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o alienígena

o alienígena

Todas as manhãs o alienígena acorda e toca o próprio corpo para sentir que existe de fato. No quarto, o espelho embaçado pelo seu assopro é a certeza da sua interferência nas coisas do mundo. Roda e roda pelo submundo. Também visita lugares seletos, mas só ouve murmúrios incompreensíveis das pessoas que conversam em seus próprios dialetos. Alheio a tudo, suas ideias também não são acessíveis aos mundanos de qualquer lugar. Assovia uma melodia singular. Todavia, o alienígena voa, quando poderia simplesmente andar, mas prefere se locomover logo acima das cabeças dessa gente esquisita. Vez por outra, ouve vozes distantes e sons dissonantes e isso tudo o irrita. Também vivencia eventos antecipados nos sonhos premonitórios. Tudo ocorre da forma como sonhou. Seu olhar é um observatório, por isso vê as pessoas por dentro. Não tudo, mas os traços das personalidades e um tanto de seus pensamentos. Ele simplesmente sabe quando alguém é do bem. Além disso, lê os mais finos gestos de mãos, as falas mais rebuscadas, os sorrisos... Assim ele conhece vários níveis de qualquer pessoa e suas conclusões são infalíveis. Alguns o assustam, outros provocam tristeza, poucos o fazem sorrir timidamente. Ninguém o faz sentir-se contente, leve e cheio de asas resplandecentes.

wasil sacharuk


O pingente

Mariana finalmente encontrou o pingente no cantinho da pia marfim, ao lado da saboneteira. Ela o havia perdido pela casa há três ou quatro dias. Tentou segurá-lo, no entanto, molhada e escorregadia, a joia tilintou sobre a torneira dourada, repicou repetidas vezes sobre a cerâmica cinza e perdeu-se novamente.

Dissuadida da nova busca, cuidou de abrir a água para encher a pequena banheira de hidromassagem.

Mariana sentou-se ao vaso e passou a escovar os cabelos com a escova de largas cerdas. Sentia arranhar levemente o couro cabeludo percorrendo memórias que escorriam às vertentes ao longo dos fios negros e lisos.

Penteada, segurou a toalha preta entre as duas mãos e descansou sua face sobre ela. Apertou o tecido sobre os olhos.

As memórias persistiam.

Enquanto despia-se, percorreu o chão com o olhar e encontrou o pingente caprichosamente oculto no vão entre os dois tapetinhos azuis.

Abaixou-se, resgatou a peça e observou-a demoradamente. Logo, jogou-a hesitante dentro da banheira já quase cheia. 

Entrou lentamente na banheira, resgatou a jóia e a prendeu firmemente na mão direita, fechou os olhos e deixou a água cobrir sua cabeça. 

Contornado pela forma de uma folhinha de palma, havia um nome sutilmente gravado no pingente de ouro junto às lembranças submersas.

Mas o nome não mais importa quando uma história chega ao fim.

wasil sacharuk



pobre Anita



Pobre Anita

Não guardo mais a lembrança da festa do meu último aniversário. Obviamente lembro da data que, decerto, não poderia ter esquecido. Sou capricorniano e isso, outrora, já foi relevante. No entanto, sei que Anita estava presente, provavelmente, usando um daqueles seus vestidos decotados e alinhados às curvas generosas do seu corpo.

Brigamos muito por quaisquer motivos. Foi esse o mais evidente atributo da nossa convivência. Divorciar, ela não cogitava. Eu levantava o dinheiro e ela aos seus jovens amantes.

Minhas filhas também compareceram à festa, afinal, as reuniões de aniversário da família apenas aconteciam em virtude do mérito e esforço das meninas.

Hoje o cão esteve aqui. Passou cerca de dez minutos farejando algo no canteirinho que adorna minha cova rasa. Talvez tenha percebido algum bicho desses que revolvem a terra e se alimentam das coisas orgânicas. São tantos: formigas, larvas, minhocas e outros que eu nem conhecia antes. A cadeia alimentar é um processo infalível e sério.

O tempo passou tão rapidamente. Posso perceber que o velho e bom Toby se aproxima dos seus últimos tempos. É um cão idoso, está gordo e suas patas não suportam mais o peso do seu corpo. Toby sempre vem aqui e descansa suas patas grandes sobre o gramado.

Há semanas não vejo as meninas e quanto à Anita, a vaca megera, que se foda.

Consola-me saber que sempre que ela vir ao quintal terá de olhar para o canteiro que que ela mesmo cavou e plantou a semente da própria destruição. As memórias são indeléveis e a seguirão mesmo que ela mude de endereço.

Se possível, dia desses, quando aqui ela chegar aqui pertinho, deliciosa sobre seus sapatos altos, eu puxarei sem dó aos seus lindos pés.

Ah, livrar-se assim de mim não fará com que Anita me esqueça tão facilmente.

Pobre Anita!

wasil sacharuk

Frida e a janela

 Frida e a Janela


Eu sou Frida, a abandonada. Aos oito anos fui deixada aqui, na janela. 

Meus pais queriam amor e foram buscá-lo. 

A vizinha, Dona Herta, vem todos os dias, quatro vezes, e traz biscoitos, sanduíches e o almoço. 

Eu aguardo aqui, na janela, enquanto observo o monte, lá no fim, entre a campina e o horizonte. 

Eu sei de cada movimento, cada quero-quero, pardal e, logo abaixo, sei de cada boi magro e meus dois cachorros. 

Guaipa e Vanerão comem os restos do gado que morreu de fome. 

O sol matou o capim e as novas sementes continuam aguardando a chuva, tal como espero meus pais. 

O que sobrou já não é mais verde. Tem aquela cor tempo queimado, meio amarelo ou marrom. 

Meus amigos são os periquitos, que conversam comigo lá do tronco seco. Azuis, verdes e amarelos. 

Eles insistem em falar sobre tempos tristes que jamais voltarão.


wasil sacharuk


Hoje, ele não voltou

 Hoje, ele não voltou

E então, Sônia vê seus sonhos revirados. Está aos auspícios de novos tempos.

Acende outro cigarro. Sempre o faz como pretexto para pensar. Tal pensar, para Sônia, carecesse pretexto.

