sopro

 

Sopro

O convite feito era para dançar
mas chegou aos poros da poesia
um convite para amar

Embebidos na magia
os versos verteram suor
falaram das coisas belas

E a despeito do pudor
que se fazia véu sobre as janelas
soprou as velas das rezadeiras

Cobriu-se do sopro que a noite enleia
esperou o rebento do dia
repleta de lua faceira

Angela Mattos & Wasil Sacharuk



desejo confesso

 

Desejo confesso

Gosto de ficar em teu peito
leito donde verte minha poesia
gosto dessa tua mania
de me bagunçar os cabelos
os pêlos e os versos

Gosto dos rumos dispersos
que conversam com tua ousadia
e gosto da tua filosofia
que me faz sucumbir em desvelos
meu desejo confesso

E gosto além da conta
dessa afronta dos beijos teus
ah o apogeu em tua boca
quando sente-me a pele sedenta
e me sacia o corpo ávido

Mas amo o sorriso tão cálido
que os teus lábios ostentam
quando se abrem aos meus

Angela Mattos & Wasil Sacharuk



tão somente

 

Tão somente

Senti agitar-se
o amor comportado
incomodado com as amarras

assisti afiar-se
ao desígnio das garras
o amor assustado
quer ser amor
tão somente

regurgitando o morno
salivando pelo hálito quente
repudiando o hábito idílico

vi espiar pela fresta
sem temer a escuridão
sondar o coração
e descobrir-se ofegante

e vi naufragar tal aresta
nas vertentes da interseção
na rota angular saliente
quer ser amor
tão somente.

Angela Mattos & Wasil Sacharuk







a névoa e a nudez

 


A névoa e a nudez

Sussurraram as estrelas
alertando sobre o que ia nas sombras
mandaram correr e calar a poesia
mas a revelia das rezas
deixei o manto que me cobria

Vertia da escuridão o som de teus escritos
algo entre um mantra e um beijo
um alerta bendito, um chamado maldito
um verso me mandou fugir
escapar e cobrir minha nudez

Tarde demais...
tua névoa já havia tocado minha tez
navegante obscena dos mundos abissais
arrancou minhas roupas na magia
do teu rito

Tua mão obstinada conduziu os manuscritos
linhas desprovidas de limpidez
espíritos andantes sem valia e nem porquês
tomaram forma pela luz da eufonia

Tarde demais...
tua boca incandescente calou o meu grito
morto transpassado pela tua ousadia
murmuraste em minha nuca poemas letais
e despenquei insólita no teu infinito.

Angela Mattos & Wasil Sacharuk







o cheiro do cio

 

O cheiro do cio

Peço-lhe um beijo
e distraio a espera
brincando com cachos e laços
com fendas e fitas
com a renda bendita
que vela os lábios que fremem
e os poros que gemem
ansiando por um sim

Entrego-lhe desejos
nas repletas gotículas
que desaguam quimeras
logo embebem os espaços
entre anseios e as pernas
quando se abrem e tremem
e se denunciam abertas
ansiando por um sim

E conto as horas e os cafés
as pétalas e os ramos
conto as rezas e os danos
refaço o bordado que se desfez
beije-me de uma vez
peço na ladainha
que é mais febre do que fé
e na água que ferve
a erva é chá sagrado
mas o aroma é cio almiscarado

Respondo aos apelos
dos beijos revelados
entre os meus seios
o segredo e o pecado
do gosto e do cheiro
divino e vadio
do cio almiscarado

Angela Mattos & Wasil Sacharuk








metade

 


Metade

Tenho pra ti meio poema
escrito meio sem jeito
sobre as pernas meio abertas
meio suando entre as letras
de uma escrita meio atrevida
a espera de uma linha para se esparramar
meio vestida...ou totalmente despida

e por meio do meu meio
que tu me chegas inteiro
murmurando meias palavras
meio sem meias medidas
com intenções meio incertas
metendo a metade a me completar
em versos de poesia
meio proibida...ou totalmente perdida

