tua geometria

 tua geometria


o crop quadrado
orientação de retrato
teus membros oblongos
formam retângulos
sugerem perspectivas
perfazem mil ângulos
e ao centro emparelhados
dois bicos eriçados
te coroam os redondos

wasil sacharuk



notas: 

 "Tua Geometria"  utiliza termos geométricos para delinear uma figura humana de forma abstrata e objetiva.

O poema começa com uma linguagem que remete à fotografia ou à composição visual: "o crop quadrado / orientação de retrato".  Essa escolha de termos já introduz a ideia de que a figura será analisada em termos de suas proporções e delimitações.

"teus membros oblongos / formam retângulos". Os "membros oblongos" (alongados) naturalmente se assemelham a retângulos, uma forma básica e fundamental na geometria.
A ideia de que as formas "sugerem perspectivas / perfazem mil ângulos" amplia a complexidade da observação. Os "mil ângulos" reforçam a riqueza de detalhes e a capacidade da geometria de descrever a diversidade de formas e volumes presentes. Há uma sensação de que cada parte, cada linha, contribui para uma composição maior e multifacetada.

 "e ao centro emparelhados / dois bicos eriçados / te coroam os redondos". Essa é a parte mais enigmática e sugestiva. A menção a "dois bicos eriçados". A imagem é intencionalmente vaga, permitindo múltiplas interpretações e mantendo o foco na forma e não na identidade explícita. 

"Tua Geometria" se destaca pela sua originalidade. Ele nos faz olhar para além do óbvio, desafiando-nos a ver a beleza e a complexidade nas estruturas básicas que nos rodeiam. É uma obra que brinca com a abstração e a concretude, evidenciando como a matemática e a arte podem se entrelaçar na percepção.

adjunto de xingamento

 adjunto de xingamento 

meteu com tudo
um acento agudo
bem no olho do ú😬
o oxítono dolorido
ortograficamente ferido
consultou o gramático sisudo🧐📚
que apresentou seu estudo:
"no cu não se bota acento
exceto se o cú referido
seja adjunto de xingamento"🙉

wasil sacharuk



das noites sozinhas

 

das noites sozinhas 


dorme ao meu lado 

sob o açoite do frio

seremos o abrigo

a couraça 

que protege e abraça

ao melindre das horas 

que contam teus medos

que contam os meus 

sessenta e seis tipos

de nós cabalísticos


fagulhas coloridas 

delicadas desprendidas 

caídas por descuido 

dos braços do remanso

 murmuram a esquizofrenia

das nossas noites sozinhas


wasil sacharuk




o benquererte

  o benquererte

o benquererte
testou a complacência 
da maré 
desafiou a liberdade
do grande oceano
mergulhou os pés
à margem dos enganos
e o rio provou o revés
engoliu a foz
estourou os canos

wasil sacharuk



Lavínia

 Lavínia


sacolejas tanto
o teu oco insano
arremessando as roupas 
trepidando no canto

chacoalhas os arreios
temperando águas loucas
ao desmaio dos panos

no entanto
tudo isso é engano
coisas que invento
 incertezas tão tontas
que pegam no tramco

e falam sobre o anseio
de cair na tua boca
centrifugado nos flancos

wasil sacharuk



e se for pecado?

 e se for pecado?


dos pecados 
não me arrependo
sou desobediente
 ovelha infiel
 o avesso da crente

me faço purificada
 não sou a criadora
 nem manipuladora
 do motor imóvel adulterado

nenhum pecado confesso
 não sou penitente 
minha água benta é ardente

mantenho meus vícios 
meus ofícios 
meus artifícios 
a reza de trás para frente 
no rosário de uma serpente

e gosto de dinheiro, muito
de boa comida 
da vida bebida
 algum excesso
 algum descontrole

e continuo irada
 depravada odiada
 rancorosa raivosa
luxuriosa preguiçosa
 nada caprichosa
 soberba... implacavelmente soberba

qual beato abençoado 
me fará dizimada
 por uma ameaça ridícula 
de um medo infundado?

e se for pecado?
não é problema meu
me sinto agraciada
 por tudo que a vida me deu

wasil sacharuk




”E se for pecado?” recitado por Dani Maiolo

poesia de graça

 poesia de graça


das mulheres
és a que quero
a que não posso querer
mas talvez algum dia...