Bafora despudorados clichês literários mesclados às nuvens negras das longas tragadas. A mesma cena e o mesmo 

cenário...sempre. Os seus devaneios culminam em eventos felizes, divertidos, sensuais, junto àqueles que intimamente 

elege. Cria histórias transcendentais, protagonizadas por sujeitos habitantes das suas memórias, das recentes e

das antigas.

Alberto trabalha tanto. Saí cedo de casa para retornar tarde da noite. Viaja, todos os dias úteis, cerca de oitenta

quilômetros até chegar. Ultimamente, reclama da tristeza e do cansaço.

Sônia lembra da formatura de Alberto. Sacrifício! Na época, teve de trabalhar muito enquanto o marido

concluia a faculdade de direito. Por sorte, não tiveram filhos e, consolidados e estáveis, conquistam facilmente os objetos

dos seus desejos. Mas Alberto trabalhava tanto!

No mês passado, Alberto, em duas oportunidades, teve o carro enguiçado e, naquelas noites, não voltou do trabalho. 

Dormiu num hotel. Mas, na última semana, aconteceu mais duas vezes... e hoje, ele não voltou.

Sônia banha-se demoradamente. Quente e refrescante. Hidrata demoradamente as pernas recém depiladas. 

Escolhe a meia negra. Com a perda dos três quilos durante a última semana, voltou a caber na sainha.

Pega os cigarros, acende um, as chaves do carro e sai.


wasil sacharuk



café ou chá?

 Café ou chá?


— Por favor, senhor, veja bem, preciso que o serviço seja realmente sigiloso. — Disse a voz sonora. — Quero sua garantia, senhor Francisco, de que posso contar com total discrição.

— Está tudo bem, meu chapa, ligou para o lugar certo. Pode me chamar de Chico. Fique tranqüilo que nosso serviço nunca deu problema para ninguém. Não seria dessa vez que aconteceria uma infelicidade, logo com o senhor. Não acha? É tudo muito seguro, pode acreditar na minha palavra. Gente grande já nos procurou e não deu complicação para ninguém. Pode perguntar para aquele seu amigo que nos indicou para o senhor se o serviço é ou não é de qualidade. A maioria volta no mínimo uma vez por semana, chefe, e com o senhor não vai ser diferente. ─ Assegura Chico com uma voz grave que reverbera do celular, revelando um despreparo educacional que realmente incomoda ao cliente. 

─ Melhor assim, seu Chico. — O homem faz uma breve pausa. — Se eu realmente me agradar do que vou encontrar, talvez até continue seu cliente, desde que o senhor cumpra com o que promete.

─ Então está certo doutor, sem problemas. Vou cuidar de tudo para que a Janine lhe espere hoje às nove da noite.  O senhor pode entrar direto no quarto três e dar de cara com aquela belezura. É só subir a escada. Só não esqueça que não aceitamos cheque e nem cartão. Se o senhor precisar de mais alguma coisa para dar um clima, sabe como é...  bebida ou outra coisa qualquer, é só ligar que, por aqui, eu arranjo de tudo. — As últimas palavras de Chico saem sopradas como que simulando um segredo.

─ Obrigado, se precisar de algo mais lhe direi em tempo. — Mais uma pausa. — Chegarei as nove em ponto, ok?

Guilherme Pinheiro, economista servidor do governo federal, empreende seus primeiros passos na nova vida de aposentado. Apesar da aparência jovial, a testa vincada entre a calvície e o olhar rude, os dentes de raras aparições com frequência incitaram os colegas do Instituto de Economia a esperar ansiosos pela sua aposentadoria. Enverga com galhardia ternos de linho escuro que são trocados a cada dia. Os tecidos distintos de boa grife são, no entanto, muito parecidos, compondo um estilo altivo junto aos velhos comparsas charutos cubanos, cujo aroma desperta opiniões contraditórias.

O exemplar matrimônio com Telma, arranjado cordialmente entre as famílias na mais perfeita intimidade geográfica e socioeconômica, durou o suficiente para consolidar as imagens de homem íntegro e de profissional de classe e respeito. O suporte da incansável Telma rendeu-lhe, além do diploma da graduação, alguns amigos com considerável poder de influência nos meios políticos e sociais da cidade emergente; dois valiosos imóveis na zona central; bem como os dois sofisticados automóveis que perfeitamente combinavam com os charutos. Telma ainda lhe presenteou com a bela Bianca, jovem de pele muito branca e olhos claros, herdeira da genética sutil e harmoniosa, dos dons artísticos e da configuração italiana da mãe. 

Com exceção do Chevrolet, o diploma e o amigo Rogério Nobre, remanescente do curso de nível médio, tudo o mais que outrora conquistou durante a falida união foi consumido pelas conseqüências irreversíveis da depressão maníaca da esposa.

No velho casarão de paredes impecavelmente brancas, numa colônia italiana distante do centro urbano, Telma toma um chá fraco e quase frio acompanhado de biscoitos doces, tal sua mãe, surda e alheia, e a irmã mais velha, cuja afinidade recuperara quando essa passou a compartilhar da mesma sorte que a sua.

─ Dora, eu já não sinto tanta falta do Guilherme. Penso que finalmente estou conseguindo esquecê-lo. Na verdade, acho nunca o amei, mas sentia necessidade da presença de alguém forte e com autoridade suficiente para me proteger de mim mesma. ─ O líquido no fundo da xícara retorna a luminosidade do seu olho. Após uma meditativa pausa para um longo gole, Telma conclui com a voz embargada: ─ A terapia tem me ajudado bastante. Se ninguém, até hoje, conseguiu suportar a arrogância de Guilherme, nem mesmo as conveniências da proximidade com aqueles iguais a ele, o que dizer da minha Bianca, tão sensível que é?

— Falando em Bianca, comprei um livro para presenteá-la no aniversário. — Dora mostra o mesmo brilho nos olhos castanho-esverdeados enquanto encara a irmã.

— Outro? — diz Telma sorrindo.

