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o surgimento da poesia

 O SURGIMENTO DA POESIA


A poesia advém da própria fala

Fruto da necessidade de comunicação

entre elementos da alma que não cala

Produto da oralidade e da contemplação


O poeta recita a alma nas salas

insinua a linguagem enamorada

em versos embecados de gala

cria mundos no alicerce do nada


Das narrativas primitivas surgiu o ritmo

que é a sonoridade da palavra já cantada

ou simplesmente o rimar no aspecto lírico


Os versos decantados ganharam asas

do aço diluído na palavra revelada

e vida capturada em contexto estilístico.


Decimar Biagini & Wasil Sacharuk





obituário filosofal

 OBITUÁRIO FILOSOFAL


Morrer, 

cair como um grão de areia

no deserto da existência


Do que viver cara feia

em norte que desnorteia

dessa obsolescência


Fenecer,

como fora d’água uma sereia

na secura da insolvência


Do que a banheira cheia

mas preso numa cadeia

entre hipocrisia e carência


Esmorecer,

subitamente como uma abelha

após soltar o ferrão pela indecência


Do que ser como ovelha

sem progresso ou centelha

nas fronteiras da demência.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk





o último charrua

 O Último Charrua


No alto de uma coxilha
Viu-se um índio repontando horizonte
Um lobo sem sua matilha
O último cocar de sua brava gente

Filho de Tupan, esquecido pelo tempo
Preso a miséria da civilização escassa
O cusco ovelheiro, seu único alento
Índio cor de cobre, esteio de sua raça
Em uma bombacha e encarnado lenço
Pés descalços e pobre, domava que dava graça

Modesto Charrua, a coronilha da raça
Que sina a sua, a última alma que passa

Parecia com pingo sem tropilha
Viveu de saudade sem canga errante
Mas não se reculutou na pandilha
Viu o encanto nativo cada vez mais distante

O rebenque da sorte guasqueou o intento
Entendeu que na lida há o dia da caça
E cantou solito aporreando o relento
A milonga tristonha de esperança escassa
Se o desejo do homem é cambicho sedento
A bonança de um é do outro a ameaça

Modesto charrua, o fim é o livramento
Que sina a sua, espírito xucro do vento.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk







soneto livre ao endividado

 SONETO LIVRE AO ENDIVIDADO


Cada dia que passa chega uma fatura

Cartões de crédito, àgua, luz e telefone

Os desgraçados ainda abreviam sobrenome

Que saudade da venda da esquina, da fartura


Local onde vendiam fiado e chamavam pelo nome

Hoje sou só um cpf com caixa de correio

Se inventar de pagar todas as contas passo fome

O que é pior é que o mês recém está no meio


Agora vou me jogar nos braços da inadimplência

Jogar tudo às favas ou qualquer outra indecência

E os meus credores que procurem o juizado


Vou me aposentar e não pagar nenhuma conta

Com a taxa de juros vai ficar em alta monta

Por isso vou cuidar de contratar advogado.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk







TE ESPERO COM UM SONETO

 TE ESPERO COM UM SONETO


Oi meu amigo, preparei algo para ti

É um soneto incompleto e carente

Com o fim de relatar o que hoje vi

Li muita poesia, vi inseto e vi gente


Mas, poeta, meu dia não foi normal

O passo do destino pisou na bosta

passei com dor na coluna cervical

que me deixou com um S nas costas


Nova onda de gripe A está prevista

Daí já não deixo a porta aberta

Por isso me sinto tão pessimista


Olhei o noticiário e lembrei de ti

Falava de poetas em descoberta

Que descobriram esta arte em si.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk





Tateando no escuro

 Tateando no escuro


Busco no poema a essência

Para iluminar meu rumo obscuro

Busco efeito mágico da cadência

É só o verso simples que procuro


Sigo tateando no escuro

Sem guia, sem clarividência

Sigo procurando verso puro

Sem mapa, sem muita paciência


Eu queria uma verve magnética

Desfile de rimas da minha verdade

Mesmo que se insinue cáustica


Preenchendo minha necessidade

Mas nunca o vazio da alma poética

Reescrevendo linhas em ansiedade.


