lua e mais nada

 

lua e mais nada

vejo novembro
sob o foco lunar
íris de ouro e prata
tom nostalgia
luzindo a noite calada
em mim só encontro a lua
e mais nada

vejo novembro
sob prisma de poesia
corpo envolto ao véu
 seduz e insinua
toma brilho do sol
e oferece à rua
espelha a face de Apolo
em calor e ousadia

vejo novembro
sob facho na estrada
 eloquência das marés
verves alteradas
nas danças insanas
nos saraus da geologia
na cegueira dos olhos
quando a noite recua

vejo novembro dormir
enquanto dorme a lua

wasil sacharuk







cabocla

 cabocla

caboca da tez tatuada 
verde vestido ao vento 
pedala a bicicleta velha 
nos caminhos de fogo da terra

caboca sabe que o mar
apaga o fogo da terra
que a lua brilha na serra
também movimenta maré

caboca aos passos lentos 
entrecruza as queimadas 
sua voz encanta a toada
embalando os lamentos

caboca tem pé jenipapo
e tem outro pé canindé
carnaúba cerrado banana
tem coco tem sede tem fé

caboca do pé de serra 
alma rendada de birro  
 forja nas incertezas
 a resignação e a espera

caboca tem nome de ana
alice francisca maria 
tem maracatu tem poesia
na festa de são josé

caboca do sacramento 
das mulheres abnegadas 
da vida que não cobra nada 
além dos próprios tormentos

wasil sacharuk 





SACHARUK - CABOCLA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - CABOCLA 
A Polifonia Lírica de Wasil Sacharuk

CABOCLA mescla a crueza do cotidiano com a delicadeza da métrica, o poeta Wasil Sacharuk reafirma seu papel como um dos grandes intérpretes da alma brasileira. Através de uma sequência de poemas que visitam desde a força das lavadeiras até os dilemas do "poeta menino", o vídeo é um convite à pausa e à contemplação emocional.

A jornada começa com "Caboca", uma ode à mulher sertaneja, marcada pela fé e pela resignação. Em seguida, "ALua e mais nada" traz uma atmosfera onírica, onde o tempo é medido pelo "facho na estrada" e pelo "foco lunar". A performance atinge um ponto de introspecção em "Verde de limo", revelando a vulnerabilidade do artista que se vê como uma "pedra verde de limo, inerte".

A fDestinoorça feminina retorna em "Mulheres Antigas", destacando a "virtude mágica" das lavadeiras, cujas mãos imprimem na água as dores da vida. O encerramento com "Coruja" e "Verve" oferece uma reflexão metalinguística, onde Sacharuk brinca com a própria rima, admitindo que ela é a "danada que manda na maldita poesia".

"Caboca tem nome de Ana, Alice, Francisca Maria... tem maracatu, tem poesia na festa de São José."
"Em mim só encontro a lua e mais nada."
"Tenho sido vacilo, precipício e desatino. Poeta preso no estilo, tal cavalo no arreio."
"Sobre as dores imprimiam as suas linhas da vida."
"E teu olhar de coruja na poesia ilumina meu abismo infinito."

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maio24

maio24

Lembro quando a natureza, naquele dia de maio, derramou a avalanche d'água. Vinha pelo chão a torrente que portava a essência de múltiplos rios, todos misturados, de resíduos e densidades vertentes. 

O destino é inexplicável e parecia imbuído de um fim. Naquele dia eu o amaldiçoei ingrato e injusto.

Na iminência do desastre, os pais procuravam seus filhos, os filhos aos pais, e, por fim, aos melhores amigos. Corriam e nadavam o quanto podiam, mas paravam sempre que suas mãos estendidas se faziam necessárias. Mãos corajosas que salvaram vidas.

Experimentei certa consciência de existência, algo que, até aquele dia, eu desconhecia.

Emanava um signo divino de cada mão voluntariamente estendida. Eu vi as lágrimas a lavar as individualidades e se mesclar ao movimento insano das águas. Mas, as lágrimas sequer interessavam. 

