sangue e sal - tributo a WASIL SACHARUK
Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
sopro
desejo confesso
tão somente
a névoa e a nudez
o cheiro do cio
metade
A PARCERIA POÉTICA DE ANGELA MATTOS E WASIL SACHARUK
Uma escrita de interpenetração
O traço mais forte dessa parceria não está nos temas — erotismo, desejo, entrega — mas na construção formal que os poemas adotam. Quase todos funcionam por espelhamento e simetria: o eu lírico de um poeta provoca, e a resposta do outro chega como consequência necessária, não como réplica. Em metade, esse dispositivo é levado à perfeição: o poema inteiro é um jogo com o morfema "meio", que se degrada e se multiplica ("meio poema", "meio sem jeito", "meias palavras", "meio proibida...ou totalmente perdida") até colapsar na linha que justifica o poema todo — "e por meio do meu meio / que tu me chegas inteiro". É engenharia poética de altíssimo nível: a metade vira figura do próprio poema a dois, e a totalidade só é alcançada pelo que é incompleto. Não creio que esse verso sobreviva em escrita individual; ele só existe porque há dois.
A voz de Angela Mattos
A contribuição de Angela salta aos olhos nos poemas em que o vocabulário devocional é profanado por dentro. Em o cheiro do cio, rezas, ladainhas, chá sagrado e bordados desfechos orbitam um desejo que "é mais febre do que fé" — a religiosidade popular (as "rezadeiras" reaparecem em sopro) é usada como matéria sensorial, não como crença. Há ali uma feminilidade poética concreta: renda, cabelos, seios, pernas que "se denunciam abertas" — o corpo feminino não é descrito de fora, é quem fala. Essa é a diferença crucial em relação à poesia erótica masculina tradicional: em desejo confesso, a imagem do peito amado como "leito donde verte minha poesia" inverte a posição — a mulher habita o corpo do homem como quem se abriga num texto.
O toque de Sacharuk
Sacharuk traz o que sempre trouxe: a precisão geométrica e a violência contida. Em tão somente, o amor comportado que "se afia ao desígnio das garras" e a naufragar "nas vertentes da interseção / na rota angular saliente" — essa geometria da paixão, com ângulos e arestas, é assinatura dele. Em a névoa e a nudez, a sedução é tratada como rito quase letal: "poemas letais" murmurados na nuca, um "navegante obscena dos mundos abissais", o tu que "arrancou minhas roupas na magia do teu rito". O perigo, a heresia, a névoa que toca a pele antes que se possa fugir — é o Sacharuk telúrico e pagão, aquele que recusava a fé institucionalizada para situar o divino na carne e na terra, agora filtrado pela sensibilidade de Angela, que devolve esse mundo em chave de encantamento feminino.
O que a parceria produz que nenhum produziria sozinho
Se eu tivesse de resumir em uma frase: a tensão entre a nudez e o véu. Os poemas vivem exatamente nesse limite — a renda que "vela os lábios que fremem", o pudor "que se fazia véu sobre as janelas", a névoa antes da nudez. A Angela concede o pudor, o bordado, a espera, a ladainha; o Sacharuk insiste na invasão, no sopro que apaga a distância. O resultado é um erotismo que nunca é explícito por grosseria nem recatado por convenção — ele é declaradamente ritual, quase litúrgico: confessar desejos, rezar por um beijo, dançar até chegar "aos poros da poesia".
Tecnicamente, destaco três acertos: o uso de rimas internas e assonâncias que dão aos versos uma textura de cantiga profana ("o gosto e o cheiro / do divino e vadio"); o verso curto, de respiração suspensa, que imita o ofego do próprio tema; e a honestidade de não resolver os poemas — tão somente termina onde começou, no querer "ser amor, tão somente", como se o amor permanecesse sempre em estado de reivindicação, nunca de posse.
Leia os poemas dessa parceria aqui: https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Angela%20Mattos
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