Wasil Sacharuk & Decimar Biagini





misérias psicossociais

MISÉRIAS PSICOSSOCIAIS


O conhecimento abria perspectivas

As escolas se multiplicavam

Havia amadurecimento de cientistas

Que humanamente se solidarizavam


Horas e horas de dedicação

Num projeto desacreditado por muitos

Exaurida a vida numa invenção

Ridicularizada por sagrados cultos


Não quero calar o meu grito

Talvez eu escreva a canção

Do nó amargurado e aflito

No abismo dos meus vãos

A fé pode dar o motivo

Mas a vida pede razão


Hoje as informações estão democratizadas

Tão acessíveis, na era da cultura virtual

Espectadores com opções nada limitadas

Participando ativamente em um novo portal


No entanto, as promessas básicas

De expandir a qualidade de vida psicossocial

Do homem moderno, caiu em lágrimas

Em contato direto com a solidão, a mentira e o mal


O índio não quer mais apito

Vestiu canarinho e calção

Levou muito a sério o incentivo

De ver o Brasil campeão

Mantém o desejo vivo

Comendo migalhas de pão


Onde estão os pensadores modernos?

Dando golpes em cartão de crédito?

Invadindo Wall Street com seus ternos?


Onde estão os engenheiros de ideias criativas?

Burlando o PAC ou estádios na copa 2014?

Economizando em material para tragédias inventivas?


O governo dá o tom e o crivo

Deixa esse povo na mão

Do congresso ao executivo

Serviço sem prestação

O objetivo exclusivo

É dar asas para a ambição


Onde estão os poetas da inteligência

Que desenvolveram a arte de pensar

Com suas obras completas por excelência

Que extenderam ao leitor um evolutivo desvendar?


A vida largada aos confins da indiferença

Nem se percebe a vastidão dos passos

Cidadania agora é respirar esperança

E o fim solidário num imenso abraço


Por fim, ficou cansativo

Cumprir papel de cidadão

É mais fácil ser subversivo

Sem saúde e nem educação

Não haverá homem altivo

Abaixo do cu de um cão.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk





QUANDO O POETA CHEGA NAS CASAS

 QUANDO O POETA CHEGA NAS CASAS


O soneto sempre faz algum barulho

Seja irônico, engraçado ou de amor

Nossa arte é expressão e não entulho

E o poeta é um parceiro inspirador


Nossa cria trouxe-me orgulho

Já vejo o olhar atento do leitor

Cada soneto é um novo mergulho

Tu és artista, poeta, pai e professor


Já perdi o momento de ser pop

Mas fico feliz se a vaidade entope

Por isso vou na carona do amigo doutor


És também propagandista da NOP

E tua maturidade não requer ibope

Mas é algo que merece todo clamor



Wasil Sacharuk & Decimar Biagini






A parceria poética de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

 A parceria poética de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Toda grande parceria poética nasce de um acaso. A de Decimar Biagini e Wasil Sacharuk nasceu de um acaso digital: os acrósticos compulsivos escritos na comuna Fernando Pessoa do Orkut, em 2008, que acabariam por gerar a comunidade literária Nova Ordem da Poesia (NOP) e, anos depois, este Da janela virtual (2012), antologia compilada dos fóruns em que os dois versaram lado a lado. O próprio título do livro é uma declaração de método: a poesia aqui não se faz na torre de marfim, mas na janela aberta para a rede — e, ao mesmo tempo, para a coxilha.

A invenção do "sonetiálogo"

O coração da parceria é uma forma que os dois criaram sem querer: o soneto dividido meio a meio, em diálogo entre os poetas, batizado pelo poeta LCP Valle de "sonetiálogos". Em Três anos em sonetos livres, eles definem o espírito da empreitada: "Da vontade libertada no verso / Mantida no esqueleto de um soneto / A amizade digitada no universo". Há aí uma tese estética que atravessa o livro inteiro: libertar o soneto da sua rigidez sem abandonar o seu esqueleto. A métrica cede, o jogo de pergunta e resposta entre Pelotas e Cruz Alta permanece — e a amizade vira forma literária.