Danielas Sofias Macabéas
Gilcinéias Maristelas Bias
Angelas Patrícias Marias

listar substantivos próprios
de gênero feminino
é artifício consagrado
que ninguém mais atura
é puta chavão
nos meandros da literatura

das mulheres
és a que quero
a que não posso querer
mas talvez algum dia...

Julianas Cibeles Berenices
Anas Francieles Fabianas
Cristinas Grazieles e Lias

bebi minha cachaça
logo após meiodia
sentei no banco da praça
para ler poesia
na internet de graça

agora digo deboas
já li Fernando Pessoa
mas prefiro Bento Calaça

wasil sacharuk


(Bento Calaça)


nota:

 "Poesia de Graça" transita entre a lirismo amoroso, a metalinguagem e a crítica à prática poética contemporânea, tudo isso embalado em um tom irônico e coloquial. O título, por si só, já antecipa a multifacetada "gratuidade" que a poesia pode apresentar: seja na sua disponibilidade (internet de graça), na sua leveza e despretensão, ou mesmo na sua desvalorização.

O poema inicia e repete o refrão que estabelece um desejo amoroso: "das mulheres / és a que quero / a que não posso querer / mas talvez algum dia...". Essa estrofe introduz uma figura feminina idealizada e, ao mesmo tempo, inatingível. A repetição dessa ideia central reforça a constância do desejo, mas também a persistência de uma barreira, criando um ar de melancolia e anseio. A promessa "mas talvez algum dia..." adiciona uma nota de esperança, embora tênue, à essa busca.

A lista de nomes femininos ("Danielas Sofias Macabéas / Gilcinéias Maristelas Bias / Angelas Patrícias Marias") é o ponto de partida para a metalinguagem e a crítica literária do poema. O eu-lírico reconhece que "listar substantivos próprios / de gênero feminino / é artifício consagrado / que ninguém mais atura / é puta chavão / nos meandros da literatura". Aqui, Sacharuk ironiza a repetição de clichês e "chavões" na poesia, mostrando uma consciência do fazer poético e um desejo de romper com o que ele considera fórmulas batidas. Essa autocrítica, no entanto, não o impede de continuar utilizando o recurso, o que reforça a ironia e a ideia de que, mesmo ciente da crítica, o poeta ainda se permite essas "licenças poéticas".

A segunda parte do poema mergulha no cotidiano e na despretensão do ato de consumir poesia. O cenário é simples: "bebii minha cachaça / logo após meiodia / sentei no banco da praça / para ler poesia / na internet de graça". Essa imagem contrasta com a visão elitizada da leitura poética, sugerindo que a poesia pode e deve ser acessível e desfrutada em momentos de lazer e descontração. A menção à "internet de graça" sublinha a democratização do acesso à literatura, removendo barreiras econômicas e sociais.

A conclusão do poema é um golpe final de ironia e afirmação de gosto pessoal. "agora digo deboas / já li Fernando Pessoa / mas prefiro Bento Calaça". Ao mencionar Fernando Pessoa, um dos maiores nomes da literatura portuguesa, e em seguida afirmar a preferência por "Bento Calaça" (um grande e admirado poeta da internet, já falecido), reforçando a ideia de preferência por algo não canônico ou mais "autêntico", Sacharuk subverte a hierarquia literária. A expressão "deboas" reforça o tom coloquial e descontraído, consolidando a ideia de que a poesia não precisa ser um fardo intelectual, mas algo que se desfruta livremente, "de graça".

"Poesia de Graça" se constrói na tensão entre o sentimento amoroso, a crítica à forma, a apreciação despretensiosa da arte e um humor irônico que permeia toda a obra. Sacharuk brinca com as expectativas do leitor e da própria tradição literária, entregando uma poesia que é, de fato, "de graça" em múltiplos sentidos: livre, acessível e sem as amarras das convenções.

SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...