sopro

 

Sopro

O convite feito era para dançar
mas chegou aos poros da poesia
um convite para amar

Embebidos na magia
os versos verteram suor
falaram das coisas belas

E a despeito do pudor
que se fazia véu sobre as janelas
soprou as velas das rezadeiras

Cobriu-se do sopro que a noite enleia
esperou o rebento do dia
repleta de lua faceira

Angela Mattos & Wasil Sacharuk



desejo confesso

 

Desejo confesso

Gosto de ficar em teu peito
leito donde verte minha poesia
gosto dessa tua mania
de me bagunçar os cabelos
os pêlos e os versos

Gosto dos rumos dispersos
que conversam com tua ousadia
e gosto da tua filosofia
que me faz sucumbir em desvelos
meu desejo confesso

E gosto além da conta
dessa afronta dos beijos teus
ah o apogeu em tua boca
quando sente-me a pele sedenta
e me sacia o corpo ávido

Mas amo o sorriso tão cálido
que os teus lábios ostentam
quando se abrem aos meus

Angela Mattos & Wasil Sacharuk



tão somente

 

Tão somente

Senti agitar-se
o amor comportado
incomodado com as amarras

assisti afiar-se
ao desígnio das garras
o amor assustado
quer ser amor
tão somente

regurgitando o morno
salivando pelo hálito quente
repudiando o hábito idílico

vi espiar pela fresta
sem temer a escuridão
sondar o coração
e descobrir-se ofegante

e vi naufragar tal aresta
nas vertentes da interseção
na rota angular saliente
quer ser amor
tão somente.

Angela Mattos & Wasil Sacharuk







a névoa e a nudez

 


A névoa e a nudez

Sussurraram as estrelas
alertando sobre o que ia nas sombras
mandaram correr e calar a poesia
mas a revelia das rezas
deixei o manto que me cobria

Vertia da escuridão o som de teus escritos
algo entre um mantra e um beijo
um alerta bendito, um chamado maldito
um verso me mandou fugir
escapar e cobrir minha nudez

Tarde demais...
tua névoa já havia tocado minha tez
navegante obscena dos mundos abissais
arrancou minhas roupas na magia
do teu rito

Tua mão obstinada conduziu os manuscritos
linhas desprovidas de limpidez
espíritos andantes sem valia e nem porquês
tomaram forma pela luz da eufonia

Tarde demais...
tua boca incandescente calou o meu grito
morto transpassado pela tua ousadia
murmuraste em minha nuca poemas letais
e despenquei insólita no teu infinito.

Angela Mattos & Wasil Sacharuk







o cheiro do cio

 

O cheiro do cio

Peço-lhe um beijo
e distraio a espera
brincando com cachos e laços
com fendas e fitas
com a renda bendita
que vela os lábios que fremem
e os poros que gemem
ansiando por um sim

Entrego-lhe desejos
nas repletas gotículas
que desaguam quimeras
logo embebem os espaços
entre anseios e as pernas
quando se abrem e tremem
e se denunciam abertas
ansiando por um sim

E conto as horas e os cafés
as pétalas e os ramos
conto as rezas e os danos
refaço o bordado que se desfez
beije-me de uma vez
peço na ladainha
que é mais febre do que fé
e na água que ferve
a erva é chá sagrado
mas o aroma é cio almiscarado

Respondo aos apelos
dos beijos revelados
entre os meus seios
o segredo e o pecado
do gosto e do cheiro
divino e vadio
do cio almiscarado

Angela Mattos & Wasil Sacharuk








metade

 


Metade

Tenho pra ti meio poema
escrito meio sem jeito
sobre as pernas meio abertas
meio suando entre as letras
de uma escrita meio atrevida
a espera de uma linha para se esparramar
meio vestida...ou totalmente despida

e por meio do meu meio
que tu me chegas inteiro
murmurando meias palavras
meio sem meias medidas
com intenções meio incertas
metendo a metade a me completar
em versos de poesia
meio proibida...ou totalmente perdida