No velho sobrado, circunvizinho ao centro comercial da cidade, Chico, com certa força, empurra a estridente porta do quarto três, o melhor da casa, e vai logo dizendo à Janine, languidamente estirada sobre a cama: — Te ajeita bem bonita que daqui a pouco vem um doutor cheio de frescuras e exigências. — Janine fecha o livro que tem nas mãos. O vermelho das letras se destaca na capa dura de tom creme. — Ele pediu muito sigilo porque não pode ser reconhecido. Deve ser um figurão. Acho que tu até podes ganhar algum por fora, se o homem gostar, mas desde que tu não roube nada do bacana, pois quero que ele fique freguês. — Chico pega o livro e percebe o olhar atento de Janine. — Bem que estou precisando de uns figurões por aqui para melhorar a freqüência do estabelecimento. — Como é que é?! Eletra?

─ “Electra”, ignorante. Mitologia... ah! Deixa para lá! — Janine arranca-lhe o livro das mãos e o deposita no criado-mudo. — Vou ficar pronta logo e pode sossegar porque não vou roubar o figurão. Quero ver se ganho algum para viajar e ficar ao menos uma semana sem precisar olhar para essa tua cara ridícula de cafetão. ─ Diz Janine coçando o olho verde direito e removendo os resíduos da leitura. ─ Se esse cara é doutor, eu devia então fazer ele se apaixonar por mim, e daí levar minha vida na maior, me arrumar e não ter que suportar a tua demência... e o teu bafo.

  A noite chega e traz chuva fina, daquelas que molha muito sem que se muito perceba. Guilherme, depois de estacionar o Chevrolet, atravessa a rua, correndo e desviando das poças de água da chuva. Entra no Café Nobre, tradicional ponto de encontro dos servidores públicos locais, de propriedade do amigo Rogério que vem recebê-lo com o sorriso rasgado que invariavelmente o acompanha.  

─ O que te trouxe aqui, Careca, a chuva fria no lombo? Ou esse pavor incrustado na tua face?

Guilherme, preocupado em espalmar o excesso de água da chuva dos ombros do paletó cinza chumbo, puxa nervosamente a cadeira pelo espaldar e senta. O amigo, ansioso pela resposta, consolidando o velho ritual diário, o acompanha à mesa e ouve a resposta que já esperava ouvir:

─ Vou pedir para Bianca voltar. 

Rogério ordena ao garçom que traga dois cafés, para começar...

Chegada a noite, a chuvinha fria havia virado uma penca d’água bruta e insana. Encapsulado no Chevrolet, Guilherme viu que a vidraça do velho sobrado, pavimento superior, replicava com a mesma força, a violência daquela chuva. E pensou, mais uma vez, que talvez fosse melhor deixar como está.

Wasil Sacharuk


caleidoscópio

 Caleidoscópio


É uma velha cadeira de encosto azul e, sobre seu eixo, um giro súbito atrita as rodinhas gastas de plástico com o piso recém encerado e polido.  O grito incompreensível de Alex lembra um uivo. É cena comum quando se encontra aquela solução há muito perseguida. Certo tipo de “eureca”.


Beatriz observa próxima à porta da cozinha enquanto continua a encerar o chão. Concentra-se na cera e na divagação acerca do excesso de zelo... Obsessão.

Aos arranhões do piso da sala de estudos, a ira de Beatriz cobre com cera vermelha.


- Desculpe amor.


Sem emitir qualquer som a mulher passa com impaciência o dorso da mão sobre a testa suada e puxa os longos cabelos ruivos para trás. Rápida e súbita ergue-se e some adentrando a cozinha.


Beatriz retorna munida de uma nova garrafa de cera líquida e um retalho de pano que outrora fora camiseta branca. Acocora-se com dificuldade. As pernas doem quando Beatriz empreende o esforço que agrede sua vulnerabilidade atual.


Esparrama o vermelho no chão da sala, cobrindo os arranhões.

           

E aquele retalho de pano encardido gira formando um caleidoscópio sobre um eixo imaginário. O viscoso vermelho penetra pelos sulcos e arranhões do velho piso.


Beatriz, ainda calada, enxuga o suor da testa com a mão. Lenta e hesitante ergue-se e se encaminha para o quarto.


A mulher retorna. Agora munida de uma longa tira de couro preto. É a alça arrancada que guardou de sua bolsa de grife.


- Desculpe amor.


Em pé, atrás da velha cadeira de encosto azul, os braços doem quando Beatriz empreende o esforço que agride sua vulnerabilidade atual.


A cena ocorre acompanhada de um novo grito incompreensível, que mais parece um uivo.


Beatriz sente-se com aquela sensação de quem encontra uma solução há muito perseguida. Certo tipo de “eureca”.


Esparrama o vermelho no chão da sala encobrindo os arranhões.


Wasil Sacharuk


clichê

 Clichê


Sobre os lençóis acetinados, Cristina se esforça para resgatar o cobertor que, há alguns minutos, deslizou para o chão de carpete vermelho. Quer ela encobrir a languidez do corpo nu.

Roberto é jovem e revela seus harmoniosos dotes atléticos no afã de vestir a cueca preta. Apaga o cigarro que esquecera queimando no cinzeiro de vidro acima do criado mudo, estende cavalheirescamente o braço esquerdo por sobre o corpo de Cristina e puxa, de uma só vez, o cobertor para a cama.

- Obrigada Bob, tu és sempre tão prestativo. – Cristina tem a voz terna e seus olhos castanhos úmidos focam as pupilas de Roberto. – Sempre sinto frio quando cai a tarde.

- Não agradeça. – Roberto senta junto ao encosto da cama e acende outro cigarro. – Mas acho que sentes vergonha da nudez. Não se trata de frio. Estou errado?

- Sei lá, Bob... – Cristina volta-se para a direita e mira um óleo sobre tela de tons pastéis, na parede do quarto, que retrata a intimidade de um casal de orientais. – Eu não sei bem se quero falar sobre isso.

- Bom, se quiseres, fiques à vontade para falar...

- Bob, tenho a impressão que te divertes enquanto me deixas assim, atordoada. Não consigo falar contigo direito. – Cristina, agora sentada, coloca o travesseiro sobre o colo. – Me dá um cigarro, Bob.

- Nunca te vi fumando mais de um. Esse é o terceiro, mas se queres... – Roberto atende à solicitação e alcança o cigarro já aceso para a mulher, enquanto sorri com certa amabilidade exibindo os dentes perfeitos. ― Está bem, estou te escutando...

