camille
Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
camille
ícaro negro
ícaro negro
facas de savanas
facas de savanas
minha essência
é afloramento
perceptivo a tudo
sou jovem felino
à luz da lua
a sair da gruta
ando a farejar
pelos ventos
cá estou
no teu recinto
e a pergunta é
devoro-te poeta?
mas teus versos
facas de savanas
têm cheiro de sangue
carne fresca
sangue derramado
farejam a mim
com olhos âmbar
garras de metáfora
devoro-te poeta?
ou me capturas?
entre as garras
entre as metáforas,
quem é caça
quem é caçador?
aquilo que rasga a pele,
devora em versos
devora sem dor
sal e ferro
sal e ferro
wasil sacharuk
a unidade
a unidade
que nenhuma distância
separa dois corpos
no tempo e no espaço
surpreendeu-se
com as possibilidades
que falam línguas mortas
e perpassam sensações
percorrem caminhos insólitos
em trajes estranhos
a vida se estende além
do que rezam os livros
a natureza acomoda
grandezas incompreendidas
então soube
que tudo fala
tudo toca
tudo chama
nada separa
a unidade
do seu quarto
ela viu e ouviu
provou os cheiros e gostos
das coisas distantes
com seus sentidos invisíveis
trocou olhares
com entes da floresta
conversou com as pedras
conheceu sua semelhança
com todas as coisas
e as coisas todas
a reconheceram
então soube
que tudo fala
tudo toca
tudo chama
nada separa
a unidade
wasil sacharuk
um deus morre
um deus morre
um deus morre
ao abandono do íntimo
nas telas da publicidade
ao patrocínio das candidaturas
igrejas e nações
políticas e ditaduras
ao mote das facções
um deus morre
quando reside nas casas
entre códigos e domínios
ao conforto do trono
perante a servidão
quando crentes recitam
discursos medievais
um deus morre
cada vez mais
na fome no medo na dor
na corrupção no horror
onde não há um senhor
também não há satanás
um deus morre
a cada sussurro
a cada silêncio
na hipocrisia
nos contrassensos
um deus morre
pelos feixes de luz
que perpassam vitrais
e rebrilham no ouro
das paredes incrustadas
com as jóias de baal
um deus morre
na indiferença
das súplicas
à semelhança
dos súditos
mudo
mouco
em ruínas
um deus morre
a cada sussurro
a cada silêncio
na hipocrisia
nos contrassensos
wasil sacharuk
SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word
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