Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
o tempo das horas ⌛ estanca e a lua se espanta ä irrelevância do mar das respostas - tu andas sobre a firmeza dos passos engolindo as novidades que os ventos te sopram - não há efemérides nas crateras espaciais ✨ - tu amanheces - face molhada de orvalho - o sabor amargo dss gotas ainda refresca e os cristais congelam as vísceras - quanto de amor ainda tens debaixo de memórias vivas e sentimentos brutos? quanto de amor ainda tens ocupando poros e alamedas do teu lindo jardim de espinhos?
Bolinei seu nariz com a pontinha do indicador. Surpresa, ela gentilmente invadiu profundezas do meu olhar e sorriu divertida, Ergueu sutilmente o cantinho da boca. Bem sei da frieza das noites em que ela adormeceu no jardim contando estrelas cadentes. Por isso sorri para ela também.
Corremos, dançamos e mergulhamos desnudas numa gota de orvalho. Exploração infinita que durou uma apneia de sete segundos, minutos, anos. Depois, desafinadas cantamos.
Logo, toda molhada, ela se abriu toda, estrelada e lânguida. Assim percorri meus dedos pela intimidade dos cachos dos seus cabelos que, enroscados num canto da lua, despencaram incertos pelo breu.
Generosa, beijou meus lábios de fogo e eu, fascinada, entrei em seus olhos.
Jamais a esqueci, portanto a botei para morar bem dentro de mim, misturada com a poesia que corrompe os fluidos e esculhamba os sentidos.
Mergulhei hoje na performance visceral de Wasil Sacharuk. É poesia que não pede licença; ela invade, "corrompe os fluidos e escolhamba os sentidos".
Neste vídeo, o poeta nos conduz por um céu de incertezas e um mar de respostas irrelevantes, buscando o que há de mais humano sob as "memórias vivas e sentimentos brutos". Se você busca uma arte que seja, ao mesmo tempo, faca e bálsamo, este vídeo é para você.
DESADORNOS é uma jornada sensorial que explora a dualidade do amor e da dor. Sacharuk utiliza elementos da natureza — o orvalho, o mar, o jardim de espinhos — para ilustrar a complexidade das relações humanas e da própria existência. O tema central gira em torno da vulnerabilidade ("palavras desnudas") e da busca por conexão em meio a uma "tristeza arraigada". Há uma tensão constante entre o desejo de voar ("fazer da lua abrigo") e a realidade das "reminiscências híbridas".
Com uma lírica que ele mesmo define como uma "faca afiada", Sacharuk transita entre a delicadeza do orvalho e a crueza das vísceras. Um dos momentos mais marcantes é o questionamento sobre o que resta de nós em meio aos nossos próprios "escombros":
"Quanto de amor ainda tens debaixo de memórias vivas e sentimentos brutos?"
"Quanto de amor ainda tens ocupando poros e alamedas do teu lindo jardim de espinhos?"
"Quero ter pés descalços e palavras desnudas."
"A lírica, faca afiada, sem piedade. Sem dó. Corta, lanha, entorta. Reviro o avesso."
"Misturada com a poesia que corrompe os fluidos, escolhamba os sentidos."