─ Bob...

─ O que há, Cris? ― Roberto cruza os braços e lança o olhar para a cena oriental.

─ Tu sabes... ao menos, penso que sabes. Tu és esperto. ─ Cristina traga o cigarro e a nuvem de fumaça envolve seus cabelos castanhos, dispersos sobre os ombros.

─ O que eu sei, Cris? 

─ Tá bem Bob, então escuta: eu te amo! E não me faças repetir isso, por favor.

─ Como assim? ― Roberto tosse com a fumaça.

─ Aconteceu... tu bem sabes que coisas assim acontecem... e eu sei que não sou a primeira que te diz isso... já nos encontramos cinco vezes desde a primeira. Para mim, é bem normal que aconteça dessa forma. Cinco vezes...

─ Tudo bem, e daí?

─ E daí que eu quero te encontrar mais... ─ Cristina termina o cigarro, esmagando-o com impaciência no cinzeiro. ― Eu acho que preciso de ti. 

─ Mas não era para ser assim, Cris. Acho que tu nem sabes muito bem o que estás sentindo e o que estás me dizendo. Tenho certeza de que amanhã nem vais lembrar. É só o calor do momento, compreende?

─ Poderias ser meu homem... Namorado, talvez.

─ Falamos disso outra hora, ok? Daqui a pouco preciso estar na aula. Começa as sete e eu preciso estar pronto. E o pior é que não é bom chegar na faculdade com os cabelos molhados. ― Roberto levanta rapidamente e cata as peças de roupa espalhadas pelo chão do quarto.

─ Amanhã está bem, Bob? Pode ser? Dá outro cigarro?

─ Claro, pode ser amanhã. Espero teu telefonema, ou manda um torpedo quando puderes. Pega aí o cigarro.

─ Acende para mim Bob. A faculdade não está em greve? Ouvi na rádio universitária no programa de segunda-feira.

─ A federal entrou em greve, mas não estudo na universidade pública, lembra?

─ Ah! Isso mesmo... Tinha mesmo esquecido. Tudo muito caro para pouca qualidade!

─ Estás me chamando de burro? ― Bob sorri ironicamente enquanto olha para a mulher. – O que insinuas?

─ Acho que estou... senão conversavas comigo agora mesmo!

─ Não dá, Cris, tu sabes que preciso ir... ― Bob abraça as peças de roupa e entra no banheiro. ― Vou para o banho, Cris.  

─ Tá bem, vou dormir um pouquinho... Sozinha, como sempre. Podes me acordar quando saíres do banho? ― Cristina estira-se sobre a cama e ajeita o cobertor sobre o corpo. ― Ah! Bob, não esquece: deixei tua grana aí na pia, ao lado da saboneteira.


Wasil Sacharuk


florida

 




Florida


Alguns poucos animais ainda restam no grande prado. Nessa linda primavera as flores do campo emprestam novas tonalidades à vegetação. Mas os novos tempos sequer esboçam a sombra campestre de um passado generoso. Onde havia a fartura do pasto, agora há apenas flores do campo.

A velha e pequenina casa de madeira nativa, rudimentar construção secular, erguida pelo heróico esforço de um único homem, precisa de urgentes reparos. O verão se aproxima e, disseram na televisão, deverá trazer consigo violentas chuvas.

Eis que o rostinho inocente e suave de Frida, debruçada no parapeito da janela frontal, tem vivos olhinhos azuis voltados para o alto do morro.  Talvez a casinha erguida na depressão da coxilha não resista às prováveis enxurradas.

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-Acaso um dia partas daqui, mesmo que pretendas voltar, não me encontrarás a tua espera. estejas certo de que terei outro homem, melhor do que tu, e este não me deixará!

Letícia, irredutível e nua em sua cama, esfrega vigorosamente os olhos sensibilizados pelo choro e pelo sono escasso. Há muito teme pelo possível retorno de Chico para o lugar de onde outrora viera.

-Letícia, não quero te perder, mas sabes que preciso voltar para buscar Frida, não posso simplesmente deixá-la lá.

-Pois volte para aquele lugar e jamais tornarás a me ver. Bem sabes que não quero mais ninguém intrometido em nosso amor. Nesse quarto só há espaço para nós dois, e não posso e nem quero dar sustento a uma criança que não é minha.

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Erna, mãe de Frida, há alguns dias partiu para o centro urbano, levando, numa grande sacola feita de palha, seus três vestidos junto a alguns objetos que provavelmente lhe seriam úteis.  Antes de partir, havia dito à menina que buscaria o alimento que já ameaçava faltar e brevemente deveria voltar para casa.  Habituada ao trabalho duro no campo, a mulher tem braços fortes e traz o semblante marcado pela hostilidade dos dias de sol ardente e dos dias de frio cortante.

Chico, investido do mesmo propósito de Erna, deixara o lar alguns meses antes e jamais mandara notícias. No rancho deixara todos os seus pertences, como sinal de um retorno sem demora.

-Tenho saudade da minha menina, queria que pudesses compreender. Não há sentido em minha vida se ela não estiver próxima a mim, como sempre envolvida com aquelas florzinhas que costumávamos cultivar juntos.

-Pois compreendo Chico, poderás ir quando quiseres, mas procura esquecer que eu existo...Fique por lá cultivando suas florzinhas. Quando saíres daqui, vais te arrepender amargamente.

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A esperança de Frida supera sua fome. Abandonada, aguarda com ansiedade que o alto do morro anuncie um retorno.  Nos últimos dias, tudo o que faz, além de ocupar a janela, é cuidar com muito carinho das flores, amarelas e brancas, as quais seu querido pai colhera na primavera passada e replantara num vasinho que mantém ao lado da porta da cozinha.

Erna parada na calçada, curva ligeiramente seu corpo para revirar o conteúdo de sua sacola de palha em busca de algo.  Encontra o que pretende, mas mantém dentro da sacola.  Compara o número do prédio cinzento que há em frente com a inscrição feita a lápis numa notinha de papel que segura em sua mão.

-1258, quarto 8, Letícia...Deve ser aqui mesmo!

Empurra sem dificuldade a porta de ferro do grande prédio central e sobe as escadas em direção do quarto número oito. A determinação de Erna é notável e sua mão direita está introduzida na sacola.

