O pingente

Mariana finalmente encontrou o pingente no cantinho da pia marfim, ao lado da saboneteira. Ela o havia perdido pela casa há três ou quatro dias. Tentou segurá-lo, no entanto, molhada e escorregadia, a joia tilintou sobre a torneira dourada, repicou repetidas vezes sobre a cerâmica cinza e perdeu-se novamente.

Dissuadida da nova busca, cuidou de abrir a água para encher a pequena banheira de hidromassagem.

Mariana sentou-se ao vaso e passou a escovar os cabelos com a escova de largas cerdas. Sentia arranhar levemente o couro cabeludo percorrendo memórias que escorriam às vertentes ao longo dos fios negros e lisos.

Penteada, segurou a toalha preta entre as duas mãos e descansou sua face sobre ela. Apertou o tecido sobre os olhos.

As memórias persistiam.

Enquanto despia-se, percorreu o chão com o olhar e encontrou o pingente caprichosamente oculto no vão entre os dois tapetinhos azuis.

Abaixou-se, resgatou a peça e observou-a demoradamente. Logo, jogou-a hesitante dentro da banheira já quase cheia. 

Entrou lentamente na banheira, resgatou a jóia e a prendeu firmemente na mão direita, fechou os olhos e deixou a água cobrir sua cabeça. 

Contornado pela forma de uma folhinha de palma, havia um nome sutilmente gravado no pingente de ouro junto às lembranças submersas.

Mas o nome não mais importa quando uma história chega ao fim.

wasil sacharuk



parindo futuros

 Parindo futuros


Ando rasgando certezas

dissimulando conceitos

refazendo o tear


Ando apagando belezas

percorrendo os intentos

anunciando degredos


Ando bipartindo medos

parindo sonhos como fazem as nuvens 

quando venta

reduzindo abstratas formas

a novas descobertas


Ando abrindo vielas

mordendo desilusões e as digerindo

engolindo frações das coisas complexas

com sentimentos mais puros


Ando alucinadamente 

parindo futuros.


Marcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk


a desvendar mistérios

 a desvendar mistérios


vasculhei flancos 

e cantos da mente

em busca de dons escondidos

contra incidentes descabidos

e essa culpa 

aguda e silente


e cantei à surdez dos ouvidos

indiquei contramão do oriente

ensaiei ficar indiferente

à outorga dos risos escondidos


desbravei infinitos de chão

de tudo e nada 

de sim e de não

revirando os ossos 

dos porquês


e segurei a poesia nas mãos

pois sei que ela é a razão

que  sempre faz

eu tentar outra vez


wasil sacharuk


meus guris

 Meus guris


Não saiam da rima

não percam o clima

tudo o que a vida ensina

é a insistência dos dias

a perpetuação das manias

e os disfarces da poesia


Como disse tia Marisa

se eu não me engano

sintam no rosto a brisa

liberta do minuano


Escrevam em versos a vida

caso for dolorida

caso for um engano

façam dela poema

mesmo rima e sem plano

sem razão ou sistema

até fora de esquema

ou propósito insano


Façam dos dias dilemas

dos inimigos teus manos

das dores não façam danos

e jamais se esqueçam

que os nossos problemas

são desafios dos arcanos


E sempre compreendam

que o horror dos sistemas

são desígnios humanos.


Wasil Sacharuk


o mestre e o coelho

 O mestre e o coelho, um poema de Páscoa


O grande mestre inesquecível

do amor, da morte e da vida

fascina a todo que investiga

porque sua fé o tornou invencível


Antes de ser crucificado

passou coragem e sabedoria

deixou frases como aprendizado

nem mesmo a tortura o impediria

de deixar o amor e a fé como legado


E essa herança indescritível

fez a humanidade dividida

o mestre morreu a ainda briga

e sua palavra é o motivo plausível


Mas o mestre deixou seu recado

que foi interpretado à revelia

enquanto a igreja inventou o pecado

vendendo remédio pra toda a agonia

com coelho dentuço e chocolate melado.


Decimar Biagini & Wasil Sacharuk





o poeta e o leitor

O POETA E O LEITOR


Nada se interpõe entre o poeta

e o destino superado pela obra

Nada se sobrepõe ao hermeneuta

que alinha alegrado à manobra


O poeta faz a lida virar fato

em forma e conteúdo no entremeio

inventivo, narrativo ou abstrato

Convida o leitor para um passeio


No trajeto infindável de sua meta

se delineia de instável à normal

o objeto maleável da obra aberta


Por sua vez, o leitor se é atento

Remexe, vira, põe e tira o sal

e colabora com cinquenta porcento.


Decimar Biagini e Wasil Sacharuk




plexo solar

 plexo solar


se sinto o que penso

se sinto o que digo

sinto o que penso que sinto

provavelmente minto


se falo encontro o amigo

depois eu dispenso

o momento é intenso

mais tarde eu nem ligo


em cada sentimento distinto

eu provo o absinto

divido contigo

um viés do meu lenço


digo que sinto imenso

comunico e complico

traduzo meu instinto

numa costura sem vinco


se sinto e não digo me intrigo

e me encontro em poema pretenso

disforme libertino e sem senso

só para beijar meu umbigo


wasil sacharuk



SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...