Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
Às vezes, a poesia nos encontra nos lugares mais sombrios e nos oferece uma lanterna feita de palavras. Assistir a Wasil Sacharuk é aceitar um convite para essa exploração interna. Ele nos fala sobre o monstro que nos habita, aquele que "nunca ouvi, mas o reconheço", lembrando-nos de que somos o começo de nossas próprias transformações.
No palco da existência, onde as palavras muitas vezes falham, a poesia de Wasil Sacharuk surge não apenas como som, mas como uma incisão necessária. Em sua performance de spoken word, o poeta nos conduz por um labirinto de dualidades — entre o monstro interno e a doçura da rebeldia, entre o ruído da opressão e a eloquência do silêncio.
VISIONÁRIO é uma jornada por diferentes estados da alma. Começa com a aceitação do "monstro" interno, uma entidade que é, simultaneamente, fim e começo. Wasil explora a retórica como uma batalha ("conheço o corte das espadas"), onde a língua é a arma e a rima é o leito por onde se nada ou se queima.
A obra transita para a fragilidade do presente no poema sobre o "estável momento precário", uma reflexão sobre a busca pela verdade pura em meio às avarias da vida. Há também um momento de profunda sensualidade e entrega à natureza ("Avistei-te pelas matas"), onde o corpo fêmea e a paisagem se fundem em cascatas de carícias.
Contudo, os pontos altos da reflexão residem na análise do silêncio — que "salva, serve e trabalha" — e na crítica social magistralmente construída através de uma aliteração percussiva em "C". Neste último, a chegada do "Comandante" e a repressão são contrastadas com a "caixinha de carbonos coloridos", sugerindo que a arte (o desenho, a cor) é, para o sistema, uma prova de condenação.
"O monstro que mora dentro de mim / nunca ouvi, mas o reconheço. Ele é meu fim. Sou o seu começo."
"Silêncios que emergem da nascente das almas... silêncios salvam."
"Quero verdade mais pura. Quero além da simples jura, quero uma doce rebeldia."
Vale assistir a esta performance para entender que a poesia não está apenas no papel, mas no fôlego que sustenta a palavra e no vazio que o silêncio preenche. É um convite para olhar para o próprio "monstro" e encontrar nele a alforia.
Para quem ama literatura que provoca, incomoda e acolhe, este vídeo é obrigatório. É um lembrete de que, mesmo sob o corte das espadas e as batalhas de línguas, a rima e a sensibilidade são nossos maiores refúgios.