Uma nova consulta na notinha de papel e a mão esquerda de Erna ergue-se para dar três secas batidas na porta do quarto.

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Debruçada na janela, a menina espera pela tempestade que se aproxima.  Avistar o alto do morro agora somente a faz vislumbrar a próxima primavera e a chegada de novas flores, amarelas e brancas, para devolver a vida que se consumiu no seu vasinho.


Wasil Sacharuk


o servo

 


O servo

Ele lutou, relutou, denunciou fatalidades vivas e pulsantes ao passo que deglutiu tamanha raiva canina. Bebeu café, assistiu aos clientes, bebeu outro café e, logo depois, acalmou-se.

Questionou o objetivo das coisas. Ouviu novamente as tantas e tantas verdades servidas nas mesas, pregadas nos cultos, na cardiopatia que acomete a sociedade dos sentidos repleta de sentimentos nobres. Por fim, ainda que sem respostas, repetiu orgulhoso cada discurso floreado das melhores intenções. 

Acreditou na justeza dos advogados, na ética dos comerciantes, da pureza dos pastores, nos médicos, no irmão, no vizinho.  

Pretendeu colher pérolas virgens daquelas ostras escancaradas. Pernoitou de novo com a compreensão e com a esperança.

Concentrado, conduziu seu carro novinho e brilhante, contabilizou resultados e aguardou ansioso que o próximo fruto viçoso surgisse dependurado no galho seco. 

Vendeu seguros. Desejou estar seguro. 

Buscou por um senso de justiça que não o tocava. Limpou a mente da torpeza dos preconceitos que jamais adquiriu. 

Assistiu a novela, o futebol, o jornal. Serviu uísque, fumou um baseado. Falou com as horas na espera que o dia acabasse de novo e de novo e de novo. Agradeceu ao Deus, já que é necessário, mas também ao Mamom, o único que sempre surge para conversar.

wasil sacharuk



para junto de sandra





Para junto de Sandra



― Esta casa grande, úmida e escura, do jeito que está, tem um aspecto frio, gélido, mas ainda não é o momento certo para abri-la. Não precisa mesmo, ainda lembro perfeitamente das cores que brilhavam por aqui.

Werner, como sempre absorvido pelo seu monólogo, anda com silenciosa lentidão pelo recôndito de sua tristeza. As três luminárias direcionais, munidas de fracas lâmpadas são insuficientes para clarear todo o ambiente. As centrais estão todas queimadas. A escassez da luz, incidindo sobre as velhas paredes descascadas, empresta uma vida espectral às figuras abstratas e sombrias que residem na intimidade do casarão. São diversos cômodos, amplos e opulentos, muitos dos quais não freqüentados há mais de dois anos, desde que Werner, numa violenta crise de ciúme, expulsara todos os amigos e os raros parentes com os quais ainda mantinha superficial contato.

O homem que há muitos dias veste o mesmo hobby branco atoalhado, acentuando a palidez de sua pele, passa repetidamente a ponta dos dedos da mão esquerda por entre seus cabelos grisalhos.

Um envelope lacrado, impresso com o logotipo verde do laboratório, há mais de trinta minutos tremula nervosamente em sua mão direita. Werner encaminha-se até a cozinha, tão vagarosamente que sua ansiedade parece nem mesmo existir.

― Preciso de um café... Não suporto mais tanta louça suja em cima da pia... Bosta de exame!

Envelope ao lado da xícara, entre um gole e outro do café fraco, a hesitação e a dificuldade misturam-se à necessidade de abri-lo...

― Sempre usam muita cola para fechar esses envelopes. Temem que os pacientes os abram antes dos médicos.

Por um breve instante, sua sombra, em suaves movimentos, refletida na parede da cozinha, lembra de um tempo em que não falava sozinho. Havia a insubstituível Sandra, grande e único amor, que preenchera seu passado com cintilantes luzes e cores, mas que, todavia, havia partido. A linda Sandra era única. Um ser verdadeiramente especial, daqueles que ninguém quer e nem pode perder. Menina ingênua e travessa, mais do que mulher, trazia consigo um brilho que irradiava por todas as partes... Era amada por todos, muito amada.

O envelope agora amarrotado pela mão firme de Werner ficava mais pesado a cada minuto. Sentado à mesa da cozinha, o homem ansiava por ler o conteúdo do documento e, logo depois, reencontrar Sandra. Dessa vez, tinha certeza de que seria o reencontro definitivo.

― Como sinto tua falta, minha menina. Logo voltaremos a ser nós dois.

Há pouco tempo, Werner tentara, em vão, apagar as marcas da passagem da bela mulher pela sua existência, no entanto, restara ainda um anel barato, com uma daquelas pedrinhas cor-de-rosa um tanto infantil, encontrado jogado no piso próximo ao fogão que sua amada usava para preparar as adoradas pipocas, complemento essencial ao filme das vinte e duas horas.

― Tudo o que restou de você, Sandrinha, joguei no porão.

O homem jogara o anelzinho para junto dos pertences de Sandra no porão. Prometera jamais tornar a abrir a porta.

Atormentado, Werner abruptamente rasga a borda do envelope. Com medo e cuidado, retira o documento, desdobra-o e, hesitantemente, parte para a leitura. Seus olhos confusos procuram por palavras-chave nas linhas finais das tabelas e gráficos. Termos complexos demais para um leigo, entretanto, nada que fugisse ao entendimento de um homem razoavelmente culto que, na juventude, cursara três anos da faculdade de medicina.

O resultado estava evidente.

― Faltou somente marcarem a data, mas se é para ser assim...

Werner deixa cair o documento sobre a xícara de café, e, impacientemente, ergue-se da cadeira e tateia em busca de uma chave dentro da caixa de remédios acomodada na prateleira superior do armário da cozinha. Alucinado, em posse da chave, parte em passos agora bem mais rápidos e decididos pelo corredor da casa. A saúde débil o faz chegar ofegante até a porta do porão.

Seu olhar parece antever tudo o que o aguarda por detrás daquela porta. Seus dedos agora seguram a chave e buscam acertar a fenda da fechadura. Numa nova tentativa, o homem joga seu corpo contra a porta emperrada e esta cede ao esforço, emitindo um som estridente.

