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púrpura é a cor

 


Púrpura é a cor

Nós
somos um poema encaixado
que não desprende os versos
e suplica por coesão
mas deixo que vivas tua vida

sem saber o que passa
sem saber o que passa
sem saber o que passa
apenas por essa súplica...

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Mas eu não folheio
essas páginas para que o livro
acabe
meu sustento encontro
nas linhas de rosas e espinhos
e nas noites tão frias
eu te esgoto: vampiro sou
sim, nas noites tão frias
para poder dormir sob o sol
que nasce em tuas costas

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Sol e cristais
vejo o teu céu
espinhado nas rosas
púrpura é a cor
que vertes de mim
do inferno que sou
oh, não me permitas mais
nunca mais ser
um inferno para ti

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk






a velha detrás duma moita

 


a velha detrás duma moita

havia uma velha
detrás duma moita
espichava uma perna
encolhia a outra

a velha escolhia pato
no quintal da vizinha
passava pato
passava pato
pato e mais pato

e o tal pato
não aparecia
contou dona Diquinha

e a velha dizia
calma
ainda está passando pato
ainda está passando pato
pato e mais pato

e o tal pato
ela nunca escolhia
então essa história
nunca termina

perguntasse à Diquinha
ainda está passando pato?
ela logo respondia

havia uma velha
detrás duma moita
espichava uma perna
encolhia a outra

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk






 


flor de cacto

 flor de cacto

O que sabes sobre poesia? 
Se o meu canto nasce sob o teu olhar e te sobrevoa os sentidos
pousa em ti sementes
bebe de tuas nascentes e ainda não o consegues captar?

Que pensas tu sobre os dias
que meus encantos se diluem num mar de risos divertidos
que ora se fazem ausentes
entregues às vertentes das noites sem luar?

O que sabes sobre a saudade? 
Quando a minha asa de ausência, outra de presença 
permanecem presas no teu colo por vontade de estar? 

Que pensas tu das verdades?
se a minha inocência se desfaz maledicência
pela correnteza onde vejo o meu mundo naufragar?

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar

O que sabes sobre o amor? 
Quando ele não rima morte com dor
querer com indiferença
teimosia com desistência?

Que pensas tu sobre a flor
jogada sobre um fundo sem cor
a morrer nas descrenças
das mitologias e das ciências?

O que sabes sobre minhas cores e meus aromas? 
Sobre os meus sorrisos e seus significados? 
Sobre os recônditos de minhas belezas? 
Sobre minha nuvem e da chuva que dela jorra? 
Sobre meus pedaços e inteireza? 
Sobre minha crueza e nudez?

O que sabes de mim? 
que pensas tu das certezas?
Que te torna tão dono de um amor-abandono assim?
e por fim, a flor de cacto
é bela nas asperezas

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar.

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk











A colaboração poética de Mell Shirley Soares e Wasil Sacharuk

A colaboração poética de Mell Shirley Soares e Wasil Sacharuk

A parceria de Mell Shirley Soares com Wasil Sacharuk se revela num pequeno conjunto de poemas assinados a quatro mãos — "flor de cacto", "a velha detrás duma moita" e "púrpura é a cor" — e é justamente a sua dissonância que a torna instigante. Diante de uma obra conhecida pela linguagem brutal de sangue, ferro e vísceras, esses três poemas mostram Sacharuk disposto a moderar a própria verve para acolher a voz da parceira, sem abdicar inteiramente da marca que o define.

O ponto mais alto da colaboração é "flor de cacto", um poema de interrogação amorosa construído quase todo em anáfora — "O que sabes sobre poesia?", "O que sabes sobre a saudade?", "Que pensas tu das verdades?" —, num questionamento que percorre todos os recônditos de um eu lírico feminino: as cores, os aromas, "os recônditos de minhas belezas", "minha crueza e nudez". É aqui que a estética de Sacharuk e a de Mell se encontram: a palavra "crueza", raro momento em que a matéria dura de sua poesia aparece no léxico da parceira, convive com imagens de delicadeza vegetal — a flor que "se espinha / e sangra toda ao brotar". O refrão que abre e fecha o poema ("Flor de cacto, tão singela / que se espinha... / Flor de cacto, tão bela / tão sozinha / quebra / se o vento soprar") funciona como um pacto lírico dos dois: beleza e ferida na mesma imagem, a ternura atravessada pela espinha — quase uma miniatura da "estética dos desadornos" de Sacharuk traduzida em chave floral e feminina.

"Púrpura é a cor" aprofunda o registro amoroso e o leva ao limite vampírico: "eu te esgoto: vampiro sou", declara o eu lírico, "nas noites tão frias / para poder dormir sob o sol / que nasce em tuas costas". Há aqui a tensão clássica de Sacharuk entre posse e liberdade — o amor como dependência ("quando estás distante / falta em mim / um pedaço grande") e como risco de aniquilação ("não me permitas mais / nunca mais ser / um inferno para ti"). A metáfora do "poema encaixado" que "não desprende os versos" pode ser lida como autodescrição da própria parceria: dois textos que se suplicam coesão, dois poetas que não se separam das próprias estrofes. O sangue — cor purpúrea vertida "do inferno que sou" — reaparece como pigmento amoroso, o único adorno que o poeta se permite.

Em contraste deliberado, "a velha detrás duma moita" é humor puro, quase cordel: a velha que espicha uma perna e encolhe a outra, esperando um pato que "nunca escolhia", com dona Diquinha como narradora circular. A história "nunca termina" porque a espera nunca se resolve — e o poema termina recomeçando, como uma cantiga de roda. É a face leve do Sacharuk parceiro: a mesma generosidade com que versou em payada com Decimar Biagini, agora a serviço de um humor popular que provavelmente traz o sotaque e o gosto de Mell Shirley Soares.

O que une os três poemas é a mutabilidade. Sacharuk demonstra ser, nas parcerias, um poeta que se adapta ao interlocutor sem se anular: com Mell, ele abre mão da lírica telúrica e dos materiais duros para habitar o canto interrogativo, o erotismo sangrento contido e a anedota popular — e a assinatura dupla em cada texto ("Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk") confirma que a obra é de fato de dois. É uma colaboração menos de estilo comum e mais de cumplicidade de tons: a flor que espinha, o vampiro que esgoto, a velha que espera pato — três faces do mesmo gesto de perguntar ao outro o que ele sabe sobre nós.





SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

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