Duas vozes em terra de ninguém: a parceria de Dani Maiolo e Wasil Sacharuk


Duas vozes em terra de ninguém: a parceria de Dani Maiolo e Wasil Sacharuk

Há parcerias poéticas que se explicam por afinidade, e outras que se explicam por atrito. A de Dani Maiolo e Wasil Sacharuk parece pertencer ao segundo grupo — e é precisamente nesse atrito que ela produz seu valor. Nos cinco poemas assinados a quatro mãos que sobrevivem no acervo do Sacharuk Memorial — "terra de ninguém", "Corro e morro", "pura", "línguas vãs" e "interprete a verve" —, o leitor não encontra a voz diluída de dois poetas que escrevem parecido, mas a costura tensa de dois temperamentos que se negam a ceder inteiramente o próprio registro.

O primeiro atrito é o do tema. Sacharuk, como se sabe, construiu uma poética do desadorno: sangue, ferro, sal, a morte enfrentada com lucidez estoica, o divino negado em favor de uma espiritualidade telúrica. Em "terra de ninguém", no entanto, essa crueza se submete a uma estrutura rigorosamente redondil, de rimas em ABAB alternadas que remetem tanto à quadra popular quanto ao repente — "Malandros, lá tem o seu encanto / Onde a cultura se faz baboseira / A indiferença entre riso e pranto / Toda a desgraça é só brincadeira". O poema desce ao morro e à cidade — paralelepípedos, ratos, crianças na lama, tráfico, polícia cega — e depois sobe à avenida dos celulares, buzinas, botox e sorrisos formais. A denúncia social, que na obra solo de Sacharuk costuma vir desgrenhada e fragmentária, aqui vira litania ordenada: é provável que essa disciplina formal seja a contribuição de Maiolo, uma voz que insiste na rima e na construção estrófica onde o gaúcho preferia a fratura.

"Corro e morro" repete o procedimento em outra chave. O poema é uma fuga sem saída — o corredor escuro, o ar pesado, a luz que se revela ilusão — e culmina na constatação que resume o existencialismo de Sacharuk: "Se correr sem sair do lugar / Meu sangue será consagrado". Mas o tratamento é de romanceiro, de cantiga em movimento, com as estrofes em redondilha avançando como passos de quem foge. A morte, tema sacharukiano por excelência, ganha aqui o vestido narrativo e cadenciado de uma voz que sabe fazer o verso correr — e é sintomático que o fecho abandone a primeira pessoa masculina para assumir o feminino ("sufocada pelas muralhas quentes"), como se a própria autoria oscilasse entre as duas vozes.

É no erotismo, porém, que a parceria se torna mais interessante. "pura" e "interprete a verve" trabalham o desejo sem pudor nenhum — "que se come / que se bebe / que se fode / a loucura / mais pura" —, e o fazem com um jogo de linguagem que funde o vocabulário sexual ao vocabulário poético: em "interprete a verve", a "lira fodedeira" e o convite ao leitor — "Tente se encaixar nessas linhas / Tão nossas, tuas e minhas" — transformam a parceria literária em metáfora do próprio coito. O poema assume a lascívia como declaração de método ("Sou lasciva e sem vergonha") e faz do ato de escrever a dois um ato de intimidade compartilhada com o leitor curioso. Já "línguas vãs" eleva o mesmo material à aliteração e ao jogo lexical — "frenéticas moléculas entre mãos / frenesi de filos múltiplos" —, onde "dois pseudo vilões" e "dois ingratos ladrões" parecem designar menos os amantes do que os próprios poetas, ladrões recíprocos de palavras.

O que esta colaboração produz, e que nenhum dos dois produziria sozinho, é essa oscilação constante entre a forma e a fratura, entre a quadra bem-costurada e o verso que despenca em sílabas soltas. Maiolo parece trazer o rigor métrico, a construção narrativa, a musicalidade popular; Sacharuk traz o conteúdo brutal, o humor sem cerimônia, a disposição de falar o que a lírica convencional engole. Nos cinco poemas, nenhuma das vozes vence inteiramente — e talvez seja esse o maior elogio que se possa fazer a uma parceria: os versos, como eles mesmos escreveriam, são "tão nossas, tuas e minhas" que a propriedade simplesmente se perde.

Leia os poemas da parceria: 

https://sacharukmemorial.blogspot.com/search/label/Dani%20Maiolo

SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...