wasil sacharuk

Wasil Sacharuk ocupou um lugar interessante na poesia brasileira recente: ele não veio do circuito tradicional de grandes editoras e prêmios, mas de uma produção intensa, híbrida e muito marcada pela circulação digital. Isso o coloca na linha de frente de uma geração que pensa poesia não só como livro, mas como presença em rede, performance, voz e música.Sua atuação em grupos como a Nova Ordem da Poesia e projetos como Inspiraturas reforça um traço importante: ele não se isolava, mas se entendia como parte de uma comunidade de escrita, apostando em trocas, oficinas e formação de novos autores.

A contribuição temática de Sacharuk passa por três eixos fortes:

Crítica social e política: há uma recusa do conformismo, um desconforto com estruturas de poder, com desigualdade, com o automatismo da vida urbana e do trabalho.

Existencialismo ateísta: sua poesia frequentemente confronta a ideia de sentido transcendente, preferindo uma visão lúcida, às vezes dura, da finitude e do absurdo. Isso o aproxima de uma linhagem que vai de certos modernistas a poetas contemporâneos que desmontam o discurso religioso e metafísico.

Musa e afetos: ao mesmo tempo, há uma dimensão amorosa e erótica, mas quase sempre atravessada por ironia, consciência crítica e jogo de linguagem—não é um romantismo ingênuo, é um amor que sabe de suas contradições.

Essa combinação ajuda a construir uma voz que não separa o íntimo do político, nem o pensamento filosófico da experiência cotidiana.

Forma e experimentação: entre tradição e ruptura

Um ponto forte da contribuição de Sacharuk é a forma como ele dialogou com a tradição sem se submeter a ela:

Uso de formas fixas (sonetos, acrósticos, limericks): ele recupera estruturas clássicas, mas as preenche com temas contemporâneos, linguagem coloquial, humor e crítica. Isso cria um contraste produtivo entre forma “nobre” e conteúdo “desobediente”.

Valorização da musicalidade e da rima: em tempos de predominância do verso livre, ele insiste na sonoridade como eixo de sentido, não como ornamento. A rima, o ritmo e o jogo fonético são usados para intensificar o impacto crítico ou afetivo do poema.

Verso livre e experimental: ao mesmo tempo, não se prende a um único modelo; transita por poemas mais soltos, narrativos, fragmentários, o que mostra uma consciência de que a forma é escolha ética e estética, não regra fixa.

Essa versatilidade formal é uma contribuição importante: ela mostra que a poesia contemporânea pode ser múltipla sem perder coerência de voz.

Linguagem: entre coloquialidade, ironia e densidade


A linguagem de Sacharuk costuma operar em três registros que se cruzam:

Coloquialidade: expressões do cotidiano, fala comum, termos de trabalho, cidade, internet. Isso aproxima o leitor e quebra a aura de “poesia difícil” como algo distante da vida real.

Ironia e humor: há um uso recorrente de ironia, sarcasmo, trocadilhos, que funcionam como ferramentas de crítica e de desromantização. O riso aqui não é leve: é muitas vezes um riso que denuncia.

Densidade reflexiva: mesmo quando o tom é leve, o fundo é filosófico. Ele trabalha com perguntas sobre sentido, morte, tempo, memória, mas sem cair em jargão acadêmico—é uma filosofia encarnada na experiência.

Essa combinação contribui para uma poesia que é acessível sem ser rasa, e que pode dialogar tanto com leitores iniciantes quanto com leitores mais experientes.

Outro aspecto relevante da contribuição de Sacharuk é o modo como ele encarnou o poeta contemporâneo conectado:

Publicação massiva online: centenas de poemas disponíveis em blogs, redes, vídeos, ampliam o acesso e criam uma relação mais direta com o público.

Parceria com música e performance: sua atuação em projetos multimídia reforça a ideia de que a poesia hoje não está confinada à página—ela pode ser voz, som, corpo, vídeo.

Comunidade e formação: ao facilitar oficinas e participar de coletivos, ele ajudou a democratizar o fazer poético, tirando a poesia do pedestal e colocando-a como prática compartilhada.