Werner, estático por pouco mais de um minuto no primeiro degrau, empreende uma vagarosa descida pela escada escura, aproveitando um mínimo de luz que entra através da abertura. A cada degrau que desce, aumenta a intensidade das lembranças dos momentos inesquecíveis ao lado de Sandra. A vida a dois é revisitada com todos os detalhes na memória de Werner.

No último degrau da escada, a luz está praticamente extinta, mas Werner ainda encontra, no mesmo lugar em que jogara, o singelo anel da pedrinha cor-de-rosa, já opaca, mas que, apesar do escuro, ainda compõe um ofuscante tesouro ao lado do que restou de Sandra, ainda magnífica!



Wasil Sacharuk



um dia de sorte





Um Dia de Sorte

Por volta das dezessete, Tomaschevski, o polaco, salta da cama e apoia o pé direito no chão da cabana. Como de hábito, a despeito do sobressalto, num reflexo desvia a cabeça branca do mastro de sustentação do velho chalé. Há dois meses que promete remover aquela coluna dali, mas não o faz. Certo da própria integridade e vigília, atribui a culpa ao esverdeado despertador paraguaio e agradece a intervenção do anjo amigo dos “bebuns”.

─ Hoje sinto aroma de sorte. ─ Balbucia pelo canto da boca cheia de espuma de sabonete. Logo, inicia o instantâneo ritual de meditação vespertina, cujo templo é o vaso sanitário. Momento sublime de carinhoso autocontato. O seu cão, no limite da impaciência, risca com as unhas na porta do banheiro. ─ Saudemos a amizade! Hora de forrar o estômago.

Enquanto o vadio Platão devora a generosa sobra de arroz e ossos de frango, servida no mesmo prato sujo de ontem, Tom morde um biscoito doce e, com outros à mancheia, percorre a casa de lado a outro no expediente de organizar a agenda mental.

Já é início da noite e, acompanhado do companheiro peludo, encontra a rua. Ao atravessá-la, sente o pedregulho bicudo que cutuca o solado gasto das botas de couro pretas. Platão se lança alegre em direção aos convivas quadrúpedes que se revezam na seletiva vistoria das abarrotadas latas de lixo.

O grande edifício branco se localiza a pouco mais de dois quarteirões. A proximidade o faz suar pelas têmporas. Lembra do ferro artisticamente retorcido que ornamenta o enorme portão. Distante cem metros, já pode vislumbrar a escultura metálica emoldurada em concreto e iluminada pela luz fraca do poste torto. Certo calafrio se dá frente a imponência dura, com aspecto sacro. Motivação suficiente para seguir em frente. É dia de sorte, ele pode sentir o cheiro.

Suas passadas são impiedosas contra as folhas amareladas despencadas do jardim urbano. O misericordioso vento anoitece assoviando baixinho enquanto sacrifica mais algumas folhinhas de salso-chorão, que flanam agonizantes e formam fagulhas cintilantes pelo caminho de cimento e cerâmica do passeio outonal.

Bem à sua frente está o portão. Sente o mesmo nó na garganta que experimentou pela manhã, antes de adormecer. Talvez seja apenas a ressaca.

Tom interpela o velho de aparência resignada que se protege dos auspícios da noite numa guarita de madeira nobre intercalada com imensos vidros.

─ Por favor, senhor, onde fica Amanda Ianez? ─ Solicita de uma só vez para evitar o titubeio.

─ A esta hora? ─ Retruca contrariado o cansado recepcionista, enquanto abotoa o suspensório.

─ Por favor...

─ Está bem. Vou verificar, aguarde um momento que vou prender os cães.

No minuto seguinte o homem retorna trazendo aberto um caderno pesado, em capa preta resistente.

─ Número doze mil, trezentos e vinte e um. É no penúltimo corredor da direita. Deve ser lá no final. O senhor não se preocupe, os cães estão presos.

Um breve e educado agradecimento expresso por um aceno com a cabeça e, vencida a fronteira, avança ao gran finale no fim do corredor indicado.

Enxuga a testa com a mão e lembra da infância na escola estadual, e também da voz grave de sua mãe reclamando da camisa branca sempre suja de terra. E segue-se a veloz apresentação de quadros passados.

Entre esculturas do divino, sente o temor de quem foge dos fardos da existência. Pisa sobre as folhas amarelas e o corredor escuro parece um interminável labirinto em linha reta.

Pensou em todos os colegas, os amigos do bar, que não sentem sua falta e nem sua presença.

Doze mil, trezentos e vinte e um à sua frente. Difícil achar no escuro, não fosse pelo brilho das iniciais A e I gravadas em auto-relevo no bronze. Todas as experiências se elaboram numa síntese que explica o sentido de todas as coisas. Sensação de inteireza acompanhada do medo do que pode ser maior.

Um toque gentil e amoroso de dedos trêmulos sobre o A de bronze, enquanto a outra mão tateia impacientemente o bolso interno do casaco bege. A letra I, mal iluminada pela precária luz que incide da esquerda, não prova da carícia de seu toque.

O último que viu o polaco foi um anjo sacana, que nas horas vagas perambula com bebuns e assemelhados repetindo um velho conselho: “tire o melhor proveito possível dos dias de sorte e pague as velhas promessas”.

Wasil Sacharuk



via crucis





Via crucis

Entraste e trancaste a porta por dentro, enlaçaste as tramelas de ferro. Havia, naquela parede, a réplica da santa ceia e, para ela, olhaste. Para nada mais. Andaste seis passos até a poltrona. Permaneceste sentado de olhos fechados.

Lembro quando disseste que entendes a morte tal artífice do improviso e que se veste de tipos diferenciados para livremente ceifar as tolas cabeças. Decerto ela guarda, no mínimo, um par de mistérios: o de fazer desfilar, num peculiar espelho, a esteira das ações, com flashes dos seus deletérios, suas subtrações e, também, o de saber o oriente dessas curvas insólitas que conduzem aos portais do inferno.

À noite, sonhaste com uma dúzia de abutres famintos pousando sobre o tapete. O mais furioso bicava teus pés e tuas mãos e, logo após, espargiu suas garras atrozes sobre a tua cabeça.