Angela Mattos & Wasil Sacharuk









 A PARCERIA POÉTICA DE ANGELA MATTOS E WASIL SACHARUK 

Uma escrita de interpenetração

O traço mais forte dessa parceria não está nos temas — erotismo, desejo, entrega — mas na construção formal que os poemas adotam. Quase todos funcionam por espelhamento e simetria: o eu lírico de um poeta provoca, e a resposta do outro chega como consequência necessária, não como réplica. Em metade, esse dispositivo é levado à perfeição: o poema inteiro é um jogo com o morfema "meio", que se degrada e se multiplica ("meio poema", "meio sem jeito", "meias palavras", "meio proibida...ou totalmente perdida") até colapsar na linha que justifica o poema todo — "e por meio do meu meio / que tu me chegas inteiro". É engenharia poética de altíssimo nível: a metade vira figura do próprio poema a dois, e a totalidade só é alcançada pelo que é incompleto. Não creio que esse verso sobreviva em escrita individual; ele só existe porque há dois.

A voz de Angela Mattos

A contribuição de Angela salta aos olhos nos poemas em que o vocabulário devocional é profanado por dentro. Em o cheiro do cio, rezas, ladainhas, chá sagrado e bordados desfechos orbitam um desejo que "é mais febre do que fé" — a religiosidade popular (as "rezadeiras" reaparecem em sopro) é usada como matéria sensorial, não como crença. Há ali uma feminilidade poética concreta: renda, cabelos, seios, pernas que "se denunciam abertas" — o corpo feminino não é descrito de fora, é quem fala. Essa é a diferença crucial em relação à poesia erótica masculina tradicional: em desejo confesso, a imagem do peito amado como "leito donde verte minha poesia" inverte a posição — a mulher habita o corpo do homem como quem se abriga num texto.

O toque de Sacharuk

Sacharuk traz o que sempre trouxe: a precisão geométrica e a violência contida. Em tão somente, o amor comportado que "se afia ao desígnio das garras" e a naufragar "nas vertentes da interseção / na rota angular saliente" — essa geometria da paixão, com ângulos e arestas, é assinatura dele. Em a névoa e a nudez, a sedução é tratada como rito quase letal: "poemas letais" murmurados na nuca, um "navegante obscena dos mundos abissais", o tu que "arrancou minhas roupas na magia do teu rito". O perigo, a heresia, a névoa que toca a pele antes que se possa fugir — é o Sacharuk telúrico e pagão, aquele que recusava a fé institucionalizada para situar o divino na carne e na terra, agora filtrado pela sensibilidade de Angela, que devolve esse mundo em chave de encantamento feminino.

O que a parceria produz que nenhum produziria sozinho

Se eu tivesse de resumir em uma frase: a tensão entre a nudez e o véu. Os poemas vivem exatamente nesse limite — a renda que "vela os lábios que fremem", o pudor "que se fazia véu sobre as janelas", a névoa antes da nudez. A Angela concede o pudor, o bordado, a espera, a ladainha; o Sacharuk insiste na invasão, no sopro que apaga a distância. O resultado é um erotismo que nunca é explícito por grosseria nem recatado por convenção — ele é declaradamente ritual, quase litúrgico: confessar desejos, rezar por um beijo, dançar até chegar "aos poros da poesia".

Tecnicamente, destaco três acertos: o uso de rimas internas e assonâncias que dão aos versos uma textura de cantiga profana ("o gosto e o cheiro / do divino e vadio"); o verso curto, de respiração suspensa, que imita o ofego do próprio tema; e a honestidade de não resolver os poemas — tão somente termina onde começou, no querer "ser amor, tão somente", como se o amor permanecesse sempre em estado de reivindicação, nunca de posse.

