Café ou chá?
— Por favor, senhor, veja bem, preciso que o serviço seja realmente sigiloso. — Disse a voz sonora. — Quero sua garantia, senhor Francisco, de que posso contar com total discrição.
— Está tudo bem, meu chapa, ligou para o lugar certo. Pode me chamar de Chico. Fique tranqüilo que nosso serviço nunca deu problema para ninguém. Não seria dessa vez que aconteceria uma infelicidade, logo com o senhor. Não acha? É tudo muito seguro, pode acreditar na minha palavra. Gente grande já nos procurou e não deu complicação para ninguém. Pode perguntar para aquele seu amigo que nos indicou para o senhor se o serviço é ou não é de qualidade. A maioria volta no mínimo uma vez por semana, chefe, e com o senhor não vai ser diferente. ─ Assegura Chico com uma voz grave que reverbera do celular, revelando um despreparo educacional que realmente incomoda ao cliente.
─ Melhor assim, seu Chico. — O homem faz uma breve pausa. — Se eu realmente me agradar do que vou encontrar, talvez até continue seu cliente, desde que o senhor cumpra com o que promete.
─ Então está certo doutor, sem problemas. Vou cuidar de tudo para que a Janine lhe espere hoje às nove da noite. O senhor pode entrar direto no quarto três e dar de cara com aquela belezura. É só subir a escada. Só não esqueça que não aceitamos cheque e nem cartão. Se o senhor precisar de mais alguma coisa para dar um clima, sabe como é... bebida ou outra coisa qualquer, é só ligar que, por aqui, eu arranjo de tudo. — As últimas palavras de Chico saem sopradas como que simulando um segredo.
─ Obrigado, se precisar de algo mais lhe direi em tempo. — Mais uma pausa. — Chegarei as nove em ponto, ok?
Guilherme Pinheiro, economista servidor do governo federal, empreende seus primeiros passos na nova vida de aposentado. Apesar da aparência jovial, a testa vincada entre a calvície e o olhar rude, os dentes de raras aparições com frequência incitaram os colegas do Instituto de Economia a esperar ansiosos pela sua aposentadoria. Enverga com galhardia ternos de linho escuro que são trocados a cada dia. Os tecidos distintos de boa grife são, no entanto, muito parecidos, compondo um estilo altivo junto aos velhos comparsas charutos cubanos, cujo aroma desperta opiniões contraditórias.
O exemplar matrimônio com Telma, arranjado cordialmente entre as famílias na mais perfeita intimidade geográfica e socioeconômica, durou o suficiente para consolidar as imagens de homem íntegro e de profissional de classe e respeito. O suporte da incansável Telma rendeu-lhe, além do diploma da graduação, alguns amigos com considerável poder de influência nos meios políticos e sociais da cidade emergente; dois valiosos imóveis na zona central; bem como os dois sofisticados automóveis que perfeitamente combinavam com os charutos. Telma ainda lhe presenteou com a bela Bianca, jovem de pele muito branca e olhos claros, herdeira da genética sutil e harmoniosa, dos dons artísticos e da configuração italiana da mãe.
Com exceção do Chevrolet, o diploma e o amigo Rogério Nobre, remanescente do curso de nível médio, tudo o mais que outrora conquistou durante a falida união foi consumido pelas conseqüências irreversíveis da depressão maníaca da esposa.
No velho casarão de paredes impecavelmente brancas, numa colônia italiana distante do centro urbano, Telma toma um chá fraco e quase frio acompanhado de biscoitos doces, tal sua mãe, surda e alheia, e a irmã mais velha, cuja afinidade recuperara quando essa passou a compartilhar da mesma sorte que a sua.
─ Dora, eu já não sinto tanta falta do Guilherme. Penso que finalmente estou conseguindo esquecê-lo. Na verdade, acho nunca o amei, mas sentia necessidade da presença de alguém forte e com autoridade suficiente para me proteger de mim mesma. ─ O líquido no fundo da xícara retorna a luminosidade do seu olho. Após uma meditativa pausa para um longo gole, Telma conclui com a voz embargada: ─ A terapia tem me ajudado bastante. Se ninguém, até hoje, conseguiu suportar a arrogância de Guilherme, nem mesmo as conveniências da proximidade com aqueles iguais a ele, o que dizer da minha Bianca, tão sensível que é?
— Falando em Bianca, comprei um livro para presenteá-la no aniversário. — Dora mostra o mesmo brilho nos olhos castanho-esverdeados enquanto encara a irmã.
— Outro? — diz Telma sorrindo.
No velho sobrado, circunvizinho ao centro comercial da cidade, Chico, com certa força, empurra a estridente porta do quarto três, o melhor da casa, e vai logo dizendo à Janine, languidamente estirada sobre a cama: — Te ajeita bem bonita que daqui a pouco vem um doutor cheio de frescuras e exigências. — Janine fecha o livro que tem nas mãos. O vermelho das letras se destaca na capa dura de tom creme. — Ele pediu muito sigilo porque não pode ser reconhecido. Deve ser um figurão. Acho que tu até podes ganhar algum por fora, se o homem gostar, mas desde que tu não roube nada do bacana, pois quero que ele fique freguês. — Chico pega o livro e percebe o olhar atento de Janine. — Bem que estou precisando de uns figurões por aqui para melhorar a freqüência do estabelecimento. — Como é que é?! Eletra?
─ “Electra”, ignorante. Mitologia... ah! Deixa para lá! — Janine arranca-lhe o livro das mãos e o deposita no criado-mudo. — Vou ficar pronta logo e pode sossegar porque não vou roubar o figurão. Quero ver se ganho algum para viajar e ficar ao menos uma semana sem precisar olhar para essa tua cara ridícula de cafetão. ─ Diz Janine coçando o olho verde direito e removendo os resíduos da leitura. ─ Se esse cara é doutor, eu devia então fazer ele se apaixonar por mim, e daí levar minha vida na maior, me arrumar e não ter que suportar a tua demência... e o teu bafo.
A noite chega e traz chuva fina, daquelas que molha muito sem que se muito perceba. Guilherme, depois de estacionar o Chevrolet, atravessa a rua, correndo e desviando das poças de água da chuva. Entra no Café Nobre, tradicional ponto de encontro dos servidores públicos locais, de propriedade do amigo Rogério que vem recebê-lo com o sorriso rasgado que invariavelmente o acompanha.
─ O que te trouxe aqui, Careca, a chuva fria no lombo? Ou esse pavor incrustado na tua face?
Guilherme, preocupado em espalmar o excesso de água da chuva dos ombros do paletó cinza chumbo, puxa nervosamente a cadeira pelo espaldar e senta. O amigo, ansioso pela resposta, consolidando o velho ritual diário, o acompanha à mesa e ouve a resposta que já esperava ouvir:
─ Vou pedir para Bianca voltar.
Rogério ordena ao garçom que traga dois cafés, para começar...
Chegada a noite, a chuvinha fria havia virado uma penca d’água bruta e insana. Encapsulado no Chevrolet, Guilherme viu que a vidraça do velho sobrado, pavimento superior, replicava com a mesma força, a violência daquela chuva. E pensou, mais uma vez, que talvez fosse melhor deixar como está.
Wasil Sacharuk