colher de pau

 


colher de pau

bati ovos até nevar
e ela sentiu a aeração
daquela textura
conferiu a consistência
lambeu a doçura

caiu de beiços
na pontinha açucarada
na sequência
 espargi leite fresco
na tigelinha melada

wasil sacharuk



nuanças verdes

 nuanças verdes


debaixo daquela árvore
a sombra lembra o desígnio
tal um signo
feito fantasma
luz do espírito
ou apenas miasma

debaixo de árvores
enterram-se as mortes
tanto as de azar
quanto as de sorte
daí brotam raízes
as fracas e as fortes

debaixo daquela árvore
há um fruto esmagado
por fatalidade ou pecado
porém dá na mesma
um sonho pisoteado
desfaz-se que nem lesma

debaixo de árvores
riscam os raios
que vêm das estrelas
os horrores mais feios
as mais lindas belezas
dos verdes mais cheios
e de suas fraquezas

wasil sacharuk



fé de outro

  fé de outro 

sou vivente 
de pouca fé
e não sou tapete
pra cristão bater pé
sei muito bem como é
melhor ir descrente pra frente
do que ir crente de ré

wasil sacharuk



cruzes e pedras

 cruzes e pedras


trocando em miúdos
nesses tempos
quintanamente bicudos
esmoreceu tanta luz
a renascença das trevas

quem teve fome de medo
carregou muita cruz
quem teve medo de fome
carregou muita pedra

orações e lamentos
largados ao vento
os vazios do amor
em sentenças e nomes

o suor de labor
e a lágrima da dor
nada mais que intentos 
para outra rima pobre

wasil sacharuk

yasar koç





sejas o brasileiro

 sejas o brasileiro 


sejas o brasileiro
que o brasil precisa
e não o otário
que o brasil quer

nada adianta
bancar o cidadão
que não és
nada adianta
ser destro ou canhestro
quando tua fuça
só aponta para baixo
nada adianta
discutir economia
quando não sabes 
fazer uma conta "de mais"

catas moedas numa caneca
entre teus pés infestados
de frieira e de fungo
feito paspalho moribundo
enquanto passas pano
para todo esse bando
de políticos vagabundos

sejas o brasileiro
que o brasil precisa
e não o otário
que o brasil quer

wasil sacharuk



três macaquinhos



três macaquinhos

você não vê
as marcas do escarcéu
condena o ateu
condena o incréu
não
você não vê
sequer vejo eu

você nunca sabe
quando fudeu
entrega tudo a deus
que também nada sabe
muito menos
sei eu

você que não ouve
os gritos nesse bordel
os argumentos do réu
não
você não ouve
sequer ouço eu

você não entende
o que aconteceu
nem no inferno
e nem no céu
que não se entendem
nem eu

você que não fala
e vive nessa Babel
em pleno apogeu
não
você não fala
sequer falo eu

wasil sacharuk



o descrente

 o descrente


A razão, ainda que sobrepujada, é imbatível. A consciência, ainda que ultrajada, é inevitável. No confronto com a solidão um homem achou a inexistência divina, quando nenhuma criatura se apresentou para ocupar a vacância dos espaços e amainar as dores inexplicáveis. Finalmente entendeu que a crença é o indeclinável compromisso de enfiar um deus em todas as coisas. Subterfúgio humano institucionalizado. Sobrava ao referido deus a crença que faltava aos filhos, que faltava à árvore antiga, ao sorriso desdentado do seu avô. Era desperdício de foco. A crença passava dia todo sentada num trono comandando facções criminosas sob a adoração dos seus escravos. Morava nos parágrafos das deontologias que entoavam discursos medievais ao domínio das massas. Tanta súplica pela salvação dirigida a um deus surdo. Tal homem, agora, apenas admira aqueles vitrais cortados por feixes de luz e a persistência daquela poeira oculta nas sombras dos templos. Sabe ele que os artistas são deuses extraordinários, artífices das coisas belas, da música, da poesia, da pintura, da escultura. Nos signos da criação se guarda o verdadeiro embrião de divindade. Entendeu que o amor não é monopólio das crenças e é a chave que abre todas as portas. Agora ele é realmente feliz, sem nada pedir, sem nada dever.

wasil sacharuk









SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

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