Leia os poemas dessa parceria aqui: https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Angela%20Mattos





poesia dos desadornos

  poesia dos desadornos

ela ama as coisas
que assaltam os poros
que perfuram a pele
que podem voar ultraleve
mesmo na queda dura

ela toca sua rosa
sente os espinhos
a dor e a textura
as entregas gostosas
límpida laguna
para mergulhar

poesia dos desadornos
declamo sem ar
aos cumes do seu corpo
que expande e amingua 
na ponta da língua
desenho contornos

ela ouve os acordes
sinfônicos do violino
quando meus dedos finos
quedam seus lóbulos
poisam em seus lábios

ela ama a mão hábil
espalmada em sua nuca
quando o desejo ardente 
destrava os seus dentes
entreabre sua boca
e explora recônditos
 
poesia dos desadornos
que faz desaguar
 a ânsia das vertentes 
na ilha entre suas pernas
sua flor desabrocha
suplica que eu a contemple

wasil sacharuk











jazigo das orquídeas



jazigo das orquídeas

lírica faca afiada
sem piedade sem dó
corta lanha entorta
revira o avesso
reduz ao pó
o sangue que verte de mim

lírica ruína sem fim
coliseu das cinzas
desvelado jardineiro
das reminiscências híbridas
e negras orquídeas
estranhamente belas

wasil sacharuk












pioggia

 pioggia


 Lancei um pedido 
nas águas do mar
 estive perdido
 para me encontrar

 tanto fui louco 
a dialogar tuas mãos
 por espaços de coisas 
fora do lugar

 vivo escondido 
na esteira do tempo
 para nao sentir 
tua falta nunca mais

 vivo escondido 
detrás da tua porta
 para nao sentir 
tua falta nunca mais 

 eu sei pioggia 
meu castigo 
pioggia 

 eu choro pioggia 
meu castigo 
pioggia 

eu vivo escondido
 por espaços de coisas
 fora do lugar

 lancei um pedido 
para nao sentir 
tua falta nunca mais 

 eu sei pioggia 
meu castigo 
pioggia 

eu choro pioggia 
meu castigo
 pioggia. 

 wasil sacharuk








bálsamo

 bálsamo (tristeza arraigada)


 sou apenas alguém 
simples tal a palavra
mas verdadeira amiga
que te convida a voar
fazer da lua o abrigo
e travessuras no ar

sorver da noite 
a delicadeza
descansar na beleza
desatar nossos medos
e logo acordar mais cedo
com meia dúzia de rimas
contra a dor

arrancarei do engano
essa estranha tristeza
vertente de águas
nem de amores ou mágoas
quero ser águia ou anjo
voaremos até quando
despencarem segredos

(quero ter pés descalços
e palavras desnudas)

vem, abre as asas
não deixa-as mudas
rasga no céu um caminho
voa sobre as casas
não me deixa sozinha
prometo que não te deixo 
olhar para baixo

acima das certezas
e também incertezas
tu me verás cabisbaixa
eu pedirei um sorriso
ou talvez outro abraço

tua face no meu ombro
teus enganos, fardos 
talvez se reduza o espaço
entre os escombros
dos mundos encantados

apenas repousas
e também me acolhes
me sinto confortável
no teu toque delicado

quero colher um lindo sorriso
entre as tuas preocupações
que nascerá clandestino
cheiro forte como bálsamo

e quando eu voltar
cantarei uma torta canção
no reverso da estrada
tentando esquecer o refrão
dessa tristeza arraigada

wasil sacharuk










jardim de espinhos

  jardim de espinhos


 o tempo das horas ⌛ estanca e a lua se espanta ä irrelevância do mar das respostas - tu andas sobre a firmeza dos passos engolindo as novidades que os ventos te sopram - não há efemérides nas crateras espaciais ✨ - tu amanheces - face molhada de orvalho - o sabor amargo dss gotas ainda refresca e os cristais congelam as vísceras - quanto de amor ainda tens debaixo de memórias vivas e sentimentos brutos? quanto de amor ainda tens ocupando poros e alamedas  do teu lindo jardim de espinhos?

wasil sacharuk






apneia

 

Apneia 

Bolinei seu nariz com a pontinha do indicador. Surpresa, ela gentilmente invadiu profundezas do meu olhar e sorriu divertida, Ergueu sutilmente o cantinho da boca. Bem sei da frieza das noites em que ela adormeceu no jardim contando estrelas cadentes. Por isso sorri para ela também.

