a cobiça

 a cobiça


já faz muito desde o sucedido
alguns não recordam mais nada
outros duvidam do acontecido

a meia-noite quebrou a calada
no grito da primeira badalada
lançada a sorte na noite de breu
eu estava lá quando tudo se deu:

em meio à mata, não sei bem ao certo
um rito secreto e uma estranha canção
o calor da fogueira ardia bem perto

construíram lá um grande portal
fundamentado em colunas de ouro
nele incrustado o amor ao metal
toda paixão p'ra compor o tesouro

a cobiça foi mãe da ira e da morte
da intolerância e do devir malogrado
os nativos insanos perderam o norte

ouviu-se som grave qual um trovão
que fez todo o povoado desperto
somente alguns poucos sabiam a razão
da queda de todos no limbo deserto

de nada adiantaram os meus mantras
sequer os apelos ao deus que esqueci
caíram por terra as crenças santas

todos arremessados no mundo abissal
por uma espiral no centro do estouro
jogados ao fogo mais quente infernal
reinado de um anjo coberto de louros

wasil sacharuk





memórias em pó

 memórias em pó 


outrora cheirosa
a roseira sem cor
lentamente suspende 
 fluidos minguantes
derradeiros espinhos 
lanças trágicas 
de haste dura 

sua  última rosa
secou esquálida
o perfeito sacrifício 
desintegra-se impertinente 
 condensada nas páginas 
do velho diário 
abandonado na estante

sem cor
a roseira 
destila o orvalho
que já não molha
memórias em pó
 dos dias (das cores)
que já não voltam

o mudo desvelo 
memórias em pó 
dos aromas perdidos
na esteira dos dias 

murcham as pétalas 
secam as razões 
a natureza  é a solitude 
que contempla a morte
e acalenta a poesia

sem cor
a roseira 
destila o orvalho
que já não molha
memórias em pó
 dos dias (das cores)
que já não voltam

há tempo de florescer 
e outro de perecer
pela linha entre o viço 
e a senilidade dos galhos
destila o orvalho 
que já não molha


wasil sacharuk







dor da saudade

 dor da saudade 


os olhos mareiam
grãos de areia
há mil tipos de dor
eu conheço o pior
a dor da saudade

sentimento que dói
pensamento corrói
morte em vida
pulsando latente
debaixo da casca
da ferida

o tempo não apaga
o tempo não cura
somente acalanta
e ela anda silente
dentro da gente

sentimento que dói
pensamento corrói
morte em vida

há mil tipos de dor
eu conheço o pior

wasil sacharuk



vinho raro

vinho raro


nosso vinho precioso
na delicadeza da sede
cai realmente gostoso 
desce quente sensorial 

cada gole essencial 
lembra teus olhos 
 cantinhos vermelhos
tua boca teus dedos

vinho
 amor tão raro
 nos lençóis
 em sacrifício

nosso amor tão raro
 embriaga além da pele
oferenda das texturas
nuanças e faro

transcendência do toque 
lembra teu cheiro 
teus calores e chuvas
teu gosto de uva

vinho
 amor tão raro
 nos lençóis
 em sacrifício

 vinho sagrado 
docemente apreciado 
no altar da cumplicidade
nosso mútuo sacrifício

 amor precioso 
rasga os véus
das melhores entregas

os corpos são taças 
 onde se fundem os poros
com fluidos e hálitos
derramam-se nos lençóis 

 vinho precioso
delicadeza da sede
 quente sensorial 
lembra teus olhos 
 cantinhos vermelhos
tua boca teus dedos

 tão raro
além da pele
 texturas e faro
calores e chuvas
gosto de uva

vinho sagrado 
docemente apreciado
fluidos e hálitos 
 nos lençóis
 em sacrifício

wasil sacharuk




contar estrelas

 contar estrelas 


maravilhoso é contar estrelas
mas onde estou 
vejo apenas uma
 quando o céu ajuda
as quatro e trinta 
quando saio para o trabalho 

é Vênus
eu acho
no céu tão bonito!

eu passaria  horas 
e horas a fio
 só contando estrelas
 quando me perdesse
voltaria a contar

ficaria todo tempo do mundo 
deitada ao teu lado 
 faríamos assim
eu contava uma estrela 
e catava
 te dava
teríamos um balaio

das pequenas coisas
 que somos feitos
pó de estrelas
partículas de átomos
 infinitos
mesmo tão limitados
de poeira 
e de enfados

 batizo as estrelas 
com nomes inventados
Astez
Moriè
 Ezon
Zúritë
E Yadz
são nomes lindos 
sei que preferes
 Sebastiana
 Gertrudes
Esther 

 Salinna será minha  preferida
nascida à beira-mar
 luzirá no céu de cima
 espocando solene
para nossa intimidade 
com o universo 

das pequenas coisas
 que somos feitos
pó de estrelas
partículas de átomos
 infinitos
mesmo limitados
de poeira 
e de  enfados

wasil sacharuk 



dono das horas

 

dono das horas 

és ave carnívora
que bica até verter sangue
mutila
devora
arranca os meus pedaços
para depois engoli-los

e tudo a ti pertence
 o norte
 o Sul
 o sol que nasce 
o sol que se põe
 dono das horas

ave carnívora
 voa embora 
leva teu veneno
leva tua tua dor 
não mais serei tua presa 
quebro as asas 
do teu amor

logo odeio-te!
a partir de hoje
terás meu desprezo
terás o meu ódio!
nunca mais me procura!
vai para as outras!

esquece a mulher que sou
 que não mereces
e jamais voltarás a ter
 na tua cama!

ave carnívora
 voa embora 
leva teu veneno
leva tua tua dor 
não mais serei tua presa 
quebro as asas 
do teu amor

não mais te pertenço
não mais me dominas
nunca mais me verás 
não mais não mais 
não mereces mulher como eu!

mas antes
ama-me mais outra vez

mas antes
ama-me mais outra vez

wasil sacharuk 



flores de espera

 flores de espera 


tuas mãos riscam
 meu nome na areia 
o vento sopra 
 aos meus olhos

 perdida !
perdida ao teu toque 
tua balada
 anuncia sonhos
 amor e harmonia
vibram as cordas� 
nossa melodia 
(vibram as cordas� 
nossa melodia)

logo entras
sorrateiro
me habitas 
te demoras

tão inteiro 
me habitas
o vento leva a areia 
teu nome 
não se apaga

agora digas
do que  és feito
flores de espera
orquídeas talvez 
à espera 
da primavera
(flores de espera
orquídeas talvez)

queima  e arde
o  meu sal
 bebi a lágrima
do adeus 
e não fui

tão inteiro 
me habitas
o vento leva a areia 
teu nome 
não se apaga

wasil sacharuk 



SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...