pelada

 pelada 


Daquilo tudo o que eu era restaram somente palavras. Logo, não mais do que palavras é o que agora sou.  Alimento-me de sonoros substantivos. 

Fiz brotar húmus de flor para voltar ao princípio. Danço sapateando com o verbo.

Risquei um tempo insano sob o prisma de qualquer existência. Era tarde, quase noite, quando tremenda chuva de versos, diluídos ao whisky, derramou-se e, despudoradamente, fui banhada. Parti ao encontro da palavra pelada das roupas, das crenças e das ciências.

Desde então, fez-se outro o meu intento. 

Era maio, talvez setembro. Não sei ao certo... lembro apenas de ter visto um poeta pedalando uma bicicleta velha.

Dia desses tornei a vê-lo, sentado na asa de um avião.

wasil sacharuk 



inteira ou não é


inteira ou não é

ela não!
não é a mulher
que adora entre lençóis
ela aprende
 lentamente
que o amor persiste
quando o adorno cai
os lençóis se rasgam
e o rei nu
desce do trono
para descobrir
que é apenas
um homem

tão bela
tão si mesma
mas não quer ser espelho
pois a beleza
é domesticável
ela é a mulher
que conhece
a própria sombra
e não a nega

ela não se dá
em pedaços
não se traduz
nos versos alheios
ela é inteira
ou ela
não é

mulher ela é
a que não se rende
no seu próprio deserto
se a chuva atravessa
vai deixar cicatriz

ela sabe
o que alimenta
ela sabe
o que adorna a fome
e que só ela
alimenta a própria boca
com o que colhe
em si mesma

ela não vive
aos pedaços
não se traduz
nos versos alheios
ela é inteira
ou ela
não é

wasil sacharuk



hipotenusa

hipotenusa

o traço da mi'a vida hipotenusa
nas rimas mal inclusas nos sonetos
que passa por quartetos dor difusa
na rota que recusa o ângulo reto

e no vértice aberto está intrusa
a escrita que desusa o obsoleto
quadrado dos catetos soma escusa
a linha que acusa o longe e o perto

nem sempre que aperto parafusa
sequer encontro musa nos tercetos
nem sempre que eu tento sou esperto

nos versos encobertos jaz confusa
a letra inconclusa pelos ventos
traduz seu comprimento em dialeto

wasil sacharuk





SACHARUK - HIPOTENUSA Full - poesia falada


SACHARUK - HIPOTENUSA 

Hipotenusa da Alma: Wasil Sacharuk e a Poesia que Recusa o Ângulo Reto

HIPOTENUSA nos conduz por uma jornada onde a matemática encontra a melancolia. O poema abre com uma metáfora geométrica poderosa: a vida como uma hipotenusa, uma linha que foge do óbvio, do "ângulo reto", para se perder em rimas mal inclusas e sonetos que se desdobram em quartetos de dor.

A obra é um mosaico de reflexões sobre a identidade, a feminilidade inteira e a finitude. Wasil transita entre a rigidez dos catetos e a fluidez do vento, descrevendo uma mulher que "não se dá em pedaços" e que conhece a própria sombra. Há um mergulho profundo na solidão e no tempo, onde o poeta se vê reduzido a "sonoros substantivos", alimentando-se da própria palavra para sobreviver ao vazio.

 Wasil humaniza conceitos abstratos. Ele não apenas diz; ele atravessa os versos "olhos adentro". É uma obra essencial para quem busca uma poesia que não se rende ao óbvio e que celebra a beleza da imperfeição e da integridade humana. Ele nos fala de uma escrita que recusa o óbvio e de uma busca incessante pela palavra "pelada das roupas, das crenças e das ciências".

Wasil nos lembra que, no fim, talvez sejamos feitos apenas de palavras, mas são essas palavras que nos alimentam e nos permitem sapatear com o verbo diante do tempo insano.

 👇

"O vazio grita mais alto que qualquer voz."
"A beleza é domesticável. Ela é a mulher que conhece a própria sombra e não a nega."

