capuchinho

 Capuchinho


vermelho era o pecado
tingido na vã inocência
ela andava só sem licença
trazia doces confeitados
de sabores atávicos 

no seu cesto de enlaces
os sonhos de chocolate
deleites aos vícios
e um caderno riscado
com versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

perseguia o auspício 
de desafiar o velho lobo
seduzido ao escopo
de logo comê-la 

e assim a pequena
melindrada cobria a cabeça
no rubro pano
 que a desonra do engano
jamais lhe apareça

wasil sacharuk






contabilidade

 contabilidade


andei vasculhando as gavetas
 memórias de fatos bloqueados
tsunamis
naufrágios 
e tormentas
aos confins da história relegados

andei projetando o pré sessenta 
na esteira dos anos repassados
procurei obter as ferramentas
que rompem o ferro 
dos cadeados

andei repensando meus propósitos
 revisitei toda vida 
quadro-a-quadro
na fileira dos pensamentos vagos

andei recontando meus depósitos
persegui os valores debitados
e entendi o saldo 
dos estragos

wasil sacharuk






notas:

"contabilidade" é uma profunda e introspectiva viagem ao universo da autoanálise e do balanço existencial. O título, aparentemente frio e técnico, contrasta com a riqueza emocional e as imagens evocativas do texto, revelando uma metáfora para o ato de confrontar o passado e planejar o futuro, buscando um entendimento do próprio "saldo" de vida.

 "vasculhar as gavetas", uma imagem que imediatamente remete à busca por lembranças e experiências guardadas. No entanto, o que emerge não são apenas memórias, mas "memórias de fatos bloqueados", sugerindo traumas ou eventos dolorosos que foram reprimidos. A intensidade dessas lembranças é expressa por metáforas poderosas: "tsunamis, naufrágios e tormentas". Essas palavras evocam desastres naturais de grande magnitude, transmitindo a ideia de eventos avassaladores que marcaram profundamente a existência do eu-lírico e que, por algum motivo, foram "relegados aos confins da história". Há uma tentativa de esquecimento ou afastamento desses momentos difíceis.

Na segunda estrofe, o olhar do eu-lírico se volta para o futuro, especificamente para o "pós-cinquenta". Essa fase da vida é vista como um marco, um momento de balanço e planejamento. A busca por "ferramentas que rompem o ferro dos cadeados" é uma metáfora poderosa para a procura por meios de libertação, seja de amarras emocionais, padrões antigos ou bloqueios que impedem o avanço. É um desejo de se desvencilhar do que prende e limita, de encontrar soluções para os desafios que se apresentam ou que se acumularam ao longo dos anos. A "esteira dos anos repassados" sugere uma reflexão sobre o tempo que passou e como ele moldou o presente.

"Andei repensando meus propósitos" indica uma reavaliação dos objetivos e do sentido da própria existência. A imagem de "revisitei toda vida quadro-a-quadro" é vívida, como se o eu-lírico estivesse assistindo a um filme de sua própria trajetória, examinando cada cena, cada decisão, cada evento. Essa revisão é feita "na fileira dos pensamentos vagos", sugerindo um processo que pode ser caótico, com ideias e lembranças surgindo sem uma ordem linear, mas que culmina em uma análise abrangente.

A estrofe final retoma a metáfora central da contabilidade. O eu-lírico "recontou meus depósitos", que podem ser interpretados como as experiências positivas, os investimentos emocionais, as conquistas. No entanto, ele também "persegui os valores debitados", ou seja, as perdas, os fracassos, as dívidas emocionais ou as desilusões. A conclusão desse meticuloso balanço é a compreensão do "saldo dos estragos". Essa frase sintetiza a dor e o peso das perdas e dos erros, mas também sugere uma aceitação e um entendimento. A contabilidade da vida, ao final, revela que nem tudo são lucros; há um preço a ser pago, e reconhecer esse "estrago" é um passo crucial para a aceitação e o aprendizado.





SACHARUK - VERMELHO Full - poesia falada spoken word

  Wasil Sacharuk em uma Jornada de Memórias e Mitos

Você já sentiu que sua memória é um cesto de enlaces, misturando sonhos de chocolate e versos rasgados? No vídeo mais recente de Wasil Sacharuk, somos levados a uma viagem sem filtros pelos nossos depósitos emocionais.

Wasil nos lembra que, às vezes, é preciso ser "antropófago" de si mesmo para sobreviver à noite solitária dos nossos mitos. Uma performance que transborda ritmo e verdade.

A suíte poética que atravessa diferentes estados emocionais. Começa com um mergulho introspectivo em memórias bloqueadas ("Andei vasculhando as gavetas"), evoluindo para uma reinterpretação transgressora de mitos clássicos, como a "Capuchinho" (Chapeuzinho Vermelho), onde a inocência é tingida de pecado e desejo. 

Os temas centrais orbitam a dualidade entre a solidão e a liberdade, a dor da exaustão e a esperança de um "novo amor". Sacharuk utiliza a metáfora da antropofagia para descrever a sobrevivência emocional — uma "alquimia dos elementos" que transforma chagas em cicatrizes.

A reinterpretação que ele faz do mito da "Capuchinho" é de arrepiar, trazendo à tona a "vã inocência" e os desejos que habitam o escuro das florestas — e das nossas mentes. É um convite para entender o saldo dos nossos próprios estragos.

