oxigênio

 oxigênio


já te aprendi tanto
que a mim não enganas mais

desvendei rumos e recantos
fui o motivo dos teus desencantos
agora sei o que esconde os teus ais

e não venhas quebrar minha paz
com tuas mentiras insanas
faniquitos e artimanhas
dissimulações do teu pranto

já não me causas espanto
afinal sempre ganhas
com tuas manobras tacanhas
e esse olhar sacrossanto

agora não há mais jeito
nem projetos ou campanhas
que abafe o som do meu canto

pois saibas que tenho o direito
de me libertar do quebranto
e tragar o novo ar das montanhas

wasil sacharuk









marcada

  marcada


era eu

dura pedra

ao pó desmantelada

pelo crivo da tua vontade

eis que o desejo persiste

teu signo reside

na minha pele tatuada

no toque das tuas digitais

 

minh'alma resiste marcada

meu âmago

ninguém toca mais

meu gozo

anseia tua completude

ainda são teus

os meus ais


teu signo

na minha pele

teu signo

persiste e arde


marcada 

pela tua vontade

eu vivo

marcada

 ainda marcada


wasil sacharuk 




agridoce

 


agridoce 

se quisesse
deglutiria o parceiro
ao teto do céu
sabor agridoce
leite e mel

talvez fosse
amazona num corcel
a montá-lo inteiro
galope ligeiro
crinas nas faces

segredos ensejam enlaces
contos de pobres roteiros
ocultos no mundo cruel

e ainda se quisesse
mataria o companheiro
sem vingança ou ódio
só para cumprir um papel

de morte
com cheiro de noite
de sorte
com gosto de fel

wasil sacharuk 





Densidade, desejo e poder no poema de WASIL SACHARUK, onde o prazer e a dor coexistem numa atmosfera de beleza e ambiguidade . "Agridoce" é um poema sobre o amor como força destrutiva e criadora, onde desejar, possuir, elevar e aniquilar são gestos indissociáveis. Não há sentimentalismo, mas uma frieza ritual que torna o sentimento ainda mais inquietante — e verdadeiro. Leia, ouça e, se gostar, mostre esse poema inquietante aos amigos.

#literatura #poesia #musicabrasileiea #poema #músicaalternativa







branca

 



Branca 

Branca coberta em seus andrajos
sua tez reluzente fiel porcelana
flertava com as musas no parnaso
mas não era promessa soberana

Branca mimava aos farrapos
desembaraçadores das minas
tão donzela cosia os trapos
e nutria os animais na campina

Branca sequer quis ser princesa
e seu algoz abdicou da certeza
descansou sua faca na bainha

Branca renunciou à nobreza
sua vida dedicada a pobreza
consagrou-a  eterna rainha

wasil sacharuk



quebranto

 quebranto


se essa vida dá tantas voltas
eu quero abraçar a esfera
preciso retroceder
os relógios da terra

escolher coisas soltas
seguir as mesmas rotas
de quem nunca erra

trilharei caminho pronto
tentando apagar primaveras
talvez eu possa esquecer
dissipar as minhas quimeras

pois tenho andado tanto
a remoer desencantos
por toda uma era

quero sarar do quebranto
tocar as notas certas
e quando  amanhecer
deixar minha casa aberta
para secar esse pranto

e murmurar acalanto
quando a saudade aperta

wasil sacharuk







linha de frente

 




linha de frente

vejam toda essa gente
gado apartado em travessia
procissão de eus enfileirados
fracos espíritos domesticados

a vida quer ser revelia
necessita ser insurgente
ter os brios na linha de frente
para desbravar novas vias

levante!
é hora de acordar
em frente!
o mundo precisa mudar

sempre os mesmos resultados
repetidos atos malfadados
mergulho das almas vazias
no rio das coisas indiferentes

é preciso ver noutra lente
resgatar a ideia e a poesia
aprender as lições do passado
deixar todo medo de lado

levante!
é hora de acordar
em frente!
o mundo precisa mudar

e quando acender novo dia
as coisas serão diferentes
há muito chão pela frente
ao encontro da sabedoria

wasil sacharuk




crescer por amor

  crescer por amor 


quando eu era criança
na casa havia goteiras
pingavam noites inteiras
e ritmavam a dança
dos sorrisos no quintal 

nada eu sabia acerca do mal
na esteira do tempo que avança
só o bem ficou na lembrança
onde ele é o imortal
guardião da inocência 

eu conheci as carências
entendi o destino natural
entre as luzes e o mundo abissal
e dessas experiências
colhi vitórias e desatinos 

agora não sou mais menino
tenho novas referências
das tecnologias à obsolescência
mas preservo o sentido genuíno
de querer crescer por amor

wasil sacharuk





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