Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
eu não queria ser poeta
eu não queria ser poeta
eu não queria ser poeta
mas carrego essa sina
que me azucrina
de tratar as letras
como se fosse um esteta
assim faço tudo errado
são ruins meus poemas
vazios meus dilemas
não há um que se salve
pois afinal
sou só um escriba boçal
e não um Castro Alves
todo dia meu chefe reclama
que não penso em grana
mas somente poesia
e talvez chegue o dia
de ficar desempregado
mas sou um poeta danado
fugitivo da vida dura
bem longe da amargura
no meu reduto encantado
e de tudo o que gosto
não é do poema que posto
mas do fato que me amas
e que me esperas na cama
enquanto me dizes poeta
mas eu não queria ser poeta
contudo tenho essa sina
que ainda me azucrina
de tratar as letras
como um esteta
meu pensamente redunda em rimas
e eu nunca digo as coisas certas
wasil sacharuk
SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word
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