água de rio

 água de rio


poema de água de rio
estrofes de mágoa e de frio
versos secos ao vento
salpicados de areia
poesia lírica sereia
canto onírico e lamento
melódico fio que cai lento
rimas que cursam as veias

poema maré lua cheia
ritmo gelado sombrio
num tom engasgado e senil
sem significado ou intento

poesia sem nó argumento
enlace de versos vazios
dor que corrente entremeia
as palavras feias

wasil sacharuk



vitruviano

 vitruviano


vitruviano cânone
da proporção áurea
e linhas harmônicas

tua beleza clássica
perfaz matemática
dos corpos torneados

vitruvianos ângulos
da perfeita estética
dos traços formosos

a ti
e aos homens nus
o inverno impiedoso
chegará outra vez

wasil sacharuk





andarilho

 andarilho 


tão mágica 
a engenharia
que projeta caminhos
nos mapas da consciência

atravessa blocos de fundação
               e paredes soerguidas
              com palavras caladas
       sobrepostas ao abandono
                condenadas ao sono

mas o pensamento andarilho 
chuta pedras
 pelas estradas
com sua algibeira de sonhos

wasil sacharuk


notas:

 "Andarilho" é uma reflexão sobre o poder do pensamento em transcender barreiras e construir novas realidades internas. A obra explora a jornada da mente como um engenheiro e viajante incansável.

O poema se inicia com a imagem da "mágica engenharia" que "projeta caminhos nos mapas da consciência". Essa metáfora sugere que o pensamento não é apenas um processo passivo, mas uma força ativa e criativa, capaz de desenhar e moldar a própria percepção da realidade. A mente é apresentada como uma construtora, alguém que planeja e estrutura o universo interior de cada indivíduo.

A expressão "com palavras caladas sobrepostas ao abandono condenadas ao sono" é particularmente evocativa. Ela sugere que muitas barreiras são construídas por experiências não ditas, emoções reprimidas ou memórias esquecidas, que jazem dormentes na consciência, mas ainda exercem influência. O pensamento, no entanto, tem a capacidade de atravessá-las, de trazer à luz o que estava oculto e, assim, desmantelar essas construções internas.

A "algibeira de sonhos" é uma imagem poética que representa a esperança, a imaginação e os desejos que impulsionam o pensamento. Mesmo diante das "paredes soerguidas" e das "palavras caladas", o pensamento continua sua jornada, carregando consigo o potencial de criar e reinventar. 

"Andarilho" celebra a resiliência e a inventividade do pensamento humano e lembra que, embora possamos carregar o peso de nossas construções internas e de experiências passadas, a mente tem o poder de se libertar, de desbravar novos caminhos e de transformar a consciência, movida pela força inerente dos sonhos e da busca incessante. É um convite à introspecção e ao reconhecimento da nossa própria capacidade de superação mental.




nesse outono

 


nesse outono🍂
se eu te sol
👄tu me chuvas?

wasil sacharuk


A Centopeia Dividida

 

A Centopeia Dividida

Tatuzinho era bruxo malvado 
e discutiu com a centopeia 
daí teve a péssima ideia 
de fazer um feitiço irado

Ficou escondido na areia 
praticou o ato mais feio 
seu feitiço dividiu ao meio 
e fez duas cinquentopeias

A abelha testemunhou tudo 
da porta da sua colmeia 
e convocou uma assembleia 
para tratar desse absurdo

Aquele tatuzinho era insano 
muito famoso em toda aldeia 
esperava a noite de lua cheia 
para traçar os seus planos

As cinquentopeias medrosas 
decidiram permanecer unidas 
mas estavam muito perdidas 
e nem se entendiam na prosa

Sob as penas de uma galinha 
o Piolho Velho era a liderança 
comentou que havia esperança 
se chamasse a dona Joaninha

Joaninha era boa feiticeira 
e talentosa na matemática 
decerto conhecia a prática 
de fazer centopeia inteira

Então a bruxinha competente 
com toque de magia esperta 
refez a centopeia completa 
e os bichos ficaram contentes

E o malvado do tatuzinho? 
Ah! Ele é muito teimoso 
em vez de ser mais amoroso 
prefere viver sempre sozinho

wasil sacharuk











da contradição

 da contradição 


a religião
morde teus pés
bocarra faminta
igual jacaré
parece absurdo
decerto não é
o humano animal
no templo de cristal
com cruel pretensão
ostenta a compaixão
mas trata desigual
em nome da fé

wasil sacharuk



balanço do açoite

 balanço do açoite


"...e o silêncio em silêncio agoniza."
(Márcia Maia - "Banquete")


a sede
e o nó
trama de estar só
silenciando a tarde
quando arrefece
o derradeiro alarde
das vozes da solidão

entre azulados
violetas
e magentas
o silêncio é a porta
do aposento da noite

e a solidão
fingida de morta

é o açoite

wasil sacharuk




SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...