos sapatos e o terno bem cuidado, foi a atração das noites. Tentava atender a todas as solicitações das moças. Habilidoso na valsa, no bolero, no tango, no samba e, ainda, sabia imitar o Fred Astaire, caso tomasse uns goles entre um número e outro.

Conheceu Cristina no bolero. Linda mulher das grossas canelas e bailado desajeitado. Casaram-se. Geraram Francisco e Ginger.

O aumento da prole fez a vida perder um tanto da diversão. Não era possível inserir outras danças na maratona. O dinheiro ficou pouco e Pedevalsa teve que procurar um emprego que remunerasse suas horas diurnas. Após exaustivas frustrações, foi trabalhar na quitanda do Helmut, um colono alemão conhecido como “o fatiador de línguas”.

Um incêndio em 1973 consumiu o velho Sobrado, já decadente. As novas casas noturnas já não contratavam dançarinos. As novidades reservaram a Pedevalsa dedicação exclusiva às tarefas da quitanda. Enquanto atendia as velhas amigas, agora matronas, arriscava conduzi-las em uns breves passinhos ritmados em frente às gôndolas, sob a luz de uma aura de nostalgia que impregnava as coloridas frutas, legumes e embutidos. E foi assim até 1999, quando o geriatra o incapacitou com diagnóstico de Alzheimer. 

A aposentadoria era o vislumbre de uma nova vida ao cansado Pedevalsa. E na sua primeira tarde por conta da previdência social, decidiu visitar os escombros do velho Sobrado. Moravam lá vestígios bailarinos no salão das lembranças. Estava Pedevalsa, torpe, a observar a dança das sombras na parede que confinava a sua rua sem saída.

wasil sacharuk



wasil sacharuk - poeta gaúcho

Wasil Sacharuk (1967–2026)

Wasil Sacharuk nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, cidade que o viu crescer, criar e se tornar uma voz singular da poesia contemporânea. Poeta, performador de spoken word e facilitador de oficinas literárias, construiu uma obra que recusa o refúgio da lírica ornamental para se instalar num território de linguagem crua, visceral, sem anestesia.

Sacharuk dedicou-se à facilitação de oficinas de produção textual literária e de escrita criativa, com foco no desenvolvimento do interesse pela produção textual e na troca de experiências entre escritores amadores. Atuou como multiplicador cultural na sua região, incentivando novos autores e promovendo o contato direto entre a poesia e o público — atividade que alinhou com sua convicção de que a palavra poética precisa ser não apenas lida, mas vivida em voz alta.

Publicou ao longo de sua trajetória os seguintes títulos:

Uma Outra Gnose
Sete Sinas
Catilinárias I
Catilinárias II
Da Janela Virtual, com Decimar Biagini
Escorpião – versos autobiográficos


Sua obra escrita abrange poesia, prosa poética, crônica e conto — gêneros que transitaram com fluidez em sua produção, sempre marcados pela mesma densidade expressiva.

Foi na performance oral que Sacharuk encontrou sua forma mais potente de expressão. Seu canal no YouTube, SACHARUK poesia falada, reúne dezenas de vídeos de spoken word — performances em que o poeta entrega cada verso com intensidade interpretativa, transformando o poema escrito em experiência sensorial.

Sacharuk também interpretou poemas de outros autores, como Rogério Germani, Lino d'Acácia, demonstrando que sua relação com a palavra transcendia a autoria: ele era também um intérprete, um canal entre o texto e o ouvinte.

A obra de Sacharuk é marcada por uma linguagem brutal e sem ornamento. Seu vocabulário poético convoca sangue, gesso, mármore, ferro, sal e vísceras — materiais que evocam tanto a materialidade do corpo quanto a dureza da existência. Entre os temas centrais da sua produção, destacam-se:
A morte — não como abstração filosófica, mas como exercício de lucidez cruel e aceitação estoica; um confronto honesto com a finitude
O amor — descrito com intervenções profundas e por vezes violentas, marcado pela tensão permanente entre posse e liberdade
A espiritualidade — Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica, ligada à terra, ao instinto e à experiência direta do sagrado

Sua poesia não busca conforto. Confronta. Incendeia. Como descreve uma das apresentações de spoken word: "Wasil Sacharuk surge não apenas como som, mas como uma incisão necessária."

Wasil Sacharuk deixou um acervo poético que desafia o leitor a abandonar o conforto e a enfrentar a palavra em seu estado mais bruto. Sua obra — entre o escrito, o falado e o performado — permanece como testemunho de um poeta que escolheu a honestidade da crueza em vez da beleza do enfeite. Tributos como o vídeo "O Amigo Wasil Sacharuk" (2011), produzido por contemporâneos que reconheceram sua grandeza antes mesmo da consagração ampla, atestam o impacto de sua presença no meio literário sul-brasileiro.