Lembro dos helicópteros a sobrevoar o entorno. Os militares instruiam os populares através dos megafones. Suas vozes embargadas pronunciaram instruções precisas e objetivas. Jogavam cordas em meio àquele oceano quase artificial que se instituiu na zona urbana da cidade. 

Vi um jovem lutar contra a correnteza furiosa enquanto tentava atar uma das cordas ao corpo frágil de sua avó. Vi crianças elevadas ao telhado das casas, junto aos seus cães. Protegiam pequenas sacolas que comportavam os documentos e as economias das suas famílias.

Sobre os telhados, as crianças nada podiam fazer. Apenas aguardavam pelos pais que talvez não voltassem.

Fez-se na arborizada praça central uma grande piscina. O balanço infantil de madeira pintada em vermelho e o escorregador azul, agora boiavam soltos pelas águas e serviam de amparo e descanso aos que lutavam pela sobrevivência. 

Naquele dia eu, incrédulo, vi a essência da vida a se destemperar líquida. Eis que a crueza dos fatos enfraquece o dom de prosseguir, de criar. 

Estava tudo lá, tão destruído, enquanto eu observava da janela de vidro do terceiro andar. E hoje lembro do dia que há tempos quero esquecer. 

Todavia, de cada molécula de medo se fez uma nova vontade de existir. Pois agora está novamente tudo lá, reconstruído e recomposto, e ainda mais. A praça tem novos brinquedos, mais do que havia antes. As árvores que quedaram deram lugar ao viço de uma nova natureza planejada e linda. Na periferia, uma nova vegetação se insinua, constituída pelo dna estranho trazido pelas águas viajantes que se juntaram. 

Era para ser novamente. E assim é.

Uma força descomunal argumentou com o tempo e recriou vida nos canteiros ameaçados pela morte e pelo medo.

Naquele dia eu soube que das sementes da gratidão, sempre brotará nova coragem para recomeçar. O tempo, invariavelmente, tem a razão.







oigalê

 oigalê


o que restou
do nosso universo
não enche um verso
o que importa?

na velha casa
não há mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

tudo o que vemos
distante uma milha
da janela vazia
é a árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita

nela amarrei a razão
para viver da lembrança
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei
e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora

wasil sacharuk







bandas da saudade

 bandas da saudade


sessenta pilas de apara
costela gorda de gado
a carne ficou muito cara
para o índio assar solito
sem fumo 
sem fogo no pito 
de costume cevo o amargo
entorno uns goles de trago
e lembro dos meus piazitos
campeando no pátio da casa

jogo no braseiro
cebolas
daquelas bem fortes
colhidas das terras crioulas
lá das bandas da cidade
de São José do Norte
espanto o azar da saudade
mudo o rumo da sorte

lombo que assa na brasa
encilhado na ripa do osso
eu e o guaipeca Tibúrcio
seco os alentos da cambona
sorvendo lágrimas redomonas
mas hoje a saudade não ganha
boto um liso de cana
ouvindo milongas do Plata
saudade cantada não mata

jogo no braseiro
tristezas
daquelas bem fortes
colhidas das minhas fraquezas
lá das bandas da saudade
donde veio a trote
espanto o azar da saudade
desvio o rumo da morte

wasil sacharuk








estrelas calaveras

  estrelas calaveras


no pampa estendido pela distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada afagando o guaipeca
no cepo defronte à tapera

eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
esquentar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
daquela chinoca bonita

um regalo escolhido a capricho
comprado lá na fronteira
um novo corte de chita
ou qualquer outra fazenda
que deixasse o tranco da prenda
macanudo a cada visita

de já eu encilho o futuro
no más meu chapéu eu penduro
num prego pelo barbicacho
descanso a bombacha e as botas
tenteio o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas

num trago eu afogo as queixas
já que a saudade não deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartaram dos velhos pelegos
a minha xirua faceira

wasil sacharuk 








SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...