cantilenas

 

cantilenas

vejo de soslaio
os olhares estranhos
ora risonhos
ora tristonhos
enquanto traio
as parcas certezas

conviver é um ensaio
cortesias e delicadeza
hipocrisia tamanha
ora artimanha
ora inocência
e minha ignorância
sequer percebo

vejo um mundo placebo
 efêmeras cantilenas
morrem paixões amenas
por múltipla falência
esparramo reticências
nada tenho 
a ver com isso

cansei dos artifícios
padronizadas belezas
forjando segredos
que não me dizem respeito

vivo do meu jeito
ocupo minha vaga
deslizo meus dedos
sobre as chagas que encobrem
os meus próprios medos

wasil sacharuk





bem-te-vi

 bem-te-vi


bem-te-vi
teus olhos
despertarem sorrisos
bem-te-vi
beijos coloridos
bem-te-vi
dia inteiro
bem-senti o teu cheiro
ecoando em mim
bem-te-vi nas promessas
bem-que-quis tuas carícias
sob o sol das manhãs
de amor e preguiça

bem-te-vi
bem-te-vi
olhar e sorriso

Bem-te-vi
bem-te-vi
Sussurrado
repetido

bem-te-vi nos respiros
bem-que-quis
bem-que-senti
teu aroma
teu toque
ecoando em mim

wasil sacharuk 



visceral

 



visceral

outonal
o olhar desvenda
escaneia atravessa
com percepção cinestésica
espelho e raio

natural
o olhar sem artifícios
ou ensaios
princípio ou delicadeza
atrita na aspereza
das tessituras

olhar em camadas
fagulhas da alma
habita
sem trégua
sem saída
desce mais fundo
e mais
e mais

ancestral
olhar de fogo
desnuda e arde
clarividente emocional
revira a carne
revela o espírito

metal
do olhar
aço amolado
fere crava escancara
punhal entravado
afunda rasga
expõe fraquezas
e não cede

olhar em camadas
fagulhas da alma
habita
sem trégua
sem saída
desce mais fundo
e mais
e mais

visceral
olhar escorpião
alimenta e definha
na vida e na morte
na pele e no osso
não perdoa
não tolera
síntese de todas as quedas

wasil sacharuk



castelo

 



castelo

do profundo
irrompe a lava
esparrama sem trava
até virar pedra dura

um gosto absurdo
com notas de amargura
a certeza da finitude
arma suas agruras
ao encalço
das pegadas

uma só existência
é quase nada
ao peregrino
de tantas estradas
é preciso morrer
em vários momentos

e encerra
um senso de escuridão
certa dor inconfessa
reino de solidão
assombroso castelo
na paisagem das trevas

debaixo da terra
incontáveis lamentos
um vácuo
de pertencimento
ao abandono
da luz da razão

uma só existência
é quase nada
ao peregrino
de tantas estradas
é preciso morrer
em vários momentos

wasil sacharuk



harpia



harpia

és a virgem mais bela
que dança nos rochedos
sobrevoas cadeias
tal ave insana
guardiã da ilha
dos segredos

pelos bancos de areia
ouvi o encanto
da tua cantoria
voz que suplanta
o eco dos gritos

tua imagem profana
habita minha fantasia
sacrifício dos ritos
deusa dos mitos
entrave às logias

doce ambrosia
nos lábios contritos
embriaguez dos bardos
versos sussurrados
em saraus de poesia

teu canto me devora
tua voz me encadeia
és a morte que chora
a vida que me nega

ninfa dos medos
aos corações embarcados
que chegam ofegantes
pelos teus zelos
és a harpia
que convida
à morte aflita

Afrodite te deu
penas negras
o universo de pedra
fez a ti confinada
a eterna espera

e nenhum deus
nenhum outro Odisseu
silenciará teu canto
com ouvidos de cera

minha garganta rasgada
minha alma ferida
entrego-te a vida
nas tuas unhas afiadas

teu canto me devora
tua voz me encadeia
és a morte que chora
a vida que me nega

minha garganta rasgada
minha alma ferida
entrego-te a vida
nas tuas unhas afiadas

teu canto me devora
tua voz me encadeia
és a morte que chora
a vida que me nega

wasil sacharuk


 

fantasma guru

 fantasma guru


criaste um fantasma
ao qual chamaste guru
num formato de miasma
diversos matizes de blue
um degradê de contrários
o norte vestido de sul

assombração dos cenários
dos bordeis imaginários
da vã poesia
ousadias
e tantos balacubacos

mas no mundo dos fracos
viste planar simulacros
onde vingou a profecia
de decretar a baixaria
no vaivem dos hormônios
 dar indulto aos demônios
aos jogos e bruxarias

criaste fantasma da insônia
de uma tirana
balzaquiana
perfumada de alfazema
olhar de todas as cores
um precipício na vagina

entre os estratagemas
e o show de horrores
prevaleceu a sina
do holográfico fantasma guru
e seus dons mágicos
que resultaram trágicos
e decepcionantes
um tipo fora de linha 
de tempos muitos distantes

criaste o fantasma
em traje de gala
ao qual chamaste guru
que cala
e não fala
não pensa
não presta
uma besta
pretensa
o norte vestido de sul

assombração dos cenários
dos bordeis
imaginários
da vã poesia
ousadias
e tantos balacubacos

wasil sacharuk



thanatos

 thanatos


por ti abri uma porta
e somente isso importa
já que pedias passagem
desliguei os benditos botões
mandei o ar dos pulmões
soprarem tuas asas
 leveza para a viagem
rumo à nova morada

lancei-te à própria sorte
no lapso do último corte
soltei a tua ancoragem
e isso baixou a pressão
que forçava o teu coração
a bater sem palavras
sem ritmo e sem emoção
bater a troco de nada

aliviou teu sofrimento
e também ao meu
logo disseste amém
logo eu disse adeus

wasil sacharuk





SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

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