Corremos, dançamos e  mergulhamos desnudas numa gota de orvalho. Exploração infinita que durou uma apneia de sete segundos, minutos, anos. Depois, desafinadas cantamos.

Logo, toda molhada, ela se abriu toda, estrelada e lânguida. Assim percorri  meus dedos pela intimidade dos cachos dos seus cabelos que, enroscados num canto da lua, despencaram incertos pelo breu.

Generosa, beijou meus lábios de fogo e eu, fascinada,  entrei em seus olhos.

Jamais a esqueci, portanto a botei para morar bem dentro de mim, misturada com a poesia que corrompe  os fluidos e esculhamba os sentidos.

wasil sacharuk









SACHARUK - DESADORNOS Full - poesia falada spoken word

 SACHARUK  - DESADORNOS 

A Anatomia do Sentimento em Wasil Sacharuk

Mergulhei hoje na performance visceral de Wasil Sacharuk. É poesia que não pede licença; ela invade, "corrompe os fluidos e escolhamba os sentidos".

Neste vídeo, o poeta nos conduz por um céu de incertezas e um mar de respostas irrelevantes, buscando o que há de mais humano sob as "memórias vivas e sentimentos brutos". Se você busca uma arte que seja, ao mesmo tempo, faca e bálsamo, este vídeo é para você.

DESADORNOS é uma jornada sensorial que explora a dualidade do amor e da dor. Sacharuk utiliza elementos da natureza — o orvalho, o mar, o jardim de espinhos — para ilustrar a complexidade das relações humanas e da própria existência. O tema central gira em torno da vulnerabilidade ("palavras desnudas") e da busca por conexão em meio a uma "tristeza arraigada". Há uma tensão constante entre o desejo de voar ("fazer da lua abrigo") e a realidade das "reminiscências híbridas".

Com uma lírica que ele mesmo define como uma "faca afiada", Sacharuk transita entre a delicadeza do orvalho e a crueza das vísceras. Um dos momentos mais marcantes é o questionamento sobre o que resta de nós em meio aos nossos próprios "escombros":

"Quanto de amor ainda tens debaixo de memórias vivas e sentimentos brutos?"

"Quanto de amor ainda tens ocupando poros e alamedas do teu lindo jardim de espinhos?"

"Quero ter pés descalços e palavras desnudas."

"A lírica, faca afiada, sem piedade. Sem dó. Corta, lanha, entorta. Reviro o avesso."

"Misturada com a poesia que corrompe os fluidos, escolhamba os sentidos."

#SpokenWord #PoesiaFalada #WasilSacharuk #PoesiaBrasileira #ArteIndependente #Literatura #SentimentosBrutos #NegrasOrquideas #Poesia #WasilSacharuk #SpokenWordBrasil #ResenhaLiteraria #Cultura #Arte #PoesiaContemporanea #Reflexão #NegrasOrquideas