Sacharuk escreveu, falou e respirou poesia. E onde doía, nasceu ritmo.

demais

 

demais

aquilo que julgam demais não me consome
pois sempre vem, me tenta e depois some
contudo, não fica atracado em meu cais

não devaneio em barracos ou catedrais
não temo as valentias ou bulas papais
encontrei minha bússula na felicidade

não, não desejo comprar nenhuma verdade
só atendo aos chamados da minha vontade
e só o que sinto considero demais...

tenho o foco naquilo que sinto
e só o que sinto para mim é demais

wasil sacharuk








alívio

 alívio 

busca o alívio
pelo sangue que jorra
dos buracos de faca
nesse mar gosma verde
nesse século de sede
num dia de ressaca

busca o alívio
dessa dor que ataca
que judia que fere
a dor que te adoece
é a mesma que mata

busca o alívio
na crença ingrata
que te pede e promete
outro milênio
de novas bravatas

busca o alívio
numa letra de hino
nas ciências exatas
nos sistemas de ensino
na pintura abstrata

busca o alívio
nas ideias compradas
filosofias baratas
nas sentenças mais curtas
nas comidas em lata

busca o alívio
nas vivências passadas
nas certezas já prontas
que jamais dizem nada

wasil sacharuk





alma nas paredes

 alma nas paredes


aqui é cinzento nessas casas lindas do século XVIII suas paredes têm alma aqui são tristes passam calmas as noites frias e dos úmidos dias apenas ouço os murmúrios 
aqui é escuro profundo tal poço as cores sombrias perpassam os olhos intrusos que me habitam
aqui é cinzento nessas casas lindas do século XVIII eu ainda te vejo vejo para sempre

wasil sacharuk





jardineiro

 


jardineiro

visitou o jardim
pousou a mão
sobre a indelicada
rosa vermelha

tão linda
abriu-se inteira
desejosa
exibiu sua beleza

o jardineiro
feito abelha
deslizou satisfeito
pela seiva

toques cálidos
resvalaram vontades
com paciência
com paixão
nos úmidos humores
da lírica flor

sucumbiram as pétalas
de tanto calor
lânguida rosa
indecorosa
liberta e plena
feito poesia

wasil sacharuk





pueril balanço das roupas

   

pueril balanço das roupas

a disposição era torta
contemporânea instalação
exposta em qualquer bienal
numa concepção universal

pendiam sarrafos do chão
tal atlas das roupas rotas
uma jazida de células mortas
oculta nos poros de um blusão

das brisas que sopram varal
ventam roupas em cor desigual
pingos pingados na imensidão
numa organização tão incerta

pediam por uma área aberta
para poder arejar o colchão
e secar os fluidos ao sol
esfregados com branco total

com gancho grampo e cordão
penduravam um mar de gotas
de limpas cheirosas e fofas
tramas têxteis de ilusão

wasil sacharuk








das alturas

 


das alturas

enfrento as forças que ameaçam
desvio de ondas que não banham
das razões
a que eu desconheço
morro nas tramas que me apanham

são tantos ares
eu nem respiro
em tantos lares
eu já não entro
invado espaços que nem habito
moro em zonas que não frequento

viajo alturas que não alcanço
trago loucura para o remanso
sou prisioneiro 
da liberdade

de asas seguras eu não canso
a vida é dura mas tem encantos
não é utopia 
a felicidade

wasil sacharuk












SACHARUK - VARAL Full - spoken word poesia falada


 A Liberdade e a Dor na Poética de Wasil Sacharuk

 Em uma performance visceral que funde música, canto e poesia, o poeta Wasil Sacharuk nos convida a um mergulho profundo nas contradições da existência humana, explorando desde a melancolia urbana até o despertar dos desejos mais íntimos.

O vídeo apresenta uma sequência de atos poéticos onde Sacharuk transita por diferentes estados de espírito. A obra inicia com uma reflexão sobre a liberdade como paradoxo, onde o eu lírico se vê como um "prisioneiro" de suas próprias asas. A transição para imagens cotidianas, como o "varal de roupas", transforma o banal em uma instalação artística contemporânea, denunciando a fragilidade das nossas "tramas têxteis de ilusão".