Quando acordaste os policiais já estavam aqui. Te forçaram a carregar o corpo até o final da rua. Lá, a viatura da central de homicídios já nos aguardava. Depois, bem sabes, eu entrei novamente na tua história.

Dessa feita, te dei uma partida lenta e segura onde tiveste braços longos e abertos, tal asas, e teus pés juntos perfizeram uma cauda. Novamente pudeste voar.

Das tantas vezes que te libertei, ainda me intriga saber por qual razão ainda te amedrontas quando ouves os meus passos.

wasil sacharuk

Vermelho

Vermelho

Termino meu chá de flores na cantina do mercado público e consulto em vão o relógio do celular. Basta perceber a atmosfera melancólica retratada na cor do céu para inferir que a tarde se esmorece. Só isso me interessa nesse momento. Os afazeres estão esgotados.

É nessa hora aproximada que, invariavelmente, no caminho para casa, busco o sentido da vida nos acontecimentos. Minha rotina se dilui no tumulto das ruas centrais. Às sextas-feiras o movimento é assustador. Os flashes dos faróis ocultam os indivíduos em silhuetas que circulam em meio a multidão. E espero a melhor oportunidade para atravessar a rua. Isso sempre acontece. A espera, bem inserida no cotidiano, já não cansa mais e, dizem, o seguro morreu de velho.

Seu Ademir, da padaria, ergue o corpanzil por detrás de um balcão frigorífico e me passa o pacote de pães, sem perder de vista a senhora baixinha que sai do estabelecimento em direção a banca 26, e brada: 

─ Até mais vê-la Dona Edith. Obrigado pela preferência. Amanhã teremos sua torta, pode confiar.

Suas palavras portam uma estranha certeza. As coisas serão novamente como planejado, Assim como foi ontem e durante a semana inteira. 

Dona Edith acena com a cabeça, o rosto ornamentado pelo sorriso tão formal quanto carinhoso ao cumprimento acalorado do comerciante.

─ É uma excelente senhora, essa Dona Edith. Freguesa antiga e fiel. ─ Diz o homem com simpatia bem treinada.

Dentre outras frutas, a 26 tem maçãs que parecem pequenas se comparadas as demais expostas no mercado, entretanto, são muito vermelhas. Dizem que as frutas dali são livres de agrotóxicos, no entanto, mais caras. Pequenas maçãs são vítimas de preconceito por parte do consumidor. A aparência das grandes impressiona mais. E as gôndolas carregadas quebram a frieza do corredor revestido de azulejos portugueses fomentando uma interessante competição entre a arquitetura e os apelos do marketing. Por fim, todos esses quadros acabam ignorados no mercado visualmente poluído. 

Dona Edith escolhe maçãs. Depois de pinçá-las com as pontas dos dedos, cuidadosamente analisa cada uma antes de encaixá-las, pacientemente, nos espaços vãos do seu cesto de compras. 

─ Pedro, meu querido filho, hoje tem quarenta e quatro anos. Adorava essas maçãs pequenas quando garoto. As bem vermelhas, como essas, eram suas preferidas. Sempre dizia que as menores são mais saborosas. 

Flávio, que frequenta comigo o curso de atendimento eficaz, escuta a velha enquanto cata belas peras importadas vulneravelmente empilhadas no compartimento ao lado das maçãs. 

Quando os administradores do mercado acendem as lâmpadas fluorescentes, próximo às dezoito horas, as frutinhas mais indefesas começam a perder o viço. Mas aquelas maçãzinhas são muito vermelhas.

Eu que já não tenho o mesmo vigor de antes, levo uma vidinha exatamente igual a de todos lá da firma. Decepção após decepção. Angústia seguida de angústia. Vou perdendo a raiz. Onze anos distante da minha velha e, ainda, meu pai teve a felicidade de partir dessa para melhor antes de me ver caminhar sozinho pela primeira vez. Talvez ele tivesse a exata intenção de não me ver andar. Coisas que se movimentam tendem a causar algum incômodo.

Flávio está, também, envelhecido. Mesmo com a proximidade de sua aposentadoria, ainda insiste num discurso duvidoso sobre reciclagem profissional. Enquanto empilha as peras, metaboliza as lamentações de Dona Edith sobre o filho Pedro e sobre os ossos descalcificados. Deixa evidente no semblante certo cansaço e falta de paciência. Em breve esse pobre vai, como todos os outros, padecer nas garras da seguridade social.

─ Meu Pedro ainda deve gostar de maçãs. Seu primeiro carro, aquele esportivo, era vermelho e acho que o segundo também... Não lembro.

A velha deslumbrada com a rara oportunidade de interação social enche o cesto de maçãs. Um exagero. Fica pesado e vermelho... bem vermelho. Queixa-se dos braços fracos. Osteoporose é um perigo na velhice. E eu, se beber bastante leite. talvez me previna contra isso. Não fosse a provável desconfiança da velhinha, eu teria oferecido ajuda. Atualmente ninguém confia em mais ninguém e eu me sinto tanto constrangido.

Ela abraça aquele cesto de plástico tal quem carrega um tesouro. É improvável que coma tantas. Vejo seus olhinhos marejados pelo esforço, ou talvez, alguma palavra amarga que tenha saltado da boca do meu colega Flávio a tenha deprimido. Discutir o passado pode não ser uma boa idéia. Não é nem mesmo um assunto inteligente ou produtivo. Não entendo porque os velhos perdem tanto tempo com isso. Depois está aí o resultado: olhos marejados, vermelhos. 

As vivências do passado não retornam, bem, pelo menos não do jeito como foram antes. O passado é sólido como concreto no pensamento de algumas pessoas. Há gente no mundo que respira passado. E, curiosamente, sobrevivem.

A velha exibe ar emblemático, tateia nervosamente sua niqueleira lilás e espalha um punhado de moedas e cédulas amassadas sobre o balcão da operadora de caixa. É hilariante observar a menina ensaiando uma caricatura de desprezo pintada num sorriso amarelo, enquanto conta as malditas moedinhas. Mas, não deixo de notar que Dona Edith se vale de uma educação admirável. Não dá margem ao conflito. Toma para si a bolsa de plástico com suas frutinhas acondicionadas e despede-se da moça, gentilmente, sem tomar conhecimento do inconveniente que causou. O dinheiro tem suas peculiaridades. Por causa dele existem as guerras. Por isso contam-se moedas e o cliente tem sempre razão. Aprendi tudo no curso.