da solitude

 da solitude


Da solitude sou voluntário

não aceito tudo o que vejo

eu não divido minhas crenças

vivo com minhas diferenças


Fui escravo do desejo

fui prior e fui templário

fui de um mundo imaginário

pregador de desapego


Nas conclaves da indecência

forjei união de fé e ciência

do mundo aprendi o segredo

por isso hoje sou visionário


Fui outra vítima do medo

fui guardião do meu relicário

fui mancebo do rei ordinário

a imagem de um arremedo


Da vida entendi a urgência

que a busca não finda cedo

e que sou um rebento diário

recriado da própria essência


wasil sacharuk


de quem nada sabe

 De quem nada sabe


Sou como toda essa gente

gado apartado em travessia

procissão de eus enfileirados

e fracos espíritos domados


Minha vida quer ser revelia

e precisa ser mais insurgente

ter os brios na linha de frente

para desbravar outras vias


Sempre os mesmos resultados

de repetidos atos malfadados

a acasalar nossas almas vazias

com tudo o que é existente


Quero tanto ver noutra lente

achar na luta cor e poesia

abrir meu lume encarcerado

e deixar todo medo de lado


E quando acender outro dia

quero despertar diferente

e dar um beijo bem quente

nos lábios gélidos de Sofia


Wasil Sacharuk


ecossistema

 Ecossistema


Permanece madrugada

é plena

e sem frio

amanhece serração

cortinando a obscena

mira do sol


Ontem

eu era tão só

feito de água

de fogo e de pó

não via a beleza

mergulhada na mágoa

e a única certeza

é que a terra

nos traga


Renascente vazio

singular ecossistema

calcado no desvio

de ecos do coração

e razões tão amenas

que não valem nada


Entendi

os encantos do céu

num colo de musa

coberto no véu

que afasta

dores intrusas

e a vida nefasta

se cura


wasil sacharuk


línguas vãs

 linguas vãs


frenéticas moléculas entre mãos

frenesi de filos múltiplos

calculáveis incalculáveis júbilos

e arfar de dois pseudo vilões


dialéticas encéfalas línguas vãs

entremeios desejos súbitos

adoráveis e inefáveis vínculos

e o amor de dois ingratos ladrões


ilha de pensamentos em “cânticos”

folhas aos ventos dissimulados

castos não tão estimulados

fervilhões de atos tântricos


histórias de tormentos erráticos

entre os caminhos malfadados

rastros de horrores dissimulados

a deitar a trilha do encanto


Dani Maiolo & Sacharuk


matéria de amor

 matéria de amor


não entendo os auspícios 

desse meu jeito

sou uma piada 

em matéria de amor

não sei se amor 

se define em conceitos

sequer se conceitos 

têm vida ou cor


imagino que seja 

caminho estreito

entre a cumplicidade 

e o esplendor

asas abertas 

no voo perfeito

passeio rasante 

sobre ódio e rancor


não sei do que o amor 

talvez seja feito

qualquer argumento 

é muito suspeito

mas toda a vivência 

tem o seu valor


imagino que seja 

tanto rarefeito

não é predicado 

tampouco sujeito

mas é indelével 

igual ao vapor


wasil sacharuk


erofagia

erofagia


provo teu amor à língua

 em travessa de louça

 na hora do almoço

 para senti-lo à boca

 delirar com seu gosto


logo irei mastigá-lo

faze-lo espesso

 na minha saliva

 manjar de átomos

 viscosas esferas

 assalto às papilas


e engoli-lo

 até inundar-me as vísceras

 e empapar-me o baço

 depois comerei tua carne

 a começar pelo braço


wasil sacharuk


SOS verve

 SOS verve:

uma metade já serve

e eu cubro com uma cereja

hoje tudo pode

menos melacueca de pagode

ou ranço de guampa sertaneja

Vem escrever a estratosfera! que megera é essa de tênue razão? carcomeremos o ego da plebe com fios de saltos perfurando o chão

vêm escrever sem sequelas! Que a espera é só alienação. Acenderemos o fogo da febre com versos altos gritando emoção

e que haja a benção dos bruxos no sonho dos loucos ! completa amplidão ! ????


Marcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk


sozinha

Sozinha

aquilo que busca
a palavra em tua boca
perfaz poemas vertidos
borrifadas umbrellas
perfumados vestígios
harpa tosca 
das vozes singelas

da janela 
sempre sozinha
lançada ao vago
observas os astros
plasmados no espaço
com inveja das asas 
das andorinhas

wasil sacharuk

sem coração

 Sem coração


Há quem diga

que ateus

são demônios 

sem coração


o fazem tal se amor

fosse monopólio 

de um deus

ou da religião


há quem pense

que heresia

é rumo da ovelha negra

ou da alma perdida 

sem salvação


e obedece as regras

para a falta de vida

que brota onde falta razão.