A performance ganha tons sensuais e líricos ao descrever o encontro entre o jardineiro e a rosa, uma metáfora clássica para o desejo e a entrega. No entanto, o tom logo se torna cinzento e introspectivo ao evocar casas do século XVI e a busca incessante por alívio em um mundo saturado de "ideias compradas" e "filosofias baratas". O encerramento é um manifesto de autonomia: a felicidade como bússola e o sentimento como única verdade absoluta.

"Sou prisioneiro da liberdade. Asas seguras eu não canso."  
"Com gancho, grampo e cordão, pendurava um mar de gotas... tramas têxteis de ilusão."  
"A dor que te adoece é a mesma que mata."  
"Encontrei minha bússola na felicidade."  
"Só atendo aos chamados da minha vontade e só o que sinto considero demais."

Vale a pena assistir a este vídeo pela entrega absoluta do artista. Sacharuk habita as palavras, oferecendo uma experiência que desafia o espectador a olhar para suas próprias dores e encantos com a mesma honestidade.

Você já se sentiu um "prisioneiro da liberdade"? 🕊️

#SpokenWord #PoesiaFalada #WasilSacharuk #Arte #Cultura #PoesiaBrasileira #Liberdade #Felicidade #Reflexão #PoesiaViva #Poesia #SpokenWordBrasil #Cultura #Literatura #Performance #ArteContemporânea #ReflexãoPoética #PoesiaNoFace

l

completamente lua

 completamente lua 🌔


ela revolve mares de sal
e se oculta no beco 
ao final da minha rua
enquanto o sol
ainda veste pijama
ela  vem e me ama
completamente lua

wasil sacharuk






algoritmo

 

algoritmo

por detrás da minha face ninguém sabe meus intentos todas coisas que eu penso todas coisas que eu sinto
não sabem dos artefatos que jamais serão usados minha prece ao oceano em silêncio desvelado
e não podem ver as ruas os saraus onde eu estive meus versos aleatórios pelo algoritmo d'alma
não vislumbram os vestígios se rios quedam dos olhos nem percebem o concreto que comporta as vertentes
também não veem o sangue que escorre das feridas desconsideram os medos cimentados nas paredes
e são cegos para as sombras quando iludem a visão misturadas às penumbras traçam minha intuição
até tentam ver a lua onde vive a solidão meus versos aleatórios pelo algoritmo d'alma
não vislumbram os vestígios se rios quedam dos olhos nem percebem o concreto que comporta as vertentes
não entendem quando a dor se esconde sob a pele e não falam o dialeto os subterfúgios da mente
jamais podem flagrar nuas minhas musas eloquentes e meus versos aleatórios pelo algoritmo d'alma

wasil sacharuk








🤯 ALGORITMO DA ALMA: Será que alguém nos conhece de verdade? 🤯

Em uma era dominada por algoritmos que tentam nos decifrar, o poeta Wasil Sacharuk nos brinda com um poema que nos convida a uma reflexão profunda e, ao mesmo tempo, libertadora: "algoritmo".

Ele nos lembra que, por trás da face que mostramos ao mundo, existe um universo inteiro de:

✨ "intentos"

✨ "coisas que eu penso, coisas que eu sinto" ✨ "artefatos que jamais serão usados" ✨ "minha prece ao oceano em silêncio desvelado"

O que realmente nos move? Quais são os saraus da nossa alma, os rios de lágrimas invisíveis, os medos cimentados nas paredes internas? 

Cada um de nós é um sistema complexo, guiado por um "algoritmo d'alma" único e intransferível. Ninguém pode realmente "flagrar nuas" nossas musas ou entender os "subterfúgios da mente". E talvez essa seja a beleza maior: a nossa essência, a nossa verdade mais profunda, reside nesse espaço sagrado e intocável. 💫

Qual parte do seu "algoritmo d'alma" você sente que é a mais secreta e poderosa? Compartilhe nos comentários! 👇

#WasilSacharuk #AlgoritmoDaAlma #PoesiaQueConecta #MundoInterior #LiteraturaBrasileira #Reflexao #Sentimentos #EssenciaHumana #ArteDeSentir #PoesiaContemporanea #Autoconhecimento


errante

 errante


vi o amor sereno
gravar versos nas tábuas d'alma

vi o dia de calma
desconheci as alturas e as quedas
entre as estrelas e o piso
impensados movimentos
invariavelmente imprecisos

vi a força do vento
refrescar o sorriso de dentes de pedra
e de corte diamante
que rompeu horizontes das fronteiras
entre vida e morte do céu e da terra

vi o nada que espera
além do norte e doutras esferas
onde habitam extintos mamutes urubus e elefantes

vi teus olhos distantes
a esconder vagalumes
que apagam e acendem luzes incertas
brilhando fortes nos meus versos

vi os sonhos dispersos
no meu planeta conciso
tal marés violentas á deriva da sorte
navegando errantes
 distantes do que chamei paraíso

wasil sacharuk












hiato iluminado



hiato iluminado

Fecharia meus olhos
Enquanto meu tato
Colorisse teu universo;
Haveriam contornos
Assimétricos abstratos
Ritmando meus versos

