A colaboração poética de Mell Shirley Soares e Wasil Sacharuk

A colaboração poética de Mell Shirley Soares e Wasil Sacharuk

A parceria de Mell Shirley Soares com Wasil Sacharuk se revela num pequeno conjunto de poemas assinados a quatro mãos — "flor de cacto", "a velha detrás duma moita" e "púrpura é a cor" — e é justamente a sua dissonância que a torna instigante. Diante de uma obra conhecida pela linguagem brutal de sangue, ferro e vísceras, esses três poemas mostram Sacharuk disposto a moderar a própria verve para acolher a voz da parceira, sem abdicar inteiramente da marca que o define.

O ponto mais alto da colaboração é "flor de cacto", um poema de interrogação amorosa construído quase todo em anáfora — "O que sabes sobre poesia?", "O que sabes sobre a saudade?", "Que pensas tu das verdades?" —, num questionamento que percorre todos os recônditos de um eu lírico feminino: as cores, os aromas, "os recônditos de minhas belezas", "minha crueza e nudez". É aqui que a estética de Sacharuk e a de Mell se encontram: a palavra "crueza", raro momento em que a matéria dura de sua poesia aparece no léxico da parceira, convive com imagens de delicadeza vegetal — a flor que "se espinha / e sangra toda ao brotar". O refrão que abre e fecha o poema ("Flor de cacto, tão singela / que se espinha... / Flor de cacto, tão bela / tão sozinha / quebra / se o vento soprar") funciona como um pacto lírico dos dois: beleza e ferida na mesma imagem, a ternura atravessada pela espinha — quase uma miniatura da "estética dos desadornos" de Sacharuk traduzida em chave floral e feminina.

"Púrpura é a cor" aprofunda o registro amoroso e o leva ao limite vampírico: "eu te esgoto: vampiro sou", declara o eu lírico, "nas noites tão frias / para poder dormir sob o sol / que nasce em tuas costas". Há aqui a tensão clássica de Sacharuk entre posse e liberdade — o amor como dependência ("quando estás distante / falta em mim / um pedaço grande") e como risco de aniquilação ("não me permitas mais / nunca mais ser / um inferno para ti"). A metáfora do "poema encaixado" que "não desprende os versos" pode ser lida como autodescrição da própria parceria: dois textos que se suplicam coesão, dois poetas que não se separam das próprias estrofes. O sangue — cor purpúrea vertida "do inferno que sou" — reaparece como pigmento amoroso, o único adorno que o poeta se permite.

Em contraste deliberado, "a velha detrás duma moita" é humor puro, quase cordel: a velha que espicha uma perna e encolhe a outra, esperando um pato que "nunca escolhia", com dona Diquinha como narradora circular. A história "nunca termina" porque a espera nunca se resolve — e o poema termina recomeçando, como uma cantiga de roda. É a face leve do Sacharuk parceiro: a mesma generosidade com que versou em payada com Decimar Biagini, agora a serviço de um humor popular que provavelmente traz o sotaque e o gosto de Mell Shirley Soares.

O que une os três poemas é a mutabilidade. Sacharuk demonstra ser, nas parcerias, um poeta que se adapta ao interlocutor sem se anular: com Mell, ele abre mão da lírica telúrica e dos materiais duros para habitar o canto interrogativo, o erotismo sangrento contido e a anedota popular — e a assinatura dupla em cada texto ("Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk") confirma que a obra é de fato de dois. É uma colaboração menos de estilo comum e mais de cumplicidade de tons: a flor que espinha, o vampiro que esgoto, a velha que espera pato — três faces do mesmo gesto de perguntar ao outro o que ele sabe sobre nós.





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