Os demônios do esquecimento

  Os demônios do esquecimento

Na noite do pensamento, diante dos trabalhos mágicos, o velho abade percorreu imagens trágicas advindas de um tempo distante. Nelas, soaram os gritos da agonia, reproduziram o assassínio das crianças e a tomada das terras raras, cultivadas pelos seus antepassados. Desejou de volta a honra das conquistas e clamou tardia vingança. Para tal, evocou magnífico espírito a discorrer os grimórios. Sobre o altar dos sacrifícios, derramou símbolos embebidos em sangue inocente.  

Visível somente aos olhares experimentados, uma forma inconcebível pairou quase dois metros do chão, servil em seu silêncio, oriunda das maquinações do clérigo ocultista. 

Descrita nos oráculos da sacerdotisa e criptografada nos relatos sacros, a criatura exibia conformação semelhante as de outras formas humanas sempre que assim o desejava, entretanto, subsistia imperecível a nutrir-se do fluido das memórias ancestrais.  Veloz em qualquer domínio, atendia o chamado das águas, do fogo e do ar e, ainda, podia interceder junto aos reinos sob a égide das virtudes, mas também, sob o estorvo dos enganos e dos vícios. Acaso falasse aos humanos, a criatura desprezava os ruídos da fala. Adentrava a mente dos homens quando desejava, enfim, nutria-se do esquecimento que os acometia.

O velho abade sussurrou um madrigal consagrado à deusa das vertentes e logo viu irromper o dragão que rastejou, saltou e, oportunamente, se revestiu de humanas feições. Eis que o fenômeno da transmutação se revelava não apenas aos virtuosos, mas aos de espírito dedicado.

Incorrupta, a maravilha criada pelo abade não serviu a outro que não o seu artífice.  Pelos dias do outubro se estendeu a vingança do clérigo.

Sem que o percebessem, o dragão bestial perpassou as portas das memórias humanas até adentrar o último recôndito. Lá, depositou o tridente sob o signo ígneo da serpente e consagrou a morte das lembranças.

O mestre Gerard negociou com os demônios personificados nas três faces da criatura o final da tragédia. Como trégua, o abade aceitou a oferta de dez cabeças dos melhores profetas da aldeia. De cada qual, faria verter as memórias pelo breu do esquecimento fatal. 

A criatura dos grimórios evocou um tempo de indiferença. Não poderia, o povo de Gerard, no esquecimento das suas máculas, almejar a misericórdia. Era necessária a consciência viva do passado algoz, a experiência dos caminhos malfadados. O futuro pedia pela lembrança do passado.

Gerard sentiu medo. Solitário diante do destino ingrato extirparia as cabeças de seus profetas ou, então, permitiria o esquecimento. E sua incapacidade de escolher fez deflagrar longo período de trevas.

Dos píncaros da cadeia montanhosa podia-se avistar a longitude do vale. As reminiscências se estendiam secas e o povo de Gerard suplicou pelo fim da grande estiagem. O mar já não mais precipitava o pensamento dos sábios e profetas. O sol evaporou as últimas lembranças. Proclamaram-se dias de desespero. O povo esquecido a nada mais respondeu. Apenas sucumbiu pelas montanhas escoltado pelo olhar vigilante dos demônios do esquecimento. Oração foi o que lhes restou. Num transe místico rasgaram suas próprias carnes com as rochas pontiagudas, até seu sangue derramar sobre a terra.

No vale das memórias apagadas, o chão de sangue e esquecimento expiou o perdão. Sem memória, não houve o aprendizado, nem as fórmulas da agricultura, das artes e da felicidade. Sem a memória, não houve alimento.

Gerard foi, diante dos estúpidos, o culpado, ainda que sequer disso lembrassem.

wasil sacharuk




tua geometria

 tua geometria


o crop quadrado
orientação de retrato
teus membros oblongos
formam retângulos
sugerem perspectivas
perfazem mil ângulos
e ao centro emparelhados
dois bicos eriçados
te coroam os redondos

wasil sacharuk



notas: 

 "Tua Geometria"  utiliza termos geométricos para delinear uma figura humana de forma abstrata e objetiva.

