amor abandono

 amor abandono


ele desconheceu o impossível
desafiou tempo e espaço
Semeou no solo escasso
para provar seu poder
pelo simples saber fazer ser

a seu critério
lançou sementes
ao chão estéril
e logo fez chover

crescida
sua árvore do desejo
no tempo oportuno
gerou frutos doces
que lhe desceram
pela garganta
ao sobejo

a árvore esgotada
não mais o satisfez
nem sua intimidade
nem seu olhar

a árvore
do amor abandono
alheia à mão que a plantou
frutificou só por ser
sua natureza selvagem
vingou pelas matas
livre indiferente
silvestre

ele semeou o impossível
colheu o seu próprio vício
a árvore que plantou
não lhe pertence mais

ele semeou o impossível
colheu o seu próprio vício
a árvore que plantou
não lhe pertence mais

wasil sacharuk



meu doce diabo

 meu doce diabo 


meu doce diabo
já não me sabes nada
 não me manipulas mais
sequer me controlas
tampouco me roubas
já nem me sangras

eu não sinto mais medo 
e danço no teu inferno
aos som dos gritos e ritos 
cada cicatriz que conheço 

amo profanar teus altares
amo invadir o teu corpo 
gosto mesmo do que me dói 
 gosto mesmo do que te fere
teu toque arde em minha pele

teu amor me machuca
teu fogo me queima
teu desejo me marca
brasa viva que devora

wasil sacharuk 



destroços

 destroços 


quis saber o que ocorre na mente 
então deixei sementes brotarem 
para contemplar a expressão 

cada oportunidade conquistada 
e cada verdade submetida 
ao crivo da razão

foram tantas tentativas 
quantas possíveis 
em todos os níveis do discernimento 

esgotei meus argumentos  
 dediquei instantes significativos 
a provar do semblante aflitivo 
e do grito por solução

meditação e observação 
estive obcecada pela questão 
 qual nascente das atitudes
 de onde brotam pensamentos? 
para onde vão 
depois que passam por aqui?

procurei a vida já pronta 
manufaturada
 na despensa
nas latas
quinquilharias 
catei destroços 
 nos vestígios 
 da confusão

mantive na mira o controle da ira
 nada religioso ou sobrenatural 
era busca do gozo pelo domínio mental

trouxe a dinâmica na guia
 e o escrutínio de raciocínios insanos 
jogados em meio 
às reações e anseios
 comi dos restos junto aos cães

fingi  pensar
 flagrei-me pensada 
 atolada na lama das pré-concepções 

mergulhada no centro 
da chama das ilusões 
 no intento o cotidiano clamou socorro 
 perdeu o curso sereno 
tudo revirado tão depressa

das soluções caducas
 perdidas em hesitação 
o mundo ficou cheio 
e nem tentou fazer as pazes 
foi apenas um sistema esclerosado 
e portanto decadente 

os dentes da engrenagem 
não suportaram tantas resoluções 
complexamente abstratas

procurei a vida já pronta 
manufaturada
 na despensa
nas latas
quinquilharias 
catei destroços 
 nos vestígios 
 da confusão

wasil sacharuk









camille

 camille


recria-me
Camille
reinventa minha ilha
no eco dos versos

recria
na pedra mais fria
 o meu universo
repara minhas rugas
com gesso

tu vês?
Camille

recria-me 
dedos
artelho
meu nome inteiro
gravado na pedra
com teu cinzel
 verdadeiro

certo dia
desvendarás poesia
nos esculpidos retratos
do meu olhar introspecto
faminto de sanidade
ou qualquer outra fé

e a perfeição do teu pé
contém meu nome gravado
sumariamente entalhado
pelo cinzel dos avessos

recria-me 
dedos
artelho
meu nome inteiro
gravado na pedra
com teu cinzel
 verdadeiro

wasil sacharuk







ícaro negro

 ícaro negro 


 madrugada
teus cabelos ocultos
pelo capuz negro
tu avançaste
pelas ruelas
escuras alagadas 

despencaram as águas 
 no chão de pedras
 um sopro de vento
 contou mistérios 
 ao silêncio dissonante 

por breve instante
 cessou todo o medo
fundiu os lados 
nem dentro 
nem fora 

surgiste
 plena de glória
 da margem do precipício
  asas abertas ao mundo 
 corajoso pássaro
desafiou as alturas
em nome da liberdade

madrugada
teus véus noturnos
 deslizaram entre becos
lâminas de chuva 
e sombra  

 serpentearam as águas 
sussurraram as pedras 
quando o vento entoou
cânticos ocultos
o silêncio pulsou 

o instante eterno
  o medo dissolvido 
diluiu as fronteiras
nem céu
nem chão 
 
e então...  

[Refrão]
surgiste! 
tal Ícaro negro
das brumas do abismo
asas de ébano
 e de fogo rasgaram
 a noite infinita

nenhuma corrente
 te prendeu
mais nenhum véu
 te cobriu
quando a liberdade
finalmente ecoou 
no vazio

wasil sacharuk 



facas de savanas

 facas de savanas 


minha essência
é afloramento
perceptivo a tudo
sou jovem felino
à luz da lua
a sair da gruta
ando a farejar
pelos ventos
cá estou
no teu recinto

e a pergunta é
devoro-te poeta?

mas teus versos
facas de savanas
têm cheiro de sangue
carne fresca
sangue derramado
farejam a mim
com olhos âmbar
garras de metáfora

devoro-te poeta?
ou me capturas?

entre as garras
entre as metáforas,
quem é caça
quem é caçador?
aquilo que rasga a pele,
devora em versos
devora sem dor

wasil sacharuk   



sal e ferro

 sal e ferro 


liberta-te 
se a vida verter
pela última vez 
nave em vertigem 
venhas comigo 
com gosto

beijo-te o umbigo 
e te risco um maldito
rasgo na pele
meus dentes
 minhas garras 
perfuram teus olhos
e meu reflexo 
queimando em desejo

liberta-te 
pela pele
dança viva
sobre a faca
dança nua
sobre as chamas

plantei na tua fronte 
sementes de escuta
que ouvem silêncios 
dos sentimentos e sentidos
para germinar-me em ti
agora desfalecida 
vê o que plantamos 
ao escolhermos a dor

tua garganta
 tuas vísceras
são altar e desgraça
e nua tu danças
 sobre a cadeira
de pulsos abertos
gotas em minha boca
sal e ferro 
e assim eu te tenho 
inerte e livre

liberta-te 
pela pele
dança viva
sobre a faca
dança nua
sobre as chamas 

wasil sacharuk






SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...