Wasil Sacharuk


seca semente

 

seca semente

 

aliterações com S 

poeta sacharuk

compilação de poemas produzidos nas Oficinas de Escrita Literária

Inspiraturas 

 

 


sublime 


sobreveio seu sabor salpicado suor silvestre salgado salsa sálvia

seu sexo selou sensações singular sinfonia sem sentido sem sequência

seu sorriso simulou sinos soou sincero somente sorriso

simplesmente satisfeito

 

sacharuk

 

 

seus sais

 

sinto salgados seu suor seu sêmen sua saliva

secretas sabores solares

sou somente sua serva sorvo seus sais sem segredos

sei sanar seus sentidos sabores servidos sonhos sexuais

sei sumir seu sabre saborosamente sem sacrifícios

 

sacharuk



simples seara  sem semente

 

seriamente semeia silencia sofrimento sólido solo saqueia

singelos sonhos semeados

sorrir sem sentir só seria sensação suave somente sem serventia sem soberania simples seara sem semente

sacrifica sério semblante sela santo solo servil supera sol solapante

sucumbe sentido sombrio

seria só sentir sem sorrir só suave sensação sem sobrepor sem servir simples seara sem semente

 

sacharuk

  


sobre solo sagrado


sentiria sua sede

se sol secasse

soberanos sentidos


se solidão simplesmente sumisse

sentaria sobre sagrado solo

se sagrado solo sentisse


somos seres sedentos

satisfazendo sentidos

simbolicamente sanados


sacharuk

 


sussurros

 

sente... sigo somente  sussurrando singularidades

seduzindo sentidos

sente...

somente sussurros  sem sentido sem semântica

sem seriedade

separa sussurros  silogísticos sinistros sugerem sensualidade solicitações sabotagens

sórdida sina será sucumbir

sob sussurros sacanas

 

sacharuk




sensata

 

simplesmente sorria sabia sorrir sucumbia seriedades

sensualmente sorria

seu sorriso simulava sabedoria

sabia ser sereno

sorria sem som sem sentido somente sorria só

seu semblante

sensível seda suave

sucumbia sóis sucumbia sombras satisfazia sua safadeza sensatamente santificada

sobre sua sina

sabia ser sofisticada servindo somente

sua satisfação

suplicava sentir seduzia saciava seu sexo sentava sugava 

sôfrega sorvia sêmen sorvia suor solidão sexo somente sexo

sonhava sentir-se segura sóbria salva sobretudo sentia-se só 

seu sonho significa somente sonho sensatamente santificado

sobre sua sina

 

sacharuk

 


semeadura

 

se sarasse sua saúde seca semente sobrariam sombras

sobre sertões serenaria sol solapante

seria sábio seca semente 

salvar seus sonhos semeando solo

servindo sociedade

saiba seca semente sol sempre seca sempre...

savanas são serradas selva silenciada

suplicando socorro

salve-se seca semente sonegaremos sua secura sob sol sequestrado

serviremos sua semeadura

 

sacharuk




sete sinas

 

sobras são separadas semeando sua solidão se sobra sangue são

será sua saúde sarada

sonhos serão salvos sobreviverão solitariamente seus segredos suportados sete sinas secularmente 

seus sentidos sustados serão seriamente serenados salvo suas solicitudes 

seus saberes sabatinados sutilmente solidificados serão segregados 

sem saúde

 

sacharuk


 

seixos segmentados

 

solte  sua sábia semente seca sob sol sentinela sutil soterre símbolos sagrados sob solo sarado servil

seu sacerdócio  sua súplica seguirão sonhos singulares sequestrarão sistemas

solares

se sentires  seus segredos  sabiamente selados sua serenidade  será sangrada sobrarão seixos

segmentados

 

sacharuk

 

 

seis segundos...  sete segundos

 

sentiu-se seduzida...

