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carbonos coloridos

  

comandante chegou conduzindo corporação. Camburão corria cheio carregando criaturas com capacetes comportando caixote contendo centenas carabinas. Cão cheirador chegou crispado, cheirando calças, cheirando chinelos, cantos, caixas. Confederados chegaram chutando cadeiras, conferindo coisas,  cara cara com cidadãos. Cão cheirou cozinha, cheirou copa, cheirou congelador contendo carne cozida congelada, cheirou cama, carpete. Cidadão, conquanto calado, continuava calmo. Cão cheirou caixinha condicionada com charmoso cadeado cintilante. Comandante corrompeu cadeado conferindo conteúdo coberto com celofane. Conduziram cidadão chegando cadeia central. Certamente conseguira condenação. Caiu cana condenado com caixinha contendo cinco centigramas carbonos coloridos.


"carbonos coloridos

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cada cristo
cada capeta
cada canhestro
com carinha contente
com consciência certinha

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cafajestes
comungados com crentes
com coxinhas
capitalistas
conquanto comunistas
comiam criancinhas

canto certas coisas
com coração cortado
chamuscando cabeça
com carbonos coloridos
com carinhos
civilmente condenados

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo"

wasil sacharuk








mil palavras mudas

 mil palavras mudas


silêncios que emergem
da nascente das almas
onde palavras são tantas
sobre ideias insanas

silêncios salvam
silêncios servem
trabalham e se divertem
tanto sofrem quanto amam

são mudos quando plantam
bananeiras sem bananas
entre poemas sem mensagem
e tantas outras faltas

silêncios cavam
silêncios cobrem
se afogam depois emergem
tanto correm quanto andam

são mudos se debatem
significações exatas
às percepções mais humanas
contextos e artimanhas

silêncios falam
silêncios ouvem
pensam enquanto sentem
tanto morrem quanto calam

wasil sacharuk







cortejo das falenas

 cortejo das falenas


avistei tua nudez pelas matas
tal andarilha sonâmbula
de deliberações inexatas
junto às borboletas falenas

ao longo das tuas omoplatas
pousei minhas mãos trêmulas
na textura frágil compacta
deslizaram lentas efêmeras

percorri tuas curvas fêmeas
carícias caíram em cascatas
e o seio de mamas gêmeas
enfeitiçou-me aos olhos

seguiram desde os ombros
ao mar de areias morenas
aos teus gentis territórios
adentrei com gana pirata

poesia lasciva e obscena
vertida da boca insensata
lavou-te as feições sarracenas
com partículas de luzes aladas

ocultei nas palavras serenas
tuas tantas belezas fartas
dos encantos de formas helenas
descrevi figuras abstratas

wasil sacharuk






visionário

visionário

o instável momento precário
reluta mas pede a alforria
mas não passa de agrura
e prevalece a feroz criatura

para o ritual de todo o dia
colei uma foto no armário
ao lado do meu calendário
à esquerda dessa poesia

quero verdade mais pura
quero além da simples jura
quero uma doce rebeldia
quero toque mais refratário

nem sei se a mente depura
nem sei se tenho estrutura
nem sei se é outra mania
nem sei se me faço otário

aprendi a não ser solitário
e já sei consertar avaria
já sei cozinhar pra gastura
nem sei se a vida me atura

são as peças do meu relicário
instâncias de toda a ousadia
encantos de vã travessura
sem os toques da amargura

o que dizem que é utopia
fui buscar no meu dicionário
é um tipo de nó visionário
da mais perfeita alegria

wasil sacharuk





o corte

  o corte


conheço o corte 
das espadas
das batalhas de línguas 
nas janelas
vejo cores ocultas
sob as telas
navego nas rimas
enquanto nadas

conheço os atalhos 
das estradas
sobrevivo aos desvios
e mazelas
sou heroico nas lutas
e nas guerras
meu inferno faz frio
enquanto queimas

conheço o intento 
das palavras
sei andar nas tabelas
da retórica
leio a chama das velas
diabólicas
jogo flores nas covas
enquanto cavas

wasil sacharuk





casulo

casulo

o monstro que mora 
dentro de mim
nunca o vi
mas o reconheço
ele é meu fim
sou seu começo

que venha e seja
revele-se e me assuste
que me mate
ou me mude

que eu me renda
ao monstro que mora 
dentro de mim

wasil sacharuk







SACHARUK - VISIONÁRIO Full - poesia falada spoken word

 SACHARUK - VISIONÁRIO 

.

Onde moram nossos monstros e nossos silêncios?

Às vezes, a poesia nos encontra nos lugares mais sombrios e nos oferece uma lanterna feita de palavras. Assistir a Wasil Sacharuk é aceitar um convite para essa exploração interna. Ele nos fala sobre o monstro que nos habita, aquele que "nunca ouvi, mas o reconheço", lembrando-nos de que somos o começo de nossas próprias transformações.

 No palco da existência, onde as palavras muitas vezes falham, a poesia de Wasil Sacharuk surge não apenas como som, mas como uma incisão necessária. Em sua performance de spoken word, o poeta nos conduz por um labirinto de dualidades — entre o monstro interno e a doçura da rebeldia, entre o ruído da opressão e a eloquência do silêncio.

 VISIONÁRIO  é uma jornada por diferentes estados da alma. Começa com a aceitação do "monstro" interno, uma entidade que é, simultaneamente, fim e começo. Wasil explora a retórica como uma batalha ("conheço o corte das espadas"), onde a língua é a arma e a rima é o leito por onde se nada ou se queima. 

A obra transita para a fragilidade do presente no poema sobre o "estável momento precário", uma reflexão sobre a busca pela verdade pura em meio às avarias da vida. Há também um momento de profunda sensualidade e entrega à natureza ("Avistei-te pelas matas"), onde o corpo fêmea e a paisagem se fundem em cascatas de carícias. 

Contudo, os pontos altos da reflexão residem na análise do silêncio — que "salva, serve e trabalha" — e na crítica social magistralmente construída através de uma aliteração percussiva em "C". Neste último, a chegada do "Comandante" e a repressão são contrastadas com a "caixinha de carbonos coloridos", sugerindo que a arte (o desenho, a cor) é, para o sistema, uma prova de condenação.

"O monstro que mora dentro de mim / nunca ouvi, mas o reconheço. Ele é meu fim. Sou o seu começo."

"Silêncios que emergem da nascente das almas... silêncios salvam."

"Quero verdade mais pura. Quero além da simples jura, quero uma doce rebeldia."

"Cada canalice conduz consequência, converte castigo."

 Vale assistir a esta performance para entender que a poesia não está apenas no papel, mas no fôlego que sustenta a palavra e no vazio que o silêncio preenche. É um convite para olhar para o próprio "monstro" e encontrar nele a alforia.

Para quem ama literatura que provoca, incomoda e acolhe, este vídeo é obrigatório. É um lembrete de que, mesmo sob o corte das espadas e as batalhas de línguas, a rima e a sensibilidade são nossos maiores refúgios.

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SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...