cunilinguagem

  cunilinguagem

desvela desvenda
      o plural  inconsciente
               conteúdos banidos 
         pensamentos bandidos
               os desejos tímidos
       as  convicções frouxas
   os insights sufocados 

 beija as doces coxas
      da musa sensorial 
   a língua ávida
docemente saliva
                   e recita
   palavra e forma

wasil sacharuk



meu intento

 meu intento


não estou para falar de amor
se ele ainda não dói nem rói nem pede flor

não há flores na minha poesia
as arrancadas são mortas
são decoração de sepultura
meu poema é heresia

conheço esse tal de amor
não encontrei deus algum
e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro
o único ponto em comum
eles não são invencíveis

não falarei de coisas que desconheço
pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura

minha escrita é a riqueza que colho do meu presente mesmo que seja inventado
pois poeta mente mas não se faz ausente
e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza
só quando fico parado

grito contra o que abomino e não suporto determinismo minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema

sou tipo existencialista meio insano
meio analista falso moralista talvez sartreano
tenho a marca da história todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória

sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas nem gnomos e crenças nem de almas penadas ou universais desavenças

eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira
pois no fim o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira

wasil sacharuk




desacordo ortográfico

  desacordo ortográfico

volto a usar o meu trema
com suas duas bolinhas
para botar no teu  ü

wasil sacharuk



insosso

 insosso 


 nem sei se ando 
ou se a vida me anda 
vou saindo e entrando 
a sina é quem manda 
vou cagando e andando 
que ela desencana 

sei de coisa sacana 
velhaca sacripanta 
vou catando bagana 
entoando meu mantra 
vivo a vida cigana 
 a cigana me encanta 

eu almoço a janta 
logo janto o almoço 
se a fome espanta 
eu encaro o osso 
só entala garganta 
se está meio insosso

wasil sacharuk





reciclagem

 reciclagem


deixem-me a sós 
com a poesia
ao infinito dos dias
quero engoli-la
mastiga-la inverte-la
quebrar os seus ossos

deixem-me a sós 
com a poesia
ao infinito dos dias
pelos dias que restam
acarinha-la
e reinventa-la
dos destroços

wasil sacharuk



planalto

  planalto

aquela bacia
e a torre ao alto
demarcam a ilha
que separa a Brasília
de música e poesia
e concreto e asfalto
daquela quadrilha

não há como crer
no viés do poder
do executivo
do legislativo
ou judiciário

pois vão nos foder
sem escrúpulo ou motivo
nos fazer de otários

longe da democracia
que rola no planalto
o cidadão se humilha
desconhece a alegria
e sobrevive ao assalto
da dita quadrilha

o que resta fazer
é não reeleger
os petistas
os maricas
os tiriricas
e paspalhos

que vão se valer
de sua própria justiça
e nos dar mais trabalho

wasil sacharuk


versão para enganar a censura:

pl@n@lto

aquela bacia
e a torre ao alto
demarcam a ilha
que separa a Br@síli@
de música e poesia
e concreto e asfalto
daquela qu@drilh@

não há como crer
no viés do p0der
do exekutiv0
do legisl@tiv0
ou judici@ri0

pois vão nos foder
sem escrúpulo ou motivo
nos fazer de otários

longe da dem0cr@ci@
que rola no pl@n@lto
o cid@dão se humilha
desconhece a alegria
e sobrevive ao assalto
da dita qu@drilh@

o que resta fazer
é não reeleger
os p-tist@s
os maricas
os tiriricas
e paspalhos

que vão se valer
de sua própria justiç@
e nos dar mais tr@b@lho

wasil sacharuk


estrada de ferro

  estrada de ferro


decerto não és dormente
pelos carris atravessados
no balastro preparado
cascalhos e pedra rolada
de ânimo ausente
pelas ferrovias

trilhos sem atalhos
terrapleno sem sementes
caminhos malfadados
sem beleza ou poesia
pela cama de britas

decerto não és hemisfério
a dividir galerias
entre tirafundos cansados
sobre gravilhas
bem cravados
a sustentar o ferro
na rota das vidas

wasil sacharuk


notas:

 "estrada de ferro" de Wasil Sacharuk oferece uma reflexão profunda sobre a materialidade e a funcionalidade de uma ferrovia, desprovida de qualquer vestígio de vida, emoção ou beleza. A linguagem é direta, quase descritiva, e o ritmo, marcado pela repetição e pela enumeração de elementos, simula a cadência monótona dos trilhos.

"decerto não és dormente". A palavra dormente, que no contexto ferroviário se refere à peça que sustenta os trilhos, é habilmente usada para evocar a ideia de algo que não sente dor, que não dorme, que não tem vida. Os elementos que compõem a ferrovia – "carris", "balastro", "cascalhos e pedra rolada" – são apresentados em sua crueza e inércia. A expressão "de ânimo ausente" reforça essa falta de vitalidade, atribuindo à própria ferrovia uma espécie de apatia. Não há vibração, não há alma, apenas a fria engenharia.

 "trilhos sem atalhos" A ausência de atalhos sugere uma rigidez, uma rota predeterminada sem desvios, sem liberdade. O "terrapleno sem sementes" é uma imagem poderosa da esterilidade, da incapacidade de gerar vida ou beleza. O poema declara explicitamente: "sem beleza ou poesia", demarcando a estrada de ferro como um espaço puramente utilitário, desprovido de qualquer valor estético ou inspirador. A "cama de britas" é apenas o suporte físico, sem adornos ou propósito além da função.

Na última estrofe, o eu-lírico novamente nega uma característica humana ou geográfica: "decerto não és hemisfério", reforçando a ideia de que a ferrovia não tem a complexidade ou a capacidade de abrigar vida como um hemisfério terrestre. Em vez disso, ela é definida pelos "tirafundos cansados" e pelas "gravilhas bem cravados", elementos que, embora exaustivos em sua função, são cruciais para "sustentar o ferro na rota das vidas". Essa é a grande ironia e a principal mensagem do poema: a ferrovia, em sua brutalidade e desumanização, é paradoxalmente o caminho que permite o fluxo e a continuidade das vidas, seja no transporte de pessoas, bens ou até mesmo sonhos e destinos. Ela não tem vida própria, mas é vital para a dinâmica da vida.

"estrada de ferro" se destaca pela sua abordagem minimalista e desglamourizada de um elemento tão presente na paisagem e na história humana. Wasil Sacharuk nos convida a olhar para o que está por trás do movimento e da funcionalidade, revelando a crueza e a ausência de alma em uma estrutura que, paradoxalmente, serve de suporte para a complexidade da existência humana.


SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...