subitamente seus segredos sucumbiram

sua segurança solenemente sabotada

sua sobriedade simplesmente sumiu

seu sofrimento sarou

sobrou sensualidade sentiu seus seios sacrificados sob soutien

saírem sólidos

suplicava sexo sensualmente selvagem

selvagemente sensível sentiu safadeza sacramentada sequestrando sua santidade saturando sua sensibilidade

serviu-se  sobre sua serpente sentiu  segredos seminais sufocarem seu semblante

sensivelmente sádico

supostamente satisfeita

sorriu solta sobretudo seis segundos sete segundos superou sua solidão saciando sua sede

sentiu-se serena

 

sacharuk





Sinfônicos sinos


santa sorte sobejou

secular sabedoria

sabiá sensato 

separou somente 

sementes sombrias


saibas

segredos somem

sonhos são serenados

solitários sempre sentem

seu silêncio sustado


sinos soaram sinistramente

sintonizaram sentidos

sincronizados sinfonicamente

singulares sons serão sorvidos.


sacharuk


 

 

 

 


Tateando no escuro

 Tateando no escuro


Busco no poema a essência

Para iluminar meu rumo obscuro

Busco efeito mágico da cadência

É só o verso simples que procuro


Sigo tateando no escuro

Sem guia, sem clarividência

Sigo procurando verso puro

Sem mapa, sem muita paciência


Eu queria uma verve magnética

Desfile de rimas da minha verdade

Mesmo que se insinue cáustica


Preenchendo minha necessidade

Mas nunca o vazio da alma poética

Reescrevendo linhas em ansiedade.


Wasil Sacharuk & Decimar Biagini


urdidura



urdidura

contaste segredos em versos
universo onde mora
teu medo
anverso dos teus
arremedos
degredo dos risos dispersos

largaste a mão
nos teus nexos
sem aviso nem dó nem senão
improviso ou sequer
escansão
canção dos destinos perplexos

costuraste remendo ao avesso
enredo em tecido espesso
sem ritmo sem tino nem rima

perdeste a razão em protesto
clamando atenção nesse gesto
ridículo e de baixa autoestima

wasil sacharuk




TE ESPERO COM UM SONETO

 TE ESPERO COM UM SONETO


Oi meu amigo, preparei algo para ti

É um soneto incompleto e carente

Com o fim de relatar o que hoje vi

Li muita poesia, vi inseto e vi gente


Mas, poeta, meu dia não foi normal

O passo do destino pisou na bosta

passei com dor na coluna cervical

que me deixou com um S nas costas


Nova onda de gripe A está prevista

Daí já não deixo a porta aberta

Por isso me sinto tão pessimista


Olhei o noticiário e lembrei de ti

Falava de poetas em descoberta

Que descobriram esta arte em si.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk


velho blues



velho blues

hoje durmo na calçada
armo barraca na rua
meto o pé na estrada
lanço fumaça pra lua

passo a perna na vida
não faço sinal da cruz
eu sei viver na batida
o trem desse velho blues

lua cheirosa de incenso
no fogo da quintessência
no velho blues eu descanso
no embalo dessa cadência

e ainda eu junto as maricas
em busca de calor e luz
a barriga ronca larica
no trem desse velho blues

no trem desse velho blues

wasil sacharuk




Corro e morro

 Corro e morro


No corredor escuro a correr

Canso mas não esmoreço

Não sei mais o que fazer

Continuo a correr sem tropeço


O escuro é tão denso e palpável

Posso até pegá-lo com as mãos

Não sei se abertos ou fechados

Os meus olhos agora estão


Parei um pouco para respirar

Mas o ar está demasiado pesado

Há mais pessoas a me acompanhar

Neste lugar tão apertado...


