sétimo

 sétimo


dos rústicos sentidos
desde os despertos
aos adormecidos
há o sétimo
cáustico e drástico
do qual pouco sei

sou o ente humano
portanto sou lástima
imbecil paradoxo 
serventia e consolo
mortovivo de enganos
marionete dos tolos

de algum sentido absorto
 tom grave circunflexo
e insights desconexos
recito aos mortos
o monólogo da loucura

palavraria obscura
talvez híbrida
sequer pura
provida na noite
nos relatos das bruxas

no dorso da noite
 a sabedoria arde
os gritos se calam
a poesia sussurra 
e os mortos escutam

desprovida de  roupas
a poesia tímida
rende juras à musa
nas dores do sétimo açoite
golpeia o dorso da lua

a pitonisa louca
revisita a vida
vende grimórios e a cura
os mitos e  as criaturas

o grito retido
engasga no lume
da sabedoria
se restam queixumes
no hades da poesia

no dorso da noite
 a sabedoria arde
os gritos se calam
a poesia sussurra 
e os mortos escutam

wasil sacharuk



dezesseis pétalas

  dezesseis pétalas 

eflúvio de éter 
azul e laringe 
expressão e esfinge 
do meu eu
do meu ser 

para despetalar 
dezesseis pétalas 
é preciso começar 
pelas pontas 
até o rebento 
do meu centro 

plena voz 
de quatro elementos 
seus argumentos 
e sua dissolução 

para repetalar 
dezesseis despétalas 
é preciso terminar 
no centro 
onde converto o ar 
em sustento 

nó da sublimação 
até o mais alto 
um salto 
da evolução

wasil sacharuk




récita I

001

tudo muda
em absoluto
mas nada se vai
as coisas
se reposicionam 
nos interstícios
do que fomos

wasil sacharuk


002

não sei chorar
pelo canto do olho
apenas sei
chorar pelo avesso
por aquilo que não consegue sair
pelo que fica preso na garganta
como uma ave que recusa o voo

wasil sacharuk


003     

más lembranças
já nascem corrompidas
já trazem em si
a própria putrefação...
boas lembranças
essas sim
exigem certo luto
enquanto morrem lentamente
dia após dia
enquanto fingimos
que ainda respiram

wasil sacharuk


004

ela peneirava a areia
eu observava que ao pó
não se separa
o pó se metaboliza
narinas adentro
incorporado ao processo
da respiração

wasil sacharuk


005 

no canto do quarto
vejo uma teia
que a aranha tece sem pressa
sem arrependimento
sabendo que cada fio é uma sentença

wasil sacharuk


006 

escrevemos lapsos poéticos
não para escapar da realidade
mas para habitá-la de forma diferente
como quem dança sobre cacos de vidro
e chama isso de liberdade

wasil sacharuk


007 

éramos Hera e Hades
numa foda sem hierarquia,
nem divindade....
o fogo que não precisa
de nomes razões e conceitos
para queimar....
grito salto loucura cadência
os sons que faz o corpo
quando se reconhece inteiro
em outro corpo


wasil sacharuk    

quando findar nossa maldita existência
não haverá resistência
porque já não há nada a resistir
seremos apenas o que sempre fomos:
duas estranhezas
que se tocaram uma vez
e passaram o resto da vida
tentando esquecer o gosto da verdade

wasil sacharuk 










os setembros

os setembros 


estive  debruçada à janela 
 a vigiar o teu quarto  
 verti sangue em poesia
 enquanto as supernovas
 guardavam teu sono 

 estive absorta
 em lembranças aleatórias
 dos contos de sherazade 
e outras tantas estórias 
que contaste pelos campos 
ou deitada na tua canoa
 sob o voo das garças 
 as brancas  as pardas
 e os martins-pescadores 

 certas marcas deixadas
 pelo açoite das dores 
reuniram dois oceanos 
e  arderam na fogueira 
das pupilas distantes 
até morrerem no arcano 
do teu olhar diamante 

contemplei tua dança
 aos demônios de um rito 
em resposta
 aos sonhos vermelhos 
escritos nos versos infinitos 
da minha premonição 

 recitei raridades  
acerca das flores
 e do cão no quintal 
e logo soprei 
sementes brotadas de ti 
 e das coisas todas 
que te pertencem 

 uma era sem nome
 tatuou os seus signos 
e perpetuou os setembros 
agora descanso solene 
sob o solo 
enfeitada de orquídeas

wasil sacharuk







mortes pequenas

 mortes pequenas 


a vida se apraz
  entre o mais puro ínfimo 
  onde a ponta da língua
suavemente risca
pontos energizados
e circuitos  espocam
desprendendo faíscas       

a vida se apraz          
no lugar onde os fins
    se entregam aos meios     
 angústia que se enrosca 
e  contorce sem freio 
 (e  contorce sem freio )         
no atrito sem corte
nas lambidas amenas
causam múltiplas mortes
 vivamente pequenas

wasil sacharuk



chuva e raio

 chuva e raio

nas alturas 
 ventos dançam 
livres

ela Chuva 
 desperta
 pinga cristalina

ele Raio
 corta céus febris
�com luzes divinas 

ela Chuva 
desce mansa
 sensorial
beija folhas 

com ternura plena
derrama gotas 
perfumadas

ele Raio 
a contempla
 ser celestial
�forja estrofes 
iluminadas 

água e eletricidade
amor em poesia

ela Chuva 
recita os versos 
como um cântico 

em noites de encanto
canta a melodia 
do amor infinito

ela chuva 
ele raio
água e eletricidade
amor em poesia

wasil sacharuk





angústia

 



angústia

os teus motivos
amigo sujeito
são dilemas públicos
quando escolhes para ti
o que deve ser justo
escolhes também para todos
e todos pagam o tributo

sem desculpas
sequer refúgio
só angústia

tu és
amigo sujeito
condenado a ser livre
não podes escolher
deixar de escolher
não podes renunciar
a ter 4⁴
de escolher para ti
e para toda humanidade

sem desculpas
sequer refúgio
só angústia

e não há deus que te guie
e não há deus que te salve

wasil sacharuk 



SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...