Isso tudo contribui para um modelo de poeta que não é apenas autor de livros, mas agente de cena, alguém que movimenta e alimenta um ecossistema literário.

o vivente

 o vivente


tu vês lá?
o vivente
junto ao carvalho?

sentado ao chão
livro à mão
empresta sentidos à vida
e respostas para a morte

debaixo da copa crescida
 experimenta a sorte
a mente aberta num rasgo
causa múltiplos estragos
ao núcleo da consciência

 indaga filosofia
ressignifica a ciência
proclama poesia
e tu o vês sentado
tal inspiração
à luz da meditação

ao pé do carvalho
 molhado de orvalho
o vivente sopra sementes
de perguntas tantas

wasil sacharuk


notas:

"O Vivente" é um poema que convida à reflexão sobre a busca incessante do conhecimento e o impacto transformador dessa jornada. 

"vês lá? o vivente junto ao carvalho?". Essa interpelação cria uma atmosfera de cumplicidade e curiosidade, convidando-nos a observar. O carvalho, uma árvore milenar e robusta, simboliza a sabedoria e a perenidade do conhecimento. 

O vivente não está apenas lendo; ele "empresta sentidos à vida e respostas para a morte". Essa frase encapsula a profundidade de sua inquirição, que transcende o trivial e busca as grandes questões existenciais. A leitura e a meditação ("tal inspiração à luz da meditação") são os meios pelos quais ele explora seu mundo interior.

A expressão "a mente aberta num rasgo causa múltiplos estragos ao núcleo da consciência" é particularmente potente. "Estragos" aqui não tem uma conotação negativa, mas sim de ruptura e desconstrução de paradigmas antigos. É o impacto da epifania, do novo conhecimento que abala as estruturas pré-concebidas da mente. O vivente "indaga filosofia, ressignifica a ciência, proclama poesia", demonstrando uma abordagem multidisciplinar e holística do saber. Ele não se limita a um campo do conhecimento, mas os integra para construir uma compreensão mais vasta e complexa da existência.

"o vivente sopra sementes de perguntas tantas". O vivente, agora imbuído de novos questionamentos e reflexões, não guarda o conhecimento para si. Ele o dissemina, como sementes que se espalham para germinar em outras mentes. Isso sugere que o verdadeiro propósito da busca pelo conhecimento não é apenas encontrar respostas, mas também gerar novas perguntas, impulsionando um ciclo contínuo de aprendizado e descoberta.

O poema foi escrito para homenagear o poeta Adriano Aquele do Carvalho, em 2011. 






de fastidio

 de fastidio

não construo minha paz
jogando flores nos túmulos
dos anônimos inocentes
mortos em passeios escuros

não reverencio o espectro
que oculta o mote obscuro
desses b∆ndidos eloquentes
sob um ar circunspecto

não compartilho do dialeto
que pronuncia minha gente
seus argumentos obtusos 
e preceitos inconsequentes 

não acredito nos pr€sid€nt€s
seus vassalos e seus abusos
nem nos puxassacos repletos
de burrice condescendente

não me considero esperto
além do que é aparente
tenho certos traços escusos
mas meus motivos são retos

wasil sacharuk




amor com Tchaikovsky

 amor com Tchaikovsky

faremos amor
com Tchaikovsky
num dia perfeito 
sob luz de candeia

dançarei braços
ballet no espaço
ao entorno de ti 
lua cheia

ao refluxo das águas
que percorrem marés
a minguar-te inteira 
com lambidas de vento

nas mãos terei asas
e acordes na boca 
para beijar os contornos
das tuas dunas de areia

wasil sacharuk



antropófaga

 antropófaga


faminta
ela vinga nas matas
encara o vento
o olho do sol
mastiga raízes
engole os frutos absurdos
que repelem a dor

indelicada alquimia
dos elementos
esparadrapo e unguento
para chagas e cicatrizes

antropófaga
bebe um copo de sangue
e insensata devora
os próprios músculos
desde o crepúsculo
até uma próxima aurora
quando raiar novo amor

wasil sacharuk



bemóis


bemóis 

tu ave
    fá sol
     na primavera
   se bem sabes
esperas

tu nota
        faminta
      em bemóis
        na primavera
                     fás sóis
       sem entraves

         tua pauta
      fac simile
das urdiduras
         em claves
                  e tons

         imitas o som
           das coisas
       dos lugares
      do coração
das criaturas

wasil sacharuk









tão só

 tão só 


na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por ela
no espaço vazio
mas nada emana
do vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

na noite passada 
morri em lençóis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
para ser libertado
de qualquer encanto
para ser libertado
de qualquer desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

wasil sacharuk





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