poesia de graça

 poesia de graça


das mulheres
és a que quero
a que não posso querer
mas talvez algum dia...

Danielas Sofias Macabéas
Gilcinéias Maristelas Bias
Angelas Patrícias Marias

listar substantivos próprios
de gênero feminino
é artifício consagrado
que ninguém mais atura
é puta chavão
nos meandros da literatura

das mulheres
és a que quero
a que não posso querer
mas talvez algum dia...

Julianas Cibeles Berenices
Anas Francieles Fabianas
Cristinas Grazieles e Lias

bebi minha cachaça
logo após meiodia
sentei no banco da praça
para ler poesia
na internet de graça

agora digo deboas
já li Fernando Pessoa
mas prefiro Bento Calaça

wasil sacharuk


(Bento Calaça)


nota:

 "Poesia de Graça" transita entre a lirismo amoroso, a metalinguagem e a crítica à prática poética contemporânea, tudo isso embalado em um tom irônico e coloquial. O título, por si só, já antecipa a multifacetada "gratuidade" que a poesia pode apresentar: seja na sua disponibilidade (internet de graça), na sua leveza e despretensão, ou mesmo na sua desvalorização.

O poema inicia e repete o refrão que estabelece um desejo amoroso: "das mulheres / és a que quero / a que não posso querer / mas talvez algum dia...". Essa estrofe introduz uma figura feminina idealizada e, ao mesmo tempo, inatingível. A repetição dessa ideia central reforça a constância do desejo, mas também a persistência de uma barreira, criando um ar de melancolia e anseio. A promessa "mas talvez algum dia..." adiciona uma nota de esperança, embora tênue, à essa busca.

A lista de nomes femininos ("Danielas Sofias Macabéas / Gilcinéias Maristelas Bias / Angelas Patrícias Marias") é o ponto de partida para a metalinguagem e a crítica literária do poema. O eu-lírico reconhece que "listar substantivos próprios / de gênero feminino / é artifício consagrado / que ninguém mais atura / é puta chavão / nos meandros da literatura". Aqui, Sacharuk ironiza a repetição de clichês e "chavões" na poesia, mostrando uma consciência do fazer poético e um desejo de romper com o que ele considera fórmulas batidas. Essa autocrítica, no entanto, não o impede de continuar utilizando o recurso, o que reforça a ironia e a ideia de que, mesmo ciente da crítica, o poeta ainda se permite essas "licenças poéticas".

A segunda parte do poema mergulha no cotidiano e na despretensão do ato de consumir poesia. O cenário é simples: "bebii minha cachaça / logo após meiodia / sentei no banco da praça / para ler poesia / na internet de graça". Essa imagem contrasta com a visão elitizada da leitura poética, sugerindo que a poesia pode e deve ser acessível e desfrutada em momentos de lazer e descontração. A menção à "internet de graça" sublinha a democratização do acesso à literatura, removendo barreiras econômicas e sociais.

A conclusão do poema é um golpe final de ironia e afirmação de gosto pessoal. "agora digo deboas / já li Fernando Pessoa / mas prefiro Bento Calaça". Ao mencionar Fernando Pessoa, um dos maiores nomes da literatura portuguesa, e em seguida afirmar a preferência por "Bento Calaça" (um grande e admirado poeta da internet, já falecido), reforçando a ideia de preferência por algo não canônico ou mais "autêntico", Sacharuk subverte a hierarquia literária. A expressão "deboas" reforça o tom coloquial e descontraído, consolidando a ideia de que a poesia não precisa ser um fardo intelectual, mas algo que se desfruta livremente, "de graça".

"Poesia de Graça" se constrói na tensão entre o sentimento amoroso, a crítica à forma, a apreciação despretensiosa da arte e um humor irônico que permeia toda a obra. Sacharuk brinca com as expectativas do leitor e da própria tradição literária, entregando uma poesia que é, de fato, "de graça" em múltiplos sentidos: livre, acessível e sem as amarras das convenções.

