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camille

 camille


recria-me
Camille
reinventa minha ilha
no eco dos versos

recria
na pedra mais fria
 o meu universo
repara minhas rugas
com gesso

tu vês?
Camille

recria-me 
dedos
artelho
meu nome inteiro
gravado na pedra
com teu cinzel
 verdadeiro

certo dia
desvendarás poesia
nos esculpidos retratos
do meu olhar introspecto
faminto de sanidade
ou qualquer outra fé

e a perfeição do teu pé
contém meu nome gravado
sumariamente entalhado
pelo cinzel dos avessos

recria-me 
dedos
artelho
meu nome inteiro
gravado na pedra
com teu cinzel
 verdadeiro

wasil sacharuk







ícaro negro

 ícaro negro 


 madrugada
teus cabelos ocultos
pelo capuz negro
tu avançaste
pelas ruelas
escuras alagadas 

despencaram as águas 
 no chão de pedras
 um sopro de vento
 contou mistérios 
 ao silêncio dissonante 

por breve instante
 cessou todo o medo
fundiu os lados 
nem dentro 
nem fora 

surgiste
 plena de glória
 da margem do precipício
  asas abertas ao mundo 
 corajoso pássaro
desafiou as alturas
em nome da liberdade

madrugada
teus véus noturnos
 deslizaram entre becos
lâminas de chuva 
e sombra  

 serpentearam as águas 
sussurraram as pedras 
quando o vento entoou
cânticos ocultos
o silêncio pulsou 

o instante eterno
  o medo dissolvido 
diluiu as fronteiras
nem céu
nem chão 
 
e então...  

[Refrão]
surgiste! 
tal Ícaro negro
das brumas do abismo
asas de ébano
 e de fogo rasgaram
 a noite infinita

nenhuma corrente
 te prendeu
mais nenhum véu
 te cobriu
quando a liberdade
finalmente ecoou 
no vazio

wasil sacharuk 



facas de savanas

 facas de savanas 


minha essência
é afloramento
perceptivo a tudo
sou jovem felino
à luz da lua
a sair da gruta
ando a farejar
pelos ventos
cá estou
no teu recinto

e a pergunta é
devoro-te poeta?

mas teus versos
facas de savanas
têm cheiro de sangue
carne fresca
sangue derramado
farejam a mim
com olhos âmbar
garras de metáfora

devoro-te poeta?
ou me capturas?

entre as garras
entre as metáforas,
quem é caça
quem é caçador?
aquilo que rasga a pele,
devora em versos
devora sem dor

wasil sacharuk   



sal e ferro

 sal e ferro 


liberta-te 
se a vida verter
pela última vez 
nave em vertigem 
venhas comigo 
com gosto

beijo-te o umbigo 
e te risco um maldito
rasgo na pele
meus dentes
 minhas garras 
perfuram teus olhos
e meu reflexo 
queimando em desejo

liberta-te 
pela pele
dança viva
sobre a faca
dança nua
sobre as chamas

plantei na tua fronte 
sementes de escuta
que ouvem silêncios 
dos sentimentos e sentidos
para germinar-me em ti
agora desfalecida 
vê o que plantamos 
ao escolhermos a dor

tua garganta
 tuas vísceras
são altar e desgraça
e nua tu danças
 sobre a cadeira
de pulsos abertos
gotas em minha boca
sal e ferro 
e assim eu te tenho 
inerte e livre

liberta-te 
pela pele
dança viva
sobre a faca
dança nua
sobre as chamas 

wasil sacharuk






a unidade

 a unidade 


ela entendeu
que nenhuma distância
separa dois corpos
no tempo e no espaço

surpreendeu-se
com as possibilidades
que falam línguas mortas
e perpassam sensações
percorrem caminhos insólitos
em trajes estranhos

a vida se estende além
do que rezam os livros
a natureza acomoda
grandezas incompreendidas

então soube
que tudo fala
tudo toca
tudo chama
nada separa
a unidade

do seu quarto
ela viu e ouviu
provou os cheiros e gostos
das coisas distantes
com seus sentidos invisíveis

trocou olhares
com entes da floresta
conversou com as pedras
conheceu sua semelhança
com todas as coisas
e as coisas todas
a reconheceram

então soube
que tudo fala
tudo toca
tudo chama
nada separa
a unidade

wasil sacharuk







um deus morre



um deus morre

um deus morre
ao abandono do íntimo
nas telas da publicidade
ao patrocínio das candidaturas
igrejas e nações
políticas e ditaduras
ao mote das facções

um deus morre
quando reside nas casas
entre códigos e domínios
ao conforto do trono
perante a servidão
quando crentes recitam
discursos medievais

um deus morre
cada vez mais
na fome no medo na dor
na corrupção no horror
onde não há um senhor
também não há satanás

um deus morre
a cada sussurro
a cada silêncio
na hipocrisia
nos contrassensos 

um deus morre
pelos feixes de luz
que perpassam vitrais
e rebrilham no ouro
das paredes incrustadas
com as jóias de baal

um deus morre
na indiferença
das súplicas
à semelhança
dos súditos
mudo
mouco
em ruínas

um deus morre
a cada sussurro
a cada silêncio
na hipocrisia
nos contrassensos


wasil sacharuk



SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...