A parceria poética de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

 A parceria poética de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Toda grande parceria poética nasce de um acaso. A de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk nasceu de um acaso digital: os acrósticos compulsivos escritos na comuna Fernando Pessoa do Orkut, em 2008, que acabariam por gerar a comunidade literária Nova Ordem da Poesia (NOP) e, anos depois, este Da janela virtual (2012), antologia compilada dos fóruns em que os dois versaram lado a lado. O próprio título do livro é uma declaração de método: a poesia aqui não se faz na torre de marfim, mas na janela aberta para a rede — e, ao mesmo tempo, para a coxilha.

A invenção do "sonetiálogo"

O coração da parceria é uma forma que os dois criaram sem querer: o soneto dividido meio a meio, em diálogo entre os poetas, batizado pelo poeta LCP Valle de "sonetiálogos". Em Três anos em sonetos livres, eles definem o espírito da empreitada: "Da vontade libertada no verso / Mantida no esqueleto de um soneto / A amizade digitada no universo". Há aí uma tese estética que atravessa o livro inteiro: libertar o soneto da sua rigidez sem abandonar o seu esqueleto. A métrica cede, o jogo de pergunta e resposta entre Pelotas e Cruz Alta permanece — e a amizade vira forma literária.

Poemas como Chasque Dominical e Soneto Internauta — Pelotas e Cruz Alta mostram o procedimento em ação. No Chasque, o vento minuano "chega matreiro", o passarinho morto pela geada no costado da casa convive com a TV que "só fala em morte", e o domingo do poeta se resolve em "vinho, costela e mate". É o regionalismo gaúcho — o "sotaque campeiro e discurso bagual" de que fala Wasil no relato de abertura — atravessado pelo cotidiano urbano e pela tela do computador: "Numa conversa de poetas por um satélite no ar / Com um trago, um desafio e parceria para rimar".

O gaúcho e o internauta na mesma guaiaca

O que dá unidade ao livro é essa dupla pertença. Em Trova de Guapos, os dois assumem a máscara do versador improvisador — "Sou taura da presilha até a ilhapa, / não tenho cara de sorro manso" — num registro de payada que desafia, troca provocações e termina em deferência mútua: "em cada parceria a amizade se renova". Já A Venda da Oberta desce à colônia, com sua "jovem polaca" e o velho de "herança eslava", registrando o povoamento do Rio Grande pelo imigrante — o mesmo caldo de que o próprio sobrenome Sacharuk é herdeiro.

Mas a janela virtual também produz lucidez crítica. Misérias Psicossociais é talvez o poema mais denso da coletânea: contra a promessa frustrada da era digital — "as promessas básicas / De expandir a qualidade de vida psicossocial / Do homem moderno, caiu em lágrimas / Em contato direto com a solidão, a mentira e o mal" —, os poetas perguntam: "Onde estão os pensadores modernos? / Dando golpes em cartão de crédito?". A ironia social, que em As Fraldas do Brasil vira escárnio eleitoral declarado ("Tratei o voto / como jogo de loto"), mostra que o humor do duo não é mera brincadeira: é arma.


Melancolia, vinho e Orkut

Há também um fundo triste, quase elegíaco, que equilibra a comicidade. Em O Último Charrua, o índio "meio lobo sem sua matilha" na coxilha encena o desaparecimento de um mundo — "Que sina a sua, a última alma que passa". Em Obituário Filosofal, a morte aparece em imagens de deserto e sereia fora d'água, num lirismo contido que surpreende quem só esperava o chiste. E o poema-título, Da Janela Virtual, resume a solidão do escrevedor na rede: "Debruçado / e sem esperança / Feito um animal / Angustiado / Da vida que cansa". Já O Suicídio Revisto do Orkut Pessoal é um documento afetivo da época: o poeta que já pensou em sair da rede e volta "para o vício da doença sem cura / De escrever num azul de letras pretas" — as letras azuis em fundo branco do Orkut viraram metáfora de adição literária.

Soneto de bêbado não tem proprietário

O que sustenta tudo, porém, é a cumplicidade. Em Sonetos com as Botas Cheias, o improviso alcoólico dos dois rende a melhor autodefinição do método: "Soneto de bêbado não tem proprietário". Em Sacharuk — Um Vivente Bagual, Decimar homenageia o parceiro numa cascata de "meios" — "Meio bruxo meio pessimista / Meio louco meio mago" — que só pode terminar como termina: "Mas acima de tudo / Um completo amigo". E em Um Domingo Diferente, a declaração final: "Abri meu coração, foi o melhor que fiz / Lancei a voz no mundo / encontrei o amigo escritor".

Da janela virtual é, no fundo, um livro sobre o que acontece quando a amizade encontra uma forma. Decimar e Wasil descobriram que o soneto — forma antiga, "acadêmica", quase museológica — podia ser refeito à imagem de dois gaúchos conversando por satélite, entre mate, canha e Orkut. Como eles mesmos escrevem em A Origem do Sonetiálogo Gaúcho: "Nascia o soneto sem métrica e sem prumo / Não era acadêmico e nem era arremedo". Não era. E a prova está nestas páginas, onde a tradição campeira e a internet se dão as mãos — ou melhor, se brindam.

Leia os poemas da parceria: https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Decimar%20Biagini?m=0

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