A velha vale-se de ambas as mãos para juntar a bolsa de maçãs ao seu peito e, com suas pernas curtinhas e sobrecarregadas, desce a escadaria do centro comercial em direção à Avenida 13 de Maio, em frente ao mercado. Hora do rush. E como acontece todos os dias, ao final das jornadas de trabalho, a ordem é, novamente, disputar espaço no ônibus, no metrô, nas calçadas e rodovias.

Tudo acontece rapidamente. A bolsa de plástico fino, dessas modernas com uma logomarca gigantesca impressa em cores gritantes, não agüenta o peso de tantas maçãs e rompe-se. É sempre assim. Os eventos imprimem sua marca no nosso destino subitamente. As sobras é que contam a história. 

Fico desorientado em meio à confusão. Dona Edith, os faróis, o vermelho e aquele som ensurdecedor. E toda aquela gente com tanta pressa? Invariavelmente a história se repete: quando todos chegam aos seus destinos, só encontram as sobras. Não se toma banho duas vezes no mesmo rio. As águas de agora são resquícios de um rio que já era. O grego Heráclito anunciou com razão.

Uma maçã, apenas uma, despenca pelas escadarias, machucada, alcança o tráfego a rolar como uma perfeita bola, quica um degrau por vez, numa lentidão impressionante, até cessar seu curso nos meus sapatos pretos de camurça. Olho em volta e nem me preocupo em recolhê-la. A sobra.

A lua, então, nunca mais se esconderá e promete noites mais longas... depois dos afazeres esgotados.


wasil sacharuk 




avenidas da vida

Avenidas da Vida

“Aos nove dias do mês de julho do ano de 1931, às quatro horas e vinte minutos, nasceu na cidade de Pelotas, no Hospital de Beneficência Portuguesa, a criança do sexo masculino de nome Milton Carlos Lobo Simões, filho de...”. Eis o que preambulava a certidão de nascimento do eternamente pequeno Miltinho, menino peralta que cresceu longe das avenidas da vida. Famigerado na vizinhança pela alcunha de Pedevalsa, a qual ostentou até que encontrasse a sua rua sem saída. Logo após, voltou a usar o nome Milton, gravado em bronze.

Pedevalsa nasceu pobre e pacato, assim como todos do entorno. Eram tampos de salutar humanidade, trabalho mais digno e coesão familiar. Outros valores combinavam apenas com os ricos. 

O velho Manuel, seu pai, foi o primeiro músico na cidade a tocar flauta transversal num conjunto de boleristas. Eventualmente cantava arranhando um castelhano deficiente. Doralina distribuía parca atenção entre as tarefas de dona de casa, comerciária e mãe. A última rendeu-lhe desconfortos. Primeiro incomodou-se com as vizinhas, logo, as professoras do filho e, mais tarde, novamente com as primeiras, que agora eram outras.

Na escola Pedevalsa foi suficiente. As notas baixas eram relevadas pela eficácia de sua sedutora expressividade aliada a barganhas afetivas. Assim, angariando simpatia, jamais repetiu ano. Aos treze, enquanto cursava o ginasial, teve seu pedido de emprego atendido pela gráfica do jornal. Imprimiu o diário até os vinte e quatro anos de idade, intercalando o tempo entre o trabalho, pouco estudo e as mil e uma noitadas na Baiúca.

Baiúca era a bola da vez. A casa noturna mais freqüentada da cidade. Era Miltinho quando chegou e, paulatinamente, consolidou-se Pedevalsa. A alcunha foi inspirada na graça arrebatadora e na plasticidade com que seus pés deslizavam sobre a pista de dança. Foi levado, observado, apadrinhado e amparado pelo observador de talentos boêmios Mário dos Discos, funcionário da loja de elepês.

Deixou a escola. Assumiu de vez a Baiúca. Era o dançarino principal, contratado para o secreto deleite da clientela feminina. E no primeiro mês, o patrão descontou de seu salário a bebida consumida pelo dançarino, logo, pouco dinheiro sobrou. Daí sobreveio a insatisfação e a busca de um novo salão.

Nesses trinta dias edificou certa fama entre as mulheres da alta sociedade, o que lhe facilitou o ingresso imediato como dançarino principal de outra casa, mais requintada: ‘O Sobrado’. 

De bigode bem aparado, boa graxa nos sapatos e o terno bem cuidado, foi a atração das noites. Tentava atender a todas as solicitações das moças. Habilidoso na valsa, no bolero, no tango, no samba e, ainda, sabia imitar o Fred Astaire, caso tomasse uns goles entre um número e outro.

Conheceu Cristina no bolero. Linda mulher das grossas canelas e bailado desajeitado. Casaram-se. Geraram Francisco e Ginger.

O aumento da prole fez a vida perder um tanto da diversão. Não era possível inserir outras danças na maratona. O dinheiro ficou pouco e Pedevalsa teve que procurar um emprego que remunerasse suas horas diurnas. Após exaustivas frustrações, foi trabalhar na quitanda do Helmut, um colono alemão conhecido como “o fatiador de línguas”.

Um incêndio em 1973 consumiu o velho Sobrado, já decadente. As novas casas noturnas já não contratavam dançarinos. As novidades reservaram a Pedevalsa dedicação exclusiva às tarefas da quitanda. Enquanto atendia as velhas amigas, agora matronas, arriscava conduzi-las em uns breves passinhos ritmados em frente às gôndolas, sob a luz de uma aura de nostalgia que impregnava as coloridas frutas, legumes e embutidos. E foi assim até 1999, quando o geriatra o incapacitou com diagnóstico de Alzheimer. 

A aposentadoria era o vislumbre de uma nova vida ao cansado Pedevalsa. E na sua primeira tarde por conta da previdência social, decidiu visitar os escombros do velho Sobrado. Moravam lá vestígios bailarinos no salão das lembranças. Estava Pedevalsa, torpe, a observar a dança das sombras na parede que confinava a sua rua sem saída.

wasil sacharuk



SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...