poeta poeta

 poeta poeta 



poeta poeta
por que não te calas 
e apenas consentes?

quando calas 
sinto-te presente
o silêncio das pedras
consigo escutar

poeta aparvalhado 
desconheces o lugar
das escolhas coerentes
 de cor e salteado
sei teu jeito simplório
sei também teus intentos

permaneço abrindo poros
os meus e os teus
o sangue jorra vertente
sobre as folhas secas
apócrifas manchas
de sépia nas letras

poeta poeta
por que não escreves
de trás para frente?

o silêncio das pedras
consigo escutar

wasil sacharuk





vórtice ascendente

 


vórtice ascendente

tremia corpo inteiro
e assaltavam os poros

toda vez
que espocava faísca no cérebro.
espiralada no ventre,
a serpente maior que jibóia,
menor que sucuri,
tremeluzia
cores indefiniveis

náusea não cabia,
apenas a necessidade
de chorar sem emoção,
falar sem razão.

mudava de pele a feiosa.
naquela hora,
a gosma viscosa
desprendia da nojenta
e ela, silenciosa,
lentamente movia.

despertar era o que queria
cada vez que a eletricidade
percorria a espinha,
impulsionada por forte assopro

a carne
revirava ao avesso.
quando acordou,
nada de sobrenatural
nada de dor,
nada de medo.
nada além
do que já se sabia
passou a morrer.
sem apegos e
sem assombro.

apenas certezas
transmutadas
em escombros

wasil sacharuk











brisa leve

 brisa leve

pela janela aberta
sou vento e invado
corujo 
toco 
acarinho
 tu gostas
 
tão delicada
sussurras coisas
encantos quentinhos
ao pé do meu ouvido

te moves tão crua
ao distante oriente
guardiã dos absurdos
tua beleza de sol
se reflete na lua

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

e pouso minha face
no jardim bonito 
da tua flor cheirosa 
 
tão delicada
revolves as águas
invertes sentidos
eu canto baixinho

te moves nua
ao distante oriente
pelos cantos do mundo 
tua beleza de sol
se reflete na lua

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

e pouso minha face
no jardim bonito 
da tua flor cheirosa

wasil sacharuk




versículos

 Faltavam-lhe palavras.

...
Maria bem queria que jorrassem... de qualquer inesgotável fonte... somente as boas... já que as más... ela relegara aos quintos da moralidade.
...
Sabia que as palavras... são como aquela poeira... reunida semanalmente sobre o raque do televisor... a qual Maria limpa com ardor e sofreguidão.
...
Talvez fosse conveniente abrir a grande janela da sala... e espiar a rua.
...
Sua pobre gatinha não fala e nem lê... contudo não é cega. Acomodaria-se sobre o parapeito para observar as histórias diversas... e que não lhe dizem respeito... desfilando pelo passeio público.
...
Possivelmente sua imaginação felina complementasse a narrativa urbana.
...
Mas Maria também não queria saber que... no fundo... o problema era outro... e... novamente... dispensara outra ideia pic-tórica flamejante de falos e vaginas.
...
As palavras... sempre elas... a incomodavam às raias da agressão. A humanidade perdeu-se do caminho... e eu estou contaminada... justificava Maria. Naturalmente... manteve a janela fechada.
...
Voltou logo ao quarto... recolheu a bíblia sagrada de cima do criado mudo... e abriu numa passagem qualquer.
...
Nos versículos jaziam as mesmas velhas palavras que... todos os dias... a curavam de si mesma.

wasil sacharuk










apocalipse

apocalipse

no derradeiro minuto
do dia último
soou o apito
o diabo vestia candura
a cansada sofia
caiu no conto do sofista
sobre a ressurreição dos mitos
a moral abraçou a falcatrua
a graça esqueceu a poesia
a sorte desprezou a fortuna
a lua perdeu-se na rua

mas nenhum dos ninguéns
na face da terra
acometeu-se do ímpeto
sequer tomou susto
eis que os genuínos ninguéns
permanecem estúpidos

"os genuínos ninguéns
permanecem estúpidos" 

wasil sacharuk







parteiras

 parteiras


as mãos trazem signos
registros do destino
a memória das sinas
estigma-raio ametista
pureza em vertente
dedos e falanges
os fluidos quentes

nas mãos parteiras
queima a febre
revolução indomável
o enlace da corda
senso e silêncio
choro e grito
osso e sangue
cartada da sorte
a dor da passagem
cicatrizes na porta

as mãos parteiras
trazem a voz
os fachos da luz
o primeiro vento
a apontar o futuro
no fio do muro
entre as dicotomias

parteiras
as mãos impulsionam
nuvens de sonhos
bálsamo e espinho
a dureza dos calos
num eterno caminho

das mãos parteiras
a criação inaudita
a sutileza do corte
extenso e profundo
a mais nova viagem
de mais outro louco
que insiste em testar
os arcanos do mundo

wasil sacharuk



pacto de sangue

 pacto de sangue 


a mim tomaste
sem reservas
ao amor descabido
de estranheza
e loucura
nada pôde nos conter
nada!

no nosso inferno
fui tua
abriguei-te em mim

insólito amor
dos membros marcados
com dentes afiados
pacto de sangue
gotejou pelos cantos
das nossas bocas

selvagemente meu
e eu
deliciosamente tua
devoramos pedaços
ao assalto dos poros

toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos

foste a causa
da minha insanidade
amor desmedido
para ti me fiz linda
incandescência
deusa de carne

invadiste meus mundos
todos todos
plena entrega
tua voz úmida
inundou o meu olhar
ficou para sempre
criaste raiz
nas minhas células

fui tua mulher
semeei o teu nome
nos campos na lama
com dor e prazer

toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos

toquei sem as mãos
nos amamos sem corpos
ao torpor dos sentidos

wasil sacharuk



SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...