água de rio

 água de rio


poema de água de rio
estrofes de mágoa e de frio
versos secos ao vento
salpicados de areia
poesia lírica sereia
canto onírico e lamento
melódico fio que cai lento
rimas que cursam as veias

poema maré lua cheia
ritmo gelado sombrio
num tom engasgado e senil
sem significado ou intento

poesia sem nó argumento
enlace de versos vazios
dor que corrente entremeia
as palavras feias

wasil sacharuk



vitruviano

 vitruviano


vitruviano cânone
da proporção áurea
e linhas harmônicas

tua beleza clássica
perfaz matemática
dos corpos torneados

vitruvianos ângulos
da perfeita estética
dos traços formosos

a ti
e aos homens nus
o inverno impiedoso
chegará outra vez

wasil sacharuk





andarilho

 andarilho 


tão mágica 
a engenharia
que projeta caminhos
nos mapas da consciência

atravessa blocos de fundação
               e paredes soerguidas
              com palavras caladas
       sobrepostas ao abandono
                condenadas ao sono

mas o pensamento andarilho 
chuta pedras
 pelas estradas
com sua algibeira de sonhos

wasil sacharuk


notas:

 "Andarilho" é uma reflexão sobre o poder do pensamento em transcender barreiras e construir novas realidades internas. A obra explora a jornada da mente como um engenheiro e viajante incansável.

O poema se inicia com a imagem da "mágica engenharia" que "projeta caminhos nos mapas da consciência". Essa metáfora sugere que o pensamento não é apenas um processo passivo, mas uma força ativa e criativa, capaz de desenhar e moldar a própria percepção da realidade. A mente é apresentada como uma construtora, alguém que planeja e estrutura o universo interior de cada indivíduo.

A expressão "com palavras caladas sobrepostas ao abandono condenadas ao sono" é particularmente evocativa. Ela sugere que muitas barreiras são construídas por experiências não ditas, emoções reprimidas ou memórias esquecidas, que jazem dormentes na consciência, mas ainda exercem influência. O pensamento, no entanto, tem a capacidade de atravessá-las, de trazer à luz o que estava oculto e, assim, desmantelar essas construções internas.

A "algibeira de sonhos" é uma imagem poética que representa a esperança, a imaginação e os desejos que impulsionam o pensamento. Mesmo diante das "paredes soerguidas" e das "palavras caladas", o pensamento continua sua jornada, carregando consigo o potencial de criar e reinventar. 

"Andarilho" celebra a resiliência e a inventividade do pensamento humano e lembra que, embora possamos carregar o peso de nossas construções internas e de experiências passadas, a mente tem o poder de se libertar, de desbravar novos caminhos e de transformar a consciência, movida pela força inerente dos sonhos e da busca incessante. É um convite à introspecção e ao reconhecimento da nossa própria capacidade de superação mental.




nesse outono

 


nesse outono🍂
se eu te sol
👄tu me chuvas?

wasil sacharuk


A Centopeia Dividida

 

A Centopeia Dividida

Tatuzinho era bruxo malvado 
e discutiu com a centopeia 
daí teve a péssima ideia 
de fazer um feitiço irado

Ficou escondido na areia 
praticou o ato mais feio 
seu feitiço dividiu ao meio 
e fez duas cinquentopeias

A abelha testemunhou tudo 
da porta da sua colmeia 
e convocou uma assembleia 
para tratar desse absurdo

Aquele tatuzinho era insano 
muito famoso em toda aldeia 
esperava a noite de lua cheia 
para traçar os seus planos

As cinquentopeias medrosas 
decidiram permanecer unidas 
mas estavam muito perdidas 
e nem se entendiam na prosa

Sob as penas de uma galinha 
o Piolho Velho era a liderança 
comentou que havia esperança 
se chamasse a dona Joaninha

Joaninha era boa feiticeira 
e talentosa na matemática 
decerto conhecia a prática 
de fazer centopeia inteira

Então a bruxinha competente 
com toque de magia esperta 
refez a centopeia completa 
e os bichos ficaram contentes

E o malvado do tatuzinho? 
Ah! Ele é muito teimoso 
em vez de ser mais amoroso 
prefere viver sempre sozinho

wasil sacharuk











da contradição

 da contradição 


a religião
morde teus pés
bocarra faminta
igual jacaré
parece absurdo
decerto não é
o humano animal
no templo de cristal
com cruel pretensão
ostenta a compaixão
mas trata desigual
em nome da fé

wasil sacharuk



SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...