"Andei vasculhando as gavetas. Memórias de fatos bloqueados, de tsunamis, naufrágios e tormentas."

"Vermelho era o pecado tingido na vã inocência."

"Estou assim tão só enquanto ela dorme. Vivo assim tão só quando ela é livre."

"Imitas o som, o som das coisas, o som dos lugares, o som do coração das criaturas."

"Antropófaga, bebe um copo de sangue, insensata devora os próprios músculos."

Vale assistir a esta obra pela coragem de Wasil em expor as "gavetas" que a maioria de nós prefere manter trancadas. É uma experiência sensorial que desafia o espectador a confrontar seus próprios "saldos de estragos" e encontrar beleza na crueza da existência.

Comente o que sentiu.

#PoesiaFalada #SpokenWord #WasilSacharuk #LiteraturaBrasileira #PerformancePoetica #ArteIndependente #ResenhaLiteraria #Cultura




cova das sinas

   cova das sinas


aberta uma porta
dessas crendices
para qualquer doença
correrão tolices
e desavenças

disseram que a poesia
nalgum certo dia
foi vista morta
tanto inexata
confusa e sepultada
na cova das sinas

que sobrou apenas cinzas
sobrou o nada
no viés das vias tortas
dessa vida que tenta
e retenta
mas nunca ensina

e eu e somente eu
que sou assim meio louco
não conheço o tal deus
nem tampouco
o fiadaputa do diabo

não temo livro sagrado
sequer tridente ou rabo
picho os muros do céu
e do inferno
num rabisco estabanado

um toque terno
de inocência
e certa demência

estou por aí tão soturno
esmagando cabeças
com meus coturnos
num passo vago
sem sentenças
ou pecados

à direita o anjo
toca trombeta
diz que a coisa tá preta
do outro lado

e o insano capeta
fazendo careta
em tom debochado
diz que porta aberta
quando fecha
sempre deixa uma brecha
donde se vê os estragos

wasil sacharuk










colcha de margaridas

  colcha de margaridas


teu umbigo é um ótimo abrigo
onde quero morar
e os mamilos tão equidistantes
aos teus olhos de mar
que acusam marés desinteressadas

teus cabelos quase assanhados
confessam os cachos
quedam florindo a sorrir divertidos

eu te desadorno eu te desenfeito
desrascunho e desescrevo
cada pedaço de ti

e tu aí tão linda
nudez em relevo sobre o plano
da velha colcha de margaridas

wasil sacharuk






avoada

 avoada


a alma anda avoada
avenidas afora
ainda alquebrada
antes andava amarga
anda agora aliviada

anda alçada aos ares
arremeda animais alados

alavanca as alturas
até a aura azul
assiste aves atmosféricas
aplaudindo aos astros
até Apolo avermelhar
a aurora ametista

as aspas abolidas
antecedem alíneas
abortam artigos abreviados
abonam apóstrofos
argumentos acumulados

ao anoitecer
a alma ainda acordada
acorrentada ao aço 
abandona a armadura

ademais 
a alma agora admite
arrebentar as algemas

wasil sacharuk







nota:

A jornada da alma transita da dor  para um estado de leveza, liberdade e autoconsciência. 
 A alma, que "antes andava amarga", agora está "aliviada". A mudança é enfatizada pela imagem dela "alçada aos ares" e "arremedando animais alados", indicando um desejo de liberdade e ascensão. 
 A alma se torna uma observadora do cosmo, "assistindo aves atmosféricas" e "aplaudindo aos astros". A menção a "Apolo avermelhar a aurora ametista" traz uma dimensão mitológica e sugere uma nova percepção da beleza do mundo. A alma não apenas voa, mas também se conecta com o universo.
A menção de "aspas abolidas" e a forma como a linguagem é tratada ("antecedem alíneas", "abortam artigos abreviados", "abonam apóstrofos" é uma desconstrução de antigas narrativas que aprisionavam a alma. A ideia de "argumentos acumulados" sugere um processo de autoanálise e redefinição.
 Mesmo "ao anoitecer", a alma permanece "ainda acordada", o que indica uma vigilância e uma nova consciência. A imagem de ela estar "acorrentada ao aço" e "abandonar a armadura" é poderosa, simbolizando o abandono de defesas e limitações impostas. O clímax  "a alma agora admite arrebentar as algemas"  é um reconhecimento de sua própria força e da necessidade de se libertar de qualquer prisão.
"Avoada" nos convida a refletir sobre a capacidade de transformação. Sacharuk nos guia pela jornada de uma alma que, ao se libertar das amarras do passado, encontra a leveza, a contemplação e, finalmente, a coragem de romper com  aquilo que a impede de ser livre. 





rosa trepadeira

 rosa trepadeira 


ela habita 
a estranha floresta
brinca com focas
diverte pinguins
sobre a lava diluída
do meu vulcão

sua cabeça verte
emaranhadas folhas
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos a canção da maré

ela habita
o alpendre de madeira
transita nas tocas
conhece os cupins
e os caminhos de formiga
do meu chão

as suas mãos ofertam
arranjos de flores
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos a canção da marés 

dançamos a canção da maré

wasil sacharuk




SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

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