Angela Mattos & Wasil Sacharuk









 A PARCERIA POÉTICA DE ANGELA MATTOS E WASIL SACHARUK 

Uma escrita de interpenetração

O traço mais forte dessa parceria não está nos temas — erotismo, desejo, entrega — mas na construção formal que os poemas adotam. Quase todos funcionam por espelhamento e simetria: o eu lírico de um poeta provoca, e a resposta do outro chega como consequência necessária, não como réplica. Em metade, esse dispositivo é levado à perfeição: o poema inteiro é um jogo com o morfema "meio", que se degrada e se multiplica ("meio poema", "meio sem jeito", "meias palavras", "meio proibida...ou totalmente perdida") até colapsar na linha que justifica o poema todo — "e por meio do meu meio / que tu me chegas inteiro". É engenharia poética de altíssimo nível: a metade vira figura do próprio poema a dois, e a totalidade só é alcançada pelo que é incompleto. Não creio que esse verso sobreviva em escrita individual; ele só existe porque há dois.

A voz de Angela Mattos

A contribuição de Angela salta aos olhos nos poemas em que o vocabulário devocional é profanado por dentro. Em o cheiro do cio, rezas, ladainhas, chá sagrado e bordados desfechos orbitam um desejo que "é mais febre do que fé" — a religiosidade popular (as "rezadeiras" reaparecem em sopro) é usada como matéria sensorial, não como crença. Há ali uma feminilidade poética concreta: renda, cabelos, seios, pernas que "se denunciam abertas" — o corpo feminino não é descrito de fora, é quem fala. Essa é a diferença crucial em relação à poesia erótica masculina tradicional: em desejo confesso, a imagem do peito amado como "leito donde verte minha poesia" inverte a posição — a mulher habita o corpo do homem como quem se abriga num texto.

O toque de Sacharuk

Sacharuk traz o que sempre trouxe: a precisão geométrica e a violência contida. Em tão somente, o amor comportado que "se afia ao desígnio das garras" e a naufragar "nas vertentes da interseção / na rota angular saliente" — essa geometria da paixão, com ângulos e arestas, é assinatura dele. Em a névoa e a nudez, a sedução é tratada como rito quase letal: "poemas letais" murmurados na nuca, um "navegante obscena dos mundos abissais", o tu que "arrancou minhas roupas na magia do teu rito". O perigo, a heresia, a névoa que toca a pele antes que se possa fugir — é o Sacharuk telúrico e pagão, aquele que recusava a fé institucionalizada para situar o divino na carne e na terra, agora filtrado pela sensibilidade de Angela, que devolve esse mundo em chave de encantamento feminino.

O que a parceria produz que nenhum produziria sozinho

Se eu tivesse de resumir em uma frase: a tensão entre a nudez e o véu. Os poemas vivem exatamente nesse limite — a renda que "vela os lábios que fremem", o pudor "que se fazia véu sobre as janelas", a névoa antes da nudez. A Angela concede o pudor, o bordado, a espera, a ladainha; o Sacharuk insiste na invasão, no sopro que apaga a distância. O resultado é um erotismo que nunca é explícito por grosseria nem recatado por convenção — ele é declaradamente ritual, quase litúrgico: confessar desejos, rezar por um beijo, dançar até chegar "aos poros da poesia".

Tecnicamente, destaco três acertos: o uso de rimas internas e assonâncias que dão aos versos uma textura de cantiga profana ("o gosto e o cheiro / do divino e vadio"); o verso curto, de respiração suspensa, que imita o ofego do próprio tema; e a honestidade de não resolver os poemas — tão somente termina onde começou, no querer "ser amor, tão somente", como se o amor permanecesse sempre em estado de reivindicação, nunca de posse.

Leia os poemas dessa parceria aqui: https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Angela%20Mattos





SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...