para junto de sandra





Para junto de Sandra



― Esta casa grande, úmida e escura, do jeito que está, tem um aspecto frio, gélido, mas ainda não é o momento certo para abri-la. Não precisa mesmo, ainda lembro perfeitamente das cores que brilhavam por aqui.

Werner, como sempre absorvido pelo seu monólogo, anda com silenciosa lentidão pelo recôndito de sua tristeza. As três luminárias direcionais, munidas de fracas lâmpadas são insuficientes para clarear todo o ambiente. As centrais estão todas queimadas. A escassez da luz, incidindo sobre as velhas paredes descascadas, empresta uma vida espectral às figuras abstratas e sombrias que residem na intimidade do casarão. São diversos cômodos, amplos e opulentos, muitos dos quais não freqüentados há mais de dois anos, desde que Werner, numa violenta crise de ciúme, expulsara todos os amigos e os raros parentes com os quais ainda mantinha superficial contato.

O homem que há muitos dias veste o mesmo hobby branco atoalhado, acentuando a palidez de sua pele, passa repetidamente a ponta dos dedos da mão esquerda por entre seus cabelos grisalhos.

Um envelope lacrado, impresso com o logotipo verde do laboratório, há mais de trinta minutos tremula nervosamente em sua mão direita. Werner encaminha-se até a cozinha, tão vagarosamente que sua ansiedade parece nem mesmo existir.

― Preciso de um café... Não suporto mais tanta louça suja em cima da pia... Bosta de exame!

Envelope ao lado da xícara, entre um gole e outro do café fraco, a hesitação e a dificuldade misturam-se à necessidade de abri-lo...

― Sempre usam muita cola para fechar esses envelopes. Temem que os pacientes os abram antes dos médicos.

Por um breve instante, sua sombra, em suaves movimentos, refletida na parede da cozinha, lembra de um tempo em que não falava sozinho. Havia a insubstituível Sandra, grande e único amor, que preenchera seu passado com cintilantes luzes e cores, mas que, todavia, havia partido. A linda Sandra era única. Um ser verdadeiramente especial, daqueles que ninguém quer e nem pode perder. Menina ingênua e travessa, mais do que mulher, trazia consigo um brilho que irradiava por todas as partes... Era amada por todos, muito amada.

O envelope agora amarrotado pela mão firme de Werner ficava mais pesado a cada minuto. Sentado à mesa da cozinha, o homem ansiava por ler o conteúdo do documento e, logo depois, reencontrar Sandra. Dessa vez, tinha certeza de que seria o reencontro definitivo.

― Como sinto tua falta, minha menina. Logo voltaremos a ser nós dois.

Há pouco tempo, Werner tentara, em vão, apagar as marcas da passagem da bela mulher pela sua existência, no entanto, restara ainda um anel barato, com uma daquelas pedrinhas cor-de-rosa um tanto infantil, encontrado jogado no piso próximo ao fogão que sua amada usava para preparar as adoradas pipocas, complemento essencial ao filme das vinte e duas horas.

― Tudo o que restou de você, Sandrinha, joguei no porão.

O homem jogara o anelzinho para junto dos pertences de Sandra no porão. Prometera jamais tornar a abrir a porta.

Atormentado, Werner abruptamente rasga a borda do envelope. Com medo e cuidado, retira o documento, desdobra-o e, hesitantemente, parte para a leitura. Seus olhos confusos procuram por palavras-chave nas linhas finais das tabelas e gráficos. Termos complexos demais para um leigo, entretanto, nada que fugisse ao entendimento de um homem razoavelmente culto que, na juventude, cursara três anos da faculdade de medicina.

O resultado estava evidente.

― Faltou somente marcarem a data, mas se é para ser assim...

Werner deixa cair o documento sobre a xícara de café, e, impacientemente, ergue-se da cadeira e tateia em busca de uma chave dentro da caixa de remédios acomodada na prateleira superior do armário da cozinha. Alucinado, em posse da chave, parte em passos agora bem mais rápidos e decididos pelo corredor da casa. A saúde débil o faz chegar ofegante até a porta do porão.

Seu olhar parece antever tudo o que o aguarda por detrás daquela porta. Seus dedos agora seguram a chave e buscam acertar a fenda da fechadura. Numa nova tentativa, o homem joga seu corpo contra a porta emperrada e esta cede ao esforço, emitindo um som estridente.

Werner, estático por pouco mais de um minuto no primeiro degrau, empreende uma vagarosa descida pela escada escura, aproveitando um mínimo de luz que entra através da abertura. A cada degrau que desce, aumenta a intensidade das lembranças dos momentos inesquecíveis ao lado de Sandra. A vida a dois é revisitada com todos os detalhes na memória de Werner.

No último degrau da escada, a luz está praticamente extinta, mas Werner ainda encontra, no mesmo lugar em que jogara, o singelo anel da pedrinha cor-de-rosa, já opaca, mas que, apesar do escuro, ainda compõe um ofuscante tesouro ao lado do que restou de Sandra, ainda magnífica!



Wasil Sacharuk



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