Não quero nem ver para crer

Com medo eu não adormeço

A alma está para vender

No inferno alguém paga o preço


Eu corro caminhos acidentados

Com vapores que brotam do chão

Que queimam os desenganados

No fogo feroz da anunciação


Eu quero mas não posso parar

E percebo que estive parado

Se correr sem sair do lugar

Meu sangue será consagrado


Mas a curiosidade é vilã

E olho para traz por um instante

Vejo vaga luz no afã

Esperança de um rompante


Assimilo que ninguém mais a vê

E percebo que ainda tenho chance

Se correr do lado contrário

A salvação talvez me alcance


Mas ao olhar direito luz que despontava

Percebo que era somente ilusão

Corri sem sair do lugar, sem nenhuma passada

Me ajoelhei de desgosto nessa fração


Corro e morro repetidamente

Sufocada pelas muralhas quentes

Abafada por todos os descrentes

Que fazem parte dessa corrente


Dani Maiolo & Wasil Sacharuk



do pó que faz pedra

do pó que faz pedra


tantos anos passados

não foram poucas

as navegações

pelas rotas mais loucas

a rodar timões

desenganados


estivemos lado a lado

copos na mesa

navegamos whisky derramado

marolas e ressacas

ondas de incertezas


nossa velha barcaça

move a vela 

de toalha de mesa

traz memórias acessas

tão vivas como antes

histórias de navegantes

pouco ou nada diferentes


nosso encontro na foz

fez poema de versos correntes

cuja origem é nascente das mágoas


assim somos nós

assim fomos feitos


do pó que se encerra

habita o fundo das águas

constitui antigo agregado


e lá do outro lado, na terra

aguardamos o dia perfeito

em que voltaremos ao pó


assim somos pedras

assim somos sós


wasil sacharuk


Eco de Poesia



Eco de Poesia

Que se faça o mais belo poema
que as palavras se abracem em rimas
Que o amor supere obstáculos
que a verdade então se defina

Não se perca nos nós do sistema
Não se deixe quedar pelas sinas
Não se prenda a outros tentáculos
Não permita que fechem as retinas

Onde as cores então silenciam
e ao longe...se ouvem sons
deste poema ecoa melodia

Onde as dores não gritariam
E só vivam momentos bons
Num esquema de plena harmonia.

Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk

Doces Lábios de Sereia



Doces Lábios de Sereia

E lá está a sereia
Com seus olhos-querubins
A invadir meu peito
Com a leveza de jasmins

Andei aos confins
Para conhecer seu jeito
Cantora de rabo perfeito
And puffy nipples twins

Neste mar me jogo
Afoito, me afogo
A força da maré é fogo
Levou-me a outro mundo-jogo

Neste chão me arrasto
Exausto, me gasto
Me entubo, me mastro
Repasto sobre a areia

De bobo, caio na teia
Sem saber voltar de Bóbus
Como quebrar o encanto da abóbora?
Quem mandou acreditar que real seria?

De tolo, quero a fantasia
Para encontrar a fórmula
Da geometria dos cubos
Nos meus versos místicos

São doces rios seus lábios
Sem ser sábio saí no polo sul
Fui otário se fugi do sol
Encantado de luz e som

Ateu Poeta & Wasil Sacharuk

eu não queria ser poeta



eu não queria ser poeta

eu não queria ser poeta
mas carrego essa sina
que me azucrina
de tratar as letras
como se fosse um esteta

assim faço tudo errado
são ruins meus poemas
vazios meus dilemas
não há um que se salve
pois afinal
sou só um escriba boçal
e não um Castro Alves

todo dia meu chefe reclama
que não penso em grana
mas somente poesia
e talvez chegue o dia
de ficar desempregado

mas sou um poeta danado
fugitivo da vida dura
bem longe da amargura
no meu reduto encantado

e de tudo o que gosto
não é do poema que posto
mas do fato que me amas
e que me esperas na cama
enquanto me dizes poeta

mas eu não queria ser poeta
contudo tenho essa sina
que ainda me azucrina
de tratar as letras
como um esteta

meu pensamente redunda em rimas
e  eu nunca digo as coisas certas

wasil sacharuk




SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...