Olhos fechados
Salvaguardados mistérios

Olharia encantado
Linces olhos etéreos
Hiato iluminado
Olharia teus olhos
Seduzindo meus versos

wasil sacharuk



falsa dor

 falsa dor


pecaminoso o bálsamo
extraído da flor
degradé furtacor
banhada de orvalho

melodicamente
uma a uma
gotas ao piano
reinventam o amor
em cadência suave
quebram asperezas 
retorcem
entornan 
torpor e suor

falsador do mistério
as pequenas mortes
segredam das pétalas

wasil sacharuk










passava e pensava

 passava e pensava


eu passava roupa
e pensava a ferro
ele assistia
sexo e futebol
e me tratava por louca

eu só queria amor
miséria pouca
é bobagem
eu passava
e pensava
em arrumar a bagagem

eu passava
diante dos olhos
ele não me via
e eu pensava
em morrer todo dia

eu pensava
ele não passava
e sempre dizia:
poetisa pretensa
só pensas em poesia

wasil sacharuk








SACHARUK - JANELA Full - poesia falada spoken word


SACHARUK  - JANELA 

O Algoritmo da Alma em Versos de Wasil Sacharuk

Em uma sequência de interpretações viscerais, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o spoken word para dar voz às feridas invisíveis do cotidiano e à imensidão do mundo interior.

Você já sentiu que o mundo ao seu redor não consegue enxergar a profundidade do que você carrega no peito? Wasil Sacharuk nos conduz pelo "algoritmo da alma" — um lugar onde os versos são aleatórios, as feridas são cimentadas nas paredes, mas a poesia ainda é o único caminho para a liberdade.

O vídeo apresenta uma jornada por diferentes estados emocionais. Começa com a crueza de uma relação abusiva e negligente ("Eu passava roupa e pensava a ferro"), onde a poesia é vista pelo outro como uma "pretensão" ou loucura, enquanto para a narradora é a única forma de sobrevivência. 

Em seguida, o tom se torna mais lírico e abstrato, explorando o "pecaminoso bálsamo" do amor e a conexão entre o tato e o universo. O poeta transita para uma visão cósmica ("entre as estrelas e o piso"), onde o amor grava versos na alma, e encerra com uma reflexão sobre a identidade oculta: aquilo que o "algoritmo da alma" processa, mas que o mundo exterior — e os algoritmos digitais — jamais conseguem vislumbrar.

O uso de metáforas como "dentes de pedra e corte diamante" e "algoritmo da alma" cria um contraste interessante entre o orgânico e o tecnológico, o arcaico e o contemporâneo.

"Eu passava roupa e pensava ferro. Ele assistia sexo e futebol e me tratava por louca."
"Poetisa pretensa, só pensas em poesia."
"Meus versos aleatórios pelo algoritmo da alma. Não vislumbram os vestígios."
"Vi o amor sereno gravar versos nas tábuas da alma."

Wasil transforma sentimentos complexos e, por vezes, dolorosos, em imagens de extrema beleza. É um convite para olhar além da face e reconhecer a profundidade que cada indivíduo carrega.

"Poetisa pretensa, só pensas em poesia." 🖋️✨

#SpokenWord #PoesiaFalada #WasilSacharuk #AlgoritmoDaAlma #PoesiaBrasileira #ArteEContexto #Literatura #PerformancePoetica #Versos #Cultura #Poesia #SpokenWordBrasil #Cultura #Reflexão #Arte #LiteraturaContemporanea #PoesiaQueLiberta #Alma #VersosAleatorios


corrupio

corrupio 

o tempo
sempre o tempo
roda espirais
agruras de vento
dança rodamoinho
corrupio e atropelo
das vidas pequeninas
depois chora ruínas
no jazigo dos lamentos

wasil sacharuk






bromato



bromato

plantarei o trigo em solo fecundo
a ostentar a alva pele de cordeiro
quiçá limparei os pecados do mundo
da massa fermentada serei padeiro

espírito servido ao café da manhã
que sacia o amor no estilo caseiro
com hóstias, brioches e croissants
o divino calor que emana do cheiro

