O encontro de duas estéticas opostas
O interesse central dessa colaboração está no choque de temperamentos poéticos. Sacharuk é um poeta da crueza: ferro, sal, gesso, vísceras, a morte tratada com lucidez cruel. Márcia chega de um lugar oposto — o colorido, a esperança, a tela como obra sempre iniciada. E é justamente essa diferença que os poemas metabolizam. Em futuro de hoje, o vocabulário da pintura e da renovação ("plantar semente de esperança", "nas asas da fênix viajei") convive com um rasgo que não é ingênuo: "Hoje prometi para o ontem / Não me esquecer do amanhã" — um quiasmo de tempos que condensa a tese do poema, o futuro como obra em curso, nunca terminada. O final — "A obra, cujo título é futuro / Hoje acaba de ser iniciada" — soa quase como manifesto da parceria inteira.
Em tomando veneno, o contrapeso se inverte: aqui a voz parece mais de Sacharuk, com sua linguagem dura ("lógica nua", "gotas peçonhentas", a casa "de ranhuras" e "paredes já escritas em teias"), mas conserva um verso de afeto que só a convivência com Márcia explica: o "beijo que não beijo" calado no instante. O poema prova que a parceria não diluía o poeta da crueza — ela contextualizava essa crueza.
A palavra nua: o poema-chave
Nua e mais nada é o coração do conjunto — e o mais autocomentário. O poema é uma demanda dirigida à palavra alheia:
"quero tua palavra nua, / sem pele, sem remendos, sem acertos / quero tua palavra rabiscada / exagerada / sem lamentos"
A sequência de adjetivos verbais — enxertada, enfiada, afiada — é pura gramática sacharukiana, o corpo feito verbete. Mas o fecho inverte a expectativa: depois de exigir a palavra sem ornamentos, sem emboscadas, "sem acento", "sem movimento", o eu lírico pede "a palavra que completa / e mais nada". Há ali uma ironia sutil: o que completa não é o excesso nem o despojamento, mas o outro. Lido no contexto da parceria, o poema é a descrição do próprio método dos dois — uma escrita onde cada um fornece ao outro a palavra que falta.
Melancolia e amizade como estrutura
O conjunto não é unânime no tom, e essa variação é saudável. A paz do vazio é o poema mais elegíaco: cartas de amor que "amarelaram lentas", um mundo "tragado pelo tempo", e um final de estoicismo amargo — "ficamos indiferentes, encontramos a paz". A indiferença como sinônimo de paz é descoberta tipicamente sacharukiana, e Márcia a acolhe sem resistência, o que sugere que a parceria ensinou cada um a habitar o território do outro.
No polo oposto, respirando as cores do vento é um poema de amizade declarada, quase cantiga: "Amigo, senta aqui comigo / vamos conversar?" — e o remate "vamos incendiar a tristeza / com faíscas de amizade" faz do fogo, elemento sombrio em Sacharuk, uma energia luminosa. É a mesma amizade que Márcia explicitaria na homenagem Ao Mago da pena, onde o chama de "acolherador" — neologismo precioso que une acolher e recolher — e se declara "um ser inteiro e eternamente cativo" do sonho, da amizade e do riso do parceiro.
A verve como jogo
SOS verve é o texto mais experimental do grupo: começa em versos curtos e debochados ("uma metade já serve / e eu cubro com uma cereja", com a rejeição bem-humorada ao "melacueca de pagode" e ao "ranço de guampa sertaneja" — o humor regionalista que Sacharuk puxava do convívio gaúcho) e explode em exclamações em prosa poética: "Vem escrever a estratosfera! / carcomeremos o ego da plebe com fios de saltos perfurando o chão". Os interrogativos soltos no final ("completa amplidão! ????") deixam o poema deliberadamente inacabado — um grito convite, não um objeto fechado. É a parceria funcionando como provocação mútua.
Chove, por sua vez, mostra a economia de que os dois eram capazes: versos de duas a três palavras, aliterações em cascata ("Pingam os pingos / labirintos", "chove e chovo junto"), a fusão do sujeito com o fenômeno. E tragicomédia eleva o debate a metaescrita: o poema discute o próprio ofício — quem tem a voz mais alta, o que fere com ferro ou o que "mela os olhos alheios" — e conclui que a verdadeira poesia sai "da voz mais alta que emerge de gargantas mudas". É a defesa do poeta contido contra o poeta performático, interessante vinda justamente de um poeta da performance.
O que essa colaboração produz — e que nenhum dos dois produziria sozinho — é a ponte entre o ornamento e o desadorno. Márcia trouxe a tela, a cor, a esperança e a fé na obra inacabada; Sacharuk trouxe a faca, o veneno, a lucidez da finitude. Os poemas vivem na costura dessas duas matérias: até quando falam de ruína (a paz do vazio, tomando veneno), conservam um resquício de brilho; até quando falam de esperança (futuro de hoje, eco de poesia), admitem a escuridão que precisam iluminar. No fundo, era a tradução poética do que Márcia disse em prosa de verso: um "infindo livro de abraços" — uma amizade que descobriu, na escrita a dois, a forma de não terminar.
Leia os poemas da dupla aqui: https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Marcia%20Poesia%20de%20S%C3%A1