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récita I

 001


tudo muda
em absoluto
mas nada se vai
as coisas
se reposicionam 
nos interstícios
do que fomos

wasil sacharuk


002

não sei chorar
pelo canto do olho
apenas sei
chorar pelo avesso
por aquilo que não consegue sair
pelo que fica preso na garganta
como uma ave que recusa o voo

wasil sacharuk


003     

más lembranças
já nascem corrompidas
já trazem em si
a própria putrefação...
boas lembranças
essas sim
exigem certo luto
enquanto morrem lentamente
dia após dia
enquanto fingimos
que ainda respiram

wasil sacharuk


004

ela peneirava a areia
eu observava que ao pó
não se separa
o pó se metaboliza
narinas adentro
incorporado ao processo
da respiração

wasil sacharuk


005 

no canto do quarto
vejo uma teia
que a aranha tece sem pressa
sem arrependimento
sabendo que cada fio é uma sentença

wasil sacharuk


006 

escrevemos lapsos poéticos
não para escapar da realidade
mas para habitá-la de forma diferente
como quem dança sobre cacos de vidro
e chama isso de liberdade

wasil sacharuk


007 

éramos Hera e Hades
numa foda sem hierarquia,
nem divindade....
o fogo que não precisa
de nomes razões e conceitos
para queimar....
grito salto loucura cadência
os sons que faz o corpo
quando se reconhece inteiro
em outro corpo


wasil sacharuk    

quando findar nossa maldita existência
não haverá resistência
porque já não há nada a resistir
seremos apenas o que sempre fomos:
duas estranhezas
que se tocaram uma vez
e passaram o resto da vida
tentando esquecer o gosto da verdade

wasil sacharuk 










dezesseis pétalas

  dezesseis pétalas 

eflúvio de éter 
azul e laringe 
expressão e esfinge 
do meu eu
do meu ser 

para despetalar 
dezesseis pétalas 
é preciso começar 
pelas pontas 
até o rebento 
do meu centro 

plena voz 
de quatro elementos 
seus argumentos 
e sua dissolução 

para repetalar 
dezesseis despétalas 
é preciso terminar 
no centro 
onde converto o ar 
em sustento 

nó da sublimação 
até o mais alto 
um salto 
da evolução

wasil sacharuk




peixes voadores

 peixes voadores


de todos os males
que se extirpem as raízes
se árvores sussurram
 decerto estão a conspirar
 
considere que esses entes 
amotinados em suas tristezas
porventura conspiram 
pelo próprio bem
e fazem da empreitada 
a salvaguarda da sanidade 

não suspeite de suas árvores
pois a maledicência não as cabe
 mas sim às ameaças
 que espreitam aos arredores
 do seu malfadado morro uivante 

prepararei a poção
 no entanto 
perceba-a falível 
em virtude 
de sua ação paliativa
a persistência da causa
 renovará os efeitos nocivos 
e esses tomarão grandeza
 ao passo em que se agregam
 ainda mais á rotina
 e à cultura do povoado

ainda hoje 
colherei as raízes 
e procederei os ritos iniciais
após a doce lua 
pousar um ou dois raios azulados
 sobre a solução
poderei solicitar 
que meu pupilo as entregue 
no Reino da Luz

enquanto aguarda,
 tranquilize suas árvores

com bem disse 
o Mago do Mar
os peixes mutantes 
são procedentes
 da Cidade das Nuvens
Entretanto, não se tratam 
de um produto da alta magia
mas sim
um procedimento evolucionário
 comum a essas espécies

 esses estranhos animais 
não tardam a buscar
 os recursos adaptativos
 que a cadeia de eventos solicita
 Por essa natureza 
é que subsistem com tanto vigor
 
se chover
nascem-lhes remos
se o Vulcão Terra cuspir sua lava
 os peixes voadores 
se fazem duramente encouraçados

 há de se esperar pela conclusão
 da Era das Chuvas 
e o início da Era dos Ventos
quando logo crescerão suas asas
 enquanto seus remos diminuirão

 mas saiba cara Fada
que os remos não sucumbirão
pois o signo 
da experiência evolutiva
 jamais se apaga 
da memória física de um ser

as sementes de frases incríveis
 iluminarão os sorrisos presentes 
no Festival dos Magos

agradeço a cortesia 
do envio dessas raras espécies.
 aproveito para pedir-lhe
 que nos honre
 com sua presença luminescente 
no festival

entre os preparativos dessa safra
 contaremos com um sarau 
onde os poemas 
declamarão seus poetas

que sua paz
 seja profunda

wasil sacharuk 





SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...