da casquinha crocante da eucaristia
vou sovar cereal com força e poesia
terei água e sal em plena comunhão

na mistura de letras dessa ladainha
o bromato se eleva sutil na farinha
engendra o milagre da multiplicação

wasil sacharuk 



alavanca

alavanca

alavanca as asas
alma aberta
assemelhada
a astuta ave

afugenta!
as algias atemporais
arfantes a
ssombrosas
alternam arghs
alternam ais

aparta!
acabrunha a asinha
abaixando as abas
assustadas
altiva
aparta

aposenta analgésicos
aspirinas
apoios abalizadores
ardentes assustadores
a atmosfera abafadiça

alto!
abaixa as armas
assegura a alma
alçada ao amor

arriscado?
aceita!

apenas abre as asas!

wasil sacharuk 







perséfone diva

 perséfone diva 


linda dama enfeitada ♀️
doce perséfone diva
exibe frutos maduros
sinuosidades renascentistas
sob as madeixas cascatas
 sonha o conto de fadas
  o príncipe sabe de nada
 o dragão é o protagonista 🐲

wasil sacharuk







pequeno

 pequeno


eu posso saber de tudo
ser essência da vida
posso ser algum anjo
luz das almas perdidas
posso ser boa nova
das saudades infindas

e sei ser linda flor
num jardim tão perfeito
posso ter qualquer cor
produzir meus efeitos
                ...fantásticos

tudo é tão pequeno
      se te amo tão vasto

apenas velho demônio
soberano do hades
inferno enfadonho
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

das tristezas errantes
posso ter o controle
nas belezas vertentes
sei matar minha fome
meus talentos latentes
                ...fantásticos

tudo é tão pequeno
      se te amo tão vasto

apenas velho enfadonho
demônio do hades
inferno soberano
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

eu posso ser pleno
mas também simulacro
tudo é tão pequeno
se te amo tão vasto

tudo é tão pequeno
        se te amo tão vasto

wasil sacharuk








asa quebrada

asa quebrada 

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
se bater em retirada
    que ninguém se preocupe

não é mais que nada
quando há coisas mais
evidentemente importantes
com o  que se ocupar 

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
resolver sair em revoada
    que ninguém se perturbe

vem de asa quebrada
novamente na busca da paz
sempre tão distante
que não consegue alcançar

wasil sacharuk 



SACHARUK - ASA QUEBRADA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK  - ASA QUEBRADA 

Wasil Sacharuk entre o Sagrado e o Profano

 Uma jornada sensorial onde a voz se torna o fio condutor de uma mitologia pessoal, cruzando o tempo, a devoção e as sombras do Hades.

As  performances  exploram a condição humana em suas múltiplas facetas. Desde a "retirada do poeta" , em Asas quebradas— uma reflexão sobre a invisibilidade e a busca pela paz — até a complexidade do amor em "pequeno", onde o eu lírico se assume como um "velho demônio soberano do Hades". A obra de Wasil Sacharuk transita entre extremos. 

A figura de Perséfone surge como uma musa renascentista, subvertendo o papel do herói ao colocar o "dragão como protagonista".

Em um dos momentos mais fortes, a poesia se funde ao ofício do padeiro, transformando o trigo e o suor na própria eucaristia da vida.

"Se algum desses dias qualquer distinto poeta se bater em retirada, que ninguém se preocupe. Não é mais que nada quando há coisas mais evidentemente importantes com o que se ocupar."

"Tudo é tão pequeno se te amo tão vasto."

"O príncipe sabe de nada. O dragão é o protagonista."

"A segurar a alma alçada ao amor arriscado, aceita. Apenas abre asas."

"Da casquinha crocante da Eucaristia. Vou sovar cereal. Com força e poesia terei água e sal em plena comunhão."

"O tempo, sempre o tempo. Rodas espirais, agruras de vento... Depois chora ruínas no jazigo dos lamentos."

Vale a oportunidade de ver a língua portuguesa ser moldada com tamanha plasticidade e emoção, lembrando-nos de que a poesia não é apenas texto, mas um sopro vital que alavanca asas. É Spoken Word em sua essência: ritmo, alma e entrega.

"A segurar a alma alçada ao amor arriscado, aceita. Apenas abre asas." 🕊️

#WasilSacharuk #SpokenWord #PoesiaFalada #LiteraturaBrasileira #ArteEcultura #PoesiaViva #VastoAmor #PerformancePoetica #Versos #Cultura #Poesia #SpokenWordBrasil #Cultura #Reflexão #Literatura #Arte #PoesiaFalada #EscritoresBrasileiros #FilosofiaEPoesia




SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...