Wasil Sacharuk (1967-2026) recusou o refúgio da lírica ornamental, construiu uma linguagem brutal: sangue, gesso, mármore, ferro, sal, vísceras. Na sua obra, a morte não é abstração, mas de lucidez cruel e aceitação estoica. Um confronto honesto com a finitude. O amor foi descrito com intervenções profundas e por vezes violentas. Tensão entre posse e liberdade. Sacharuk recusou a fé institucionalizada para situar o divino numa espiritualidade telúrica.
toda vez que espocava faísca no cérebro. espiralada no ventre, a serpente maior que jibóia, menor que sucuri, tremeluzia cores indefiniveis
náusea não cabia, apenas a necessidade de chorar sem emoção, falar sem razão.
mudava de pele a feiosa. naquela hora, a gosma viscosa desprendia da nojenta e ela, silenciosa, lentamente movia.
despertar era o que queria cada vez que a eletricidade percorria a espinha, impulsionada por forte assopro
a carne revirava ao avesso. quando acordou, nada de sobrenatural nada de dor, nada de medo. nada além do que já se sabia passou a morrer. sem apegos e sem assombro.
Maria bem queria que jorrassem... de qualquer inesgotável fonte... somente as boas... já que as más... ela relegara aos quintos da moralidade.
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Sabia que as palavras... são como aquela poeira... reunida semanalmente sobre o raque do televisor... a qual Maria limpa com ardor e sofreguidão.
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Talvez fosse conveniente abrir a grande janela da sala... e espiar a rua.
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Sua pobre gatinha não fala e nem lê... contudo não é cega. Acomodaria-se sobre o parapeito para observar as histórias diversas... e que não lhe dizem respeito... desfilando pelo passeio público.
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Possivelmente sua imaginação felina complementasse a narrativa urbana.
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Mas Maria também não queria saber que... no fundo... o problema era outro... e... novamente... dispensara outra ideia pic-tórica flamejante de falos e vaginas.
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As palavras... sempre elas... a incomodavam às raias da agressão. A humanidade perdeu-se do caminho... e eu estou contaminada... justificava Maria. Naturalmente... manteve a janela fechada.
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Voltou logo ao quarto... recolheu a bíblia sagrada de cima do criado mudo... e abriu numa passagem qualquer.
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Nos versículos jaziam as mesmas velhas palavras que... todos os dias... a curavam de si mesma.
as mãos trazem signos registros do destino a memória das sinas estigma-raio ametista pureza em vertente dedos e falanges os fluidos quentes
nas mãos parteiras queima a febre revolução indomável o enlace da corda senso e silêncio choro e grito osso e sangue cartada da sorte a dor da passagem cicatrizes na porta
as mãos parteiras trazem a voz os fachos da luz o primeiro vento a apontar o futuro no fio do muro entre as dicotomias
parteiras as mãos impulsionam nuvens de sonhos bálsamo e espinho a dureza dos calos num eterno caminho
das mãos parteiras a criação inaudita a sutileza do corte extenso e profundo a mais nova viagem de mais outro louco que insiste em testar os arcanos do mundo