O poema começa com uma linguagem que remete à fotografia ou à composição visual: "o crop quadrado / orientação de retrato".  Essa escolha de termos já introduz a ideia de que a figura será analisada em termos de suas proporções e delimitações.

"teus membros oblongos / formam retângulos". Os "membros oblongos" (alongados) naturalmente se assemelham a retângulos, uma forma básica e fundamental na geometria.
A ideia de que as formas "sugerem perspectivas / perfazem mil ângulos" amplia a complexidade da observação. Os "mil ângulos" reforçam a riqueza de detalhes e a capacidade da geometria de descrever a diversidade de formas e volumes presentes. Há uma sensação de que cada parte, cada linha, contribui para uma composição maior e multifacetada.

 "e ao centro emparelhados / dois bicos eriçados / te coroam os redondos". Essa é a parte mais enigmática e sugestiva. A menção a "dois bicos eriçados". A imagem é intencionalmente vaga, permitindo múltiplas interpretações e mantendo o foco na forma e não na identidade explícita. 

"Tua Geometria" se destaca pela sua originalidade. Ele nos faz olhar para além do óbvio, desafiando-nos a ver a beleza e a complexidade nas estruturas básicas que nos rodeiam. É uma obra que brinca com a abstração e a concretude, evidenciando como a matemática e a arte podem se entrelaçar na percepção.

adjunto de xingamento

 adjunto de xingamento 

meteu com tudo
um acento agudo
bem no olho do ú😬
o oxítono dolorido
ortograficamente ferido
consultou o gramático sisudo🧐📚
que apresentou seu estudo:
"no cu não se bota acento
exceto se o cú referido
seja adjunto de xingamento"🙉

wasil sacharuk



das noites sozinhas

 

das noites sozinhas 


dorme ao meu lado 

sob o açoite do frio

seremos o abrigo

a couraça 

que protege e abraça

ao melindre das horas 

que contam teus medos

que contam os meus 

sessenta e seis tipos

de nós cabalísticos


fagulhas coloridas 

delicadas desprendidas 

caídas por descuido 

dos braços do remanso

 murmuram a esquizofrenia

das nossas noites sozinhas


wasil sacharuk




o benquererte

  o benquererte

o benquererte
testou a complacência 
da maré 
desafiou a liberdade
do grande oceano
mergulhou os pés
à margem dos enganos
e o rio provou o revés
engoliu a foz
estourou os canos

wasil sacharuk



Lavínia

 Lavínia


sacolejas tanto
o teu oco insano
arremessando as roupas 
trepidando no canto

chacoalhas os arreios
temperando águas loucas
ao desmaio dos panos

no entanto
tudo isso é engano
coisas que invento
 incertezas tão tontas
que pegam no tramco

e falam sobre o anseio
de cair na tua boca
centrifugado nos flancos

wasil sacharuk



e se for pecado?

 e se for pecado?


dos pecados 
não me arrependo
sou desobediente
 ovelha infiel
 o avesso da crente

me faço purificada
 não sou a criadora
 nem manipuladora
 do motor imóvel adulterado

nenhum pecado confesso
 não sou penitente 
minha água benta é ardente

mantenho meus vícios 
meus ofícios 
meus artifícios 
a reza de trás para frente 
no rosário de uma serpente

e gosto de dinheiro, muito
de boa comida 
da vida bebida
 algum excesso
 algum descontrole

e continuo irada
 depravada odiada
 rancorosa raivosa
luxuriosa preguiçosa
 nada caprichosa
 soberba... implacavelmente soberba

qual beato abençoado 
me fará dizimada
 por uma ameaça ridícula 
de um medo infundado?

e se for pecado?
não é problema meu
me sinto agraciada
 por tudo que a vida me deu

wasil sacharuk




”E se for pecado?” recitado por Dani Maiolo

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