Rumo a Pasárgada
Morre em mim todos os dias que amanhecem
Morre em mim a fala suave e o hálito doce
Morre em mim a manhã da primavera
Morre em mim canção do luar
Não é mais tempo de plantar nem de colher
Não é mais tempo de ler velhos poemas empoeirados
Não é mais tempo de acreditar que poderá ser diferente
Não é mais tempo de vida que corre nos olhos e nas veias do entendimento
Acabou a festa do conhecimento
Acabou o dia, a tarde e a madrugada de sonhos
Acabou o canto da coruja no galho da manga-rosa
Acabou a letra desse alfabeto em cor
“Vou-me embora pra Pasárgada”
Vou vestido de nudez
Vou livre de amarras
Vou simples, presente e morto de todas as subjetividades do talvez
Morre em mim toda a grandeza que cresce
Morre em mim a inocência da beleza precoce
Morre em mim a destreza felina de uma fera
Morre em mim a atração pelas forças do mar
Não é mais tempo de parar ou de correr
Nâo é mais tempo de rever conceitos enterrados
Não é mais tempo de confiar na sanidade da gente
Não é mais tempo de sentir a ferida que escorre dos olhos num lamento
Acabou a resistência do cimento
Acabou a nostalgia das madrugadas de tons tristonhos
Acabou o poema que sobrepuja a frieza da prosa
Acabou a caneta dessa escritura de dor
"Vou-me embora pra Pasárgada”
Vou liberto das mercês
Vou solto de todas as garras
Vou assim mesmo, engajado em mim, sem certezas e nem porquês.
Diogo Dias Fernandes
& Wasil Sacharuk