Poemas como Chasque Dominical e Soneto Internauta — Pelotas e Cruz Alta mostram o procedimento em ação. No Chasque, o vento minuano "chega matreiro", o passarinho morto pela geada no costado da casa convive com a TV que "só fala em morte", e o domingo do poeta se resolve em "vinho, costela e mate". É o regionalismo gaúcho — o "sotaque campeiro e discurso bagual" de que fala Wasil no relato de abertura — atravessado pelo cotidiano urbano e pela tela do computador: "Numa conversa de poetas por um satélite no ar / Com um trago, um desafio e parceria para rimar".

O gaúcho e o internauta na mesma guaiaca

O que dá unidade ao livro é essa dupla pertença. Em Trova de Guapos, os dois assumem a máscara do versador improvisador — "Sou taura da presilha até a ilhapa, / não tenho cara de sorro manso" — num registro de payada que desafia, troca provocações e termina em deferência mútua: "em cada parceria a amizade se renova". Já A Venda da Oberta desce à colônia, com sua "jovem polaca" e o velho de "herança eslava", registrando o povoamento do Rio Grande pelo imigrante — o mesmo caldo de que o próprio sobrenome Sacharuk é herdeiro.

Mas a janela virtual também produz lucidez crítica. Misérias Psicossociais é talvez o poema mais denso da coletânea: contra a promessa frustrada da era digital — "as promessas básicas / De expandir a qualidade de vida psicossocial / Do homem moderno, caiu em lágrimas / Em contato direto com a solidão, a mentira e o mal" —, os poetas perguntam: "Onde estão os pensadores modernos? / Dando golpes em cartão de crédito?". A ironia social, que em As Fraldas do Brasil vira escárnio eleitoral declarado ("Tratei o voto / como jogo de loto"), mostra que o humor do duo não é mera brincadeira: é arma.


Melancolia, vinho e Orkut

Há também um fundo triste, quase elegíaco, que equilibra a comicidade. Em O Último Charrua, o índio "meio lobo sem sua matilha" na coxilha encena o desaparecimento de um mundo — "Que sina a sua, a última alma que passa". Em Obituário Filosofal, a morte aparece em imagens de deserto e sereia fora d'água, num lirismo contido que surpreende quem só esperava o chiste. E o poema-título, Da Janela Virtual, resume a solidão do escrevedor na rede: "Debruçado / e sem esperança / Feito um animal / Angustiado / Da vida que cansa". Já O Suicídio Revisto do Orkut Pessoal é um documento afetivo da época: o poeta que já pensou em sair da rede e volta "para o vício da doença sem cura / De escrever num azul de letras pretas" — as letras azuis em fundo branco do Orkut viraram metáfora de adição literária.

Soneto de bêbado não tem proprietário

O que sustenta tudo, porém, é a cumplicidade. Em Sonetos com as Botas Cheias, o improviso alcoólico dos dois rende a melhor autodefinição do método: "Soneto de bêbado não tem proprietário". Em Sacharuk — Um Vivente Bagual, Decimar homenageia o parceiro numa cascata de "meios" — "Meio bruxo meio pessimista / Meio louco meio mago" — que só pode terminar como termina: "Mas acima de tudo / Um completo amigo". E em Um Domingo Diferente, a declaração final: "Abri meu coração, foi o melhor que fiz / Lancei a voz no mundo / encontrei o amigo escritor".

Da janela virtual é, no fundo, um livro sobre o que acontece quando a amizade encontra uma forma. Decimar e Wasil descobriram que o soneto — forma antiga, "acadêmica", quase museológica — podia ser refeito à imagem de dois gaúchos conversando por satélite, entre mate, canha e Orkut. Como eles mesmos escrevem em A Origem do Sonetiálogo Gaúcho: "Nascia o soneto sem métrica e sem prumo / Não era acadêmico e nem era arremedo". Não era. E a prova está nestas páginas, onde a tradição campeira e a internet se dão as mãos — ou melhor, se brindam.

Leia os poemas da parceria: https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Decimar%20Biagini?m=0

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