loucura e amor

 


loucura e amor

estranho
morder a mim mesmo
nem mesmo tento
tenho argumento
sou egoísta

sou sofista
instintivamente
autopreservado

mas os loucos
são loucos...
liberados
podem morder
a própria carne

é preciso saber
salteado e de cor
loucura e amor
são uma coisa só

a marca do sol
nos olhos amenos
e fraçoês pequenas
de letal veneno

mas os loucos
os loucos...
podem morder
a própria carne

é preciso saber
salteado e de cor
loucura e amor
são uma coisa só

mas os loucos
os loucos...
podem morder
a própria carne


wasil sacharuk



imersa


imersa

o silêncio absoluto
preenche a noite
a lagoa dança tão calma
faz repousar o açoite
que corta as estradas
que entorta as almas
até despertar a cidade
adormecida ao meu lado

Espero a luz do dia
na certeza de estar louca
e partida
louca varrida
imersa em poesia

Quero ser inundada
pela maré das verdades

faces desumanas
desvendam oráculos
das luzes embriagadas
no teto sobre a cama
até encerrar as vontades
no meu mundo quadrado

Espero a luz do dia
na certeza de estar louca
e partida
louca varrida
imersa em poesia

Quero ser tocado
pela minha insanidade

Nessa fase da lua
as dores são soberanas
e desafiam a morte
com lágrimas e gargalhadas
paixões tão insanas
a romper a estabilidade
do meu mundo inventado

Espero a luz do dia
na certeza de estar louca
e partida
louca varrida
imersa em poesia

Quero ser enganada
pela minha obviedade


wasil sacharuk






tarefa inglória

   

tarefa inglória

repete todo santo dia
faço sempre a mesma coisa
preciso calçar as galochas
e desfilar entre rochas
de mármore e granito

revisito o mesmo rito
enquanto a carne esfria
se o dito é poeta se lê poesia
se o cujo é crente se lê oração
mas no fim é só casca e caixão

eu já cavei tantos buracos
ouvindo o choro dos fracos
mandei alguns para o lado de lá
em golpes contritos de pá
e ofícios de carpideiras

mas juntar as caveiras
é a tarefa mais inglória
pois vejo uma sombra ilusória
que se lança e se esgueira
nas ruas de mármore frio

sempre sinto um calafrio
mas aprendi a manter a calma
pois sempre haverá uma alma
assombrando o terreno
em busca de um lugar ameno

wasil sacharuk






mímese dos desadornos

mímese dos desadornos

somos mimese
dos desadornos
alguns lua outros lâmpadas
mais outros rio alguns balde
 adversidades da estética

wasil sacharuk






voo cego

 


voo cego

mulher
percorre teus dias
pela encosta dos rios
o assovio da ventania
e o impulso bravo das águas
levarão tristezas sem trégua
para outros quintos sombrios

as ondas batem nas pedras
espocam incertas
vertem lençóis de espuma
sob a regência do luar
e logo vou te encontrar
e espero que cantes
versos doces, amantes

quero voar contigo
num voo cego
pelas rotas perdidas
enfeitar tuas asas lindas
com cores de poesia

deixa as portas abertas
as janelas floridas
empresta amor e dá vida
pinta as coisas cinzentas
e logo vou te encontrar
e espero que cantes
versos doces amantes

quero voar contigo
num voo cego
pelas rotas perdidas
para ver tuas asas lindas
nas cores de poesia

wasil sacharuk



sina de estrada

 

sina de estrada

tenho certos instantes de cruel lucidez quando escorre essa insensatez que sempre dissolve meu conceito de tudo em certeza de nada e sumo por viadutos a cumprir as mercês dessa sina de estrada

percorro tanto chão sem olhar estrelas quando morre o imo da beleza eis que a vida resolve me vagar pelo mundo como alma penada num abismo profundo a remoer a aspereza e essa fome danada

desentendo o levante dessas ideologias que implode a alma das poesias enquanto desfere o veneno agudo da conversa fiada e num só segundo suga toda a energia que vem da tomada

conto que esse tempo não seja arbitrário só ele é que pode andar ao contrário e fazer pretérito desse rumo escuro desde vidas passadas
e subtrai os minutos para o desaniversário dessas favas contadas

wasil sacharuk








sobre a cama

 sobre a cama


no dia em que eu acordar
imerso em águas azuis
teu olhar diamante
permanente 
na minha fronte

deixarás sobre a cama
a minha fotografia

se eu acordar algum dia
ao desenredo das tuas tramas
farei novo entrançado 
esquecido das mágoas

na corrente das águas
lavarei os  enganos
lançarei ao oceano
as minhas amarras

na corrente das águas
o perdão pelos danos
lançarei ao oceano
o meu intento

se um dia eu acordar
e não sentir mais o vento
a lua o sol o chão
choverão os lamentos
na canção que te canta 

deixarás sobre a cama
a minha poesia

na corrente das águas
lavarei os  enganos
lançarei ao oceano
as minhas amarras

na corrente das águas
o perdão pelos danos
lançarei ao oceano
o meu intento

wasil sacharuk






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