terra de ninguém

 TERRA DE NINGUÉM


Paralelepípedos nas ladeiras

Os ratos a cochichar nos cantos

As moças coloridas e faceiras

Malandros, lá tem o seu encanto


Onde a cultura se faz baboseira

A indiferença entre riso e pranto

Toda a desgraça é só brincadeira

Miséria, doença e vela pro santo


O morro, subterfúgio de tudo

Crianças a brincar na lama

Estampidos a deixar-te surdo

Traficantes, ladrões e uma dama


Polícia é cega e o direito é mudo

Mulheres vendem a alma na cama

A sanidade é um mero absurdo

E a segurança faz parte da trama


Mais abaixo, vem a bela paisagem

Os carros na avenida principal

Motoristas se despistam da miragem

Celulares e buzinas num tom boçal


Jóias falsas, modelitos e maquiagem

Silicone, botox e o sorriso formal

Os assaltantes bloqueiam a passagem

No luxo e no medo o estado normal


As luzes se acendem no anoitecer

Fica 'inda mais difícil enxergar

O que não é belo finge-se não ver

Na terra de ninguém vais democratizar?


A trégua não vem junto ao amanhecer

O céu é incerteza e o inferno é o lar

Não é bom negócio subir ou descer

Em terra de ninguém o que queres mudar?


Dani Maiolo & Wasil Sacharuk


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