magnífica

 magnífica 


desnutri os tolos preceitos
diluí a razão das temáticas
foste tu recoberta de tintas
ao torpor da frieza realista

encobri manchas fálicas
 cores primárias ao peito
capturas de formas e gestos
linguagem nua sem retórica

desprezei paisagens cinzentas
as mortes brancas e pretas
desenhei uma fala drástica
nos lábios vermelhos sedentos

misturei nas tintas meus restos
derramei as vontades pictóricas
fiz suave o atrito das cerdas
a lamber tuas entranhas malditas

e te descrevi tão explícita
na orgia do meu manifesto
ventre aberto inconfesso
donde irrompes mulher magnífica

wasil sacharuk







bailarina das luas

   bailarina das luas

dissolvo-te as reentrâncias
ensaio cores nuanças
reviradas nas águas
para lamber tuas pernas

descubro-te com feixes
de espíritos da terra
talvez sejam peixes
criaturas estranhas
ou almas insanas
suplicando teus átomos

e faço-te em matizes
das minhas cerdas
com cuidado
para riscar os deslizes
os contornos abstratos

sinto-te nas cores
tal fossem sabores
revestidos na sépia
de inventados outonos
a negar os calores
e as primaveras

inventei a tua nudez
aos auspícios da lua
ela louca se fez
perdida na vastidão
dos seus vícios
de poesia e de escuridão

certo dia
peguei tua mão
e gravei em sua palma
traços de incertezas
e o açoite da espera
que ronda as noites
da minha janela

bailarina das luas
e dos arcanos
te fazes mais bela
se danças nua
no teu oceano

eu somente
estrela cadente
busco tua senda
na angustia da queda
revelo-te silente
tal quem nada espera

wasil sacharuk







pirofagia






pirofagia

sou bruxa mulher
e meu diabo só quer
minha queda em pecado

comer-me a alma perdida
degredada dos quadros
de qualquer remissão

bruxa mulher
meu diabo só quer
vibrar sobre a melodia
que minha língua recita
poesia inscrita
com sílabas poucas

sou mulher
bruxa mulher
meu diabo só quer
explodir o seu fogo
no céu da minha boca


wasil sacharuk






tateia

 tateia

nas pequenas mortes
o corpo festivo
não mais te pertence
tua mão sem cautela 
tateia 

 seiva vertente 
percorre-te os lábios
desabrochado botão 
teu olhar vidrado 
sorri 

nas pequenas mortes
o toque orvalhado contrai
o atrito da palma
precipitam os dedos
ao abandono dos ais

wasil sacharuk











religare

 religare


luz
tu que provéns
de todo movimento
de todo momento
que emana do humano
do arcano
do engano e do medo
do arremedo
daquilo que é insano
e também é brilhante
um diamante

religare, religare

ao cerne da verdade
na insana sanidade
sem santa trindade
religare um cometa
um capeta
um gameta
que fecunda a vida
faz vontade
incompreendida

é o pecado
prejulgado
e eu peço perdão
mas não sei a razão
já me fiz perdoado

religare, religare

com a faca afiada
que antecede a mim
para dar o fim
na necessidade
de eleger divindade
para que eu possa pedir
ter um motivo para sentir
o meu contato com o mundo

o tal poço sem fundo
que é a normalidade

religare com a liberdade

wasil sacharuk



vento baseado

 vento baseado 


 venho de longe
trago no alforje
um saco de pão
um pouco de mel
a garrafa de cana
meu livro de papel
e uns quarenta gramas

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
onde formigas sucumbem
aos saltos dos sapatos
quando pisam as nuvens

vivo das vidas que vivem
e não assinam contratos
somente se servem
da tolice dos atos
dos ateus dos incréus
e dos crentes sacanas

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
onde a ideia se nutre
da crueza dos fatos
derruba engana derrama

hoje comprei um pijama
que tem estampado
o instigante retrato
do chapolim colorado
e seu letal movimento
precisamente calculado

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
na efeméride dos tempos
na companhia do vento
enquanto vento baseado

wasil sacharuk



meus disfarces

 meus disfarces


meus disfarces abandonados
traumas vícios pecados
hoje faço vigília na noite
e uso os meus artifícios
para o teu doce descanso

sou remanso enluarado
dormes sem sacrifício
e fico bem ao teu lado
a zelar pelo sono
e uso os meus feitiços
para que tenhas proteção

largo meus disfarces
entre nossas conversas
intercalados nos versos
e nas linhas da face
que toco com os dedos
para descobrir
teus insanos segredos

meu coração machucado
teme que sumas
em qualquer titubeio
e fica acordado a pensar
o tempo inteiro
em merecer teu carinho
inundado de amor

troco meus disfarces
por portas abertas
e algumas promessas
para o desenlace
dos teus enredos
e ver sucumbir
os teus medos

e também
os meus

deixo meus disfarces
bem junto aos teus
nas entrelinhas
das nossas palavras

(palavras que impregnam
eu sinto)

wasil sacharuk





poema do fogo

 poema do fogo


hoje queimo a matéria no fogo
a matéria é o pão
é decerto as tiranias 

disfarçadas democracias
o corpo enseja a competição
ei poeta, louco
qual teu lugar nesse jogo?

raiva, medo
uma mancha no pulmão
taquicardias, esquizofrenias
desveladas rebeldias
ataques no coração

caricatura das manias
das angústias, agonias
o poeta não é demagogo
e vai vomitar emoção
hoje o dia é da destruição

ei poeta, louco
hoje queimo a matéria no fogo!

wasil sacharuk









néctar

  néctar


corpo sim
de dentro para fora
tal orvalho na aurora
o sol em luto
amor em palavra
escorre pelos cantos
dos muros

verte umidade
quando acontece
o líquido fel
desce do céu
derrete os metais

lindo sim
a pegada e a gana
os sussurros fatais
o assalto das vontades
desintegração dos poros

e os corpos
envoltos pela cintura
bailarinas loucas
serpentinas impuras
de livre poesia

a língua pronuncia
versos de néctar
plenitudes na boca

wasil sacharuk






poeta ao avesso

 poeta ao avesso 


 liberdade em cascatas 
despencam palavras
 fetiches e bravatas
 oferendas ao amor
 descrito em versos

        poeta ao avesso
 linhas do despudor
 penetra travesso 
               estocadas 
líricas e obscenas 

             tu
      poema
        acenas
 logo te peço 
    a passagem

 ventos da viagem 
         lambem as asas 
das borboletas e fadas
 recitam de cor 
poemas diversos

       poeta ao avesso
 rimas de esplendor
 penetram travessas 
               estocadas 
em música e letra

                          tu
               poesia
não esqueças
 sou apenas 
  passagem

 wasil sacharuk





maria pele de terra

 maria pele de terra 


maria pele de terra
olhar de saudade
bem sabes
poesia é sequência de partos
nasce renasce  flor do campo
insistente no tempo

parturiente de intentos 
no signo dos dias
pois és poeta
engendra alquimia da dor
e transmuta em poesia

maria feita de vida
pele de terra olhar de saudade
o tempo desconta o lamento
o tempo não conta a idade

wasil sacharuk




SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...