paradoxo

 paradoxo


esse mundo
é assim mesmo
cheinho de gente
com suas estranhezas
tantas diferenças
tantas crenças
goste eu disso ou não
de tão plural
até mesmo assusta
encerra a abstração
da similitude
incrível magia
que não me deixa saber
o que afinal eu sou
ao preço de ser diferente

wasil sacharuk



decrépita

decrépita 


a poesia está velha
claudica nas rimas rengas
rumina estrofes banguelas
falantes de amor cardiopata
musas decrépitas e guenzas
desfilam ao olhar catarata

wasil sacharuk



da falsa comiseração

 da falsa comiseração


uma vez por ano, os biscuits eram recolocados na estante e queriam parecer vivos. Tinham olhares de vidro apontados para o centro do estábulo de palitos de picolé colado sobre a colina de isopor. O cenário não emprestava sentido ao antinatural e descabido. Salvaguardados três reizinhos engraçados que carregavam presentes e calçavam chinelas azuis diante de uma vaca de gesso que olhava para o lado enquanto outra pastava fiapos de celofane verde. O bebê repousava petrificado sobre uns trapinhos velhos pronto a percorrer viagem de dois milênios pelas vielas escuras das almas penitentes.

wasil sacharuk




deixei de poupar energia

 deixei de poupar energia


sabes da luz
que apagaste em mim?
pois acendi novamente

dispenso as penumbras
as maquinações imundas
sou por fim
um poeta diferente

sabes da luz?
              acendi!

deixei de poupar energia
pago a conta com a poesia
que ainda eu não escrevi

wasil sacharuk


coordeno orações

 coordeno orações


procuro-te
logo te acho
entregas-te
depois me escapas
chamo-te
então te despacho
enrolas-te
assim me desatas

peço paixão
ofereces motivos
queres cristão
mas eu sou herético
peço-te vírgula
tu dás conetivo
depois pedes ação
e entrego-me sindético

leio tuas rimas
somente as bonitas
finjo que entendo
deixo-te aflita
e caio em subordinação

o que te escrevo
foge a tradição
faço amor
relevo a estilística
tua língua é padrão
falo sociolinguística
emendas períodos
coordeno orações

a ti morena
tenhas certeza
escrevo meus versos 
para te possuir
e provar tuas belezas

wasil sacharuk


pífano perdido

 pífano perdido


pronto! pachorra paz
perdia ponto
perdia prumo

perseguia prudência
pedia providência
pedia perdão
pelos pecados

precisava paciência
passos perseverantes
parcimônia planejada
para partir paradigmas
para provar perspectivas

perspicaz
prescindia pensamentos
profundamente peculiares
particularidades pueris
palavras pescadas
para parir poesia

possuia
plenas prerrogativas
planejava propósitos
perseguia prodígios
porquanto procrastinava
produções pragmáticas

pretendia persuadir
provar pleno poder
preconizando premissas
pronunciando paradoxos

por pura pressa
produzia pensamentos
promíscuos
palavras portavam
perfídias perdidas

pronunciava
preditivas prosas
pareciam presságios
perversos
pessimistas
perplexos

pedia pela paz
pedido porém
pairava pretérito
ponderava preceitos
parecia pífano perdido
propagando pífios prelúdios

wasil sacharuk


Os demônios do esquecimento

  Os demônios do esquecimento

Na noite do pensamento, diante dos trabalhos mágicos, o velho abade percorreu imagens trágicas advindas de um tempo distante. Nelas, soaram os gritos da agonia, reproduziram o assassínio das crianças e a tomada das terras raras, cultivadas pelos seus antepassados. Desejou de volta a honra das conquistas e clamou tardia vingança. Para tal, evocou magnífico espírito a discorrer os grimórios. Sobre o altar dos sacrifícios, derramou símbolos embebidos em sangue inocente.  

Visível somente aos olhares experimentados, uma forma inconcebível pairou quase dois metros do chão, servil em seu silêncio, oriunda das maquinações do clérigo ocultista. 

Descrita nos oráculos da sacerdotisa e criptografada nos relatos sacros, a criatura exibia conformação semelhante as de outras formas humanas sempre que assim o desejava, entretanto, subsistia imperecível a nutrir-se do fluido das memórias ancestrais.  Veloz em qualquer domínio, atendia o chamado das águas, do fogo e do ar e, ainda, podia interceder junto aos reinos sob a égide das virtudes, mas também, sob o estorvo dos enganos e dos vícios. Acaso falasse aos humanos, a criatura desprezava os ruídos da fala. Adentrava a mente dos homens quando desejava, enfim, nutria-se do esquecimento que os acometia.

O velho abade sussurrou um madrigal consagrado à deusa das vertentes e logo viu irromper o dragão que rastejou, saltou e, oportunamente, se revestiu de humanas feições. Eis que o fenômeno da transmutação se revelava não apenas aos virtuosos, mas aos de espírito dedicado.

Incorrupta, a maravilha criada pelo abade não serviu a outro que não o seu artífice.  Pelos dias do outubro se estendeu a vingança do clérigo.

Sem que o percebessem, o dragão bestial perpassou as portas das memórias humanas até adentrar o último recôndito. Lá, depositou o tridente sob o signo ígneo da serpente e consagrou a morte das lembranças.

O mestre Gerard negociou com os demônios personificados nas três faces da criatura o final da tragédia. Como trégua, o abade aceitou a oferta de dez cabeças dos melhores profetas da aldeia. De cada qual, faria verter as memórias pelo breu do esquecimento fatal. 

A criatura dos grimórios evocou um tempo de indiferença. Não poderia, o povo de Gerard, no esquecimento das suas máculas, almejar a misericórdia. Era necessária a consciência viva do passado algoz, a experiência dos caminhos malfadados. O futuro pedia pela lembrança do passado.

Gerard sentiu medo. Solitário diante do destino ingrato extirparia as cabeças de seus profetas ou, então, permitiria o esquecimento. E sua incapacidade de escolher fez deflagrar longo período de trevas.

Dos píncaros da cadeia montanhosa podia-se avistar a longitude do vale. As reminiscências se estendiam secas e o povo de Gerard suplicou pelo fim da grande estiagem. O mar já não mais precipitava o pensamento dos sábios e profetas. O sol evaporou as últimas lembranças. Proclamaram-se dias de desespero. O povo esquecido a nada mais respondeu. Apenas sucumbiu pelas montanhas escoltado pelo olhar vigilante dos demônios do esquecimento. Oração foi o que lhes restou. Num transe místico rasgaram suas próprias carnes com as rochas pontiagudas, até seu sangue derramar sobre a terra.

No vale das memórias apagadas, o chão de sangue e esquecimento expiou o perdão. Sem memória, não houve o aprendizado, nem as fórmulas da agricultura, das artes e da felicidade. Sem a memória, não houve alimento.

Gerard foi, diante dos estúpidos, o culpado, ainda que sequer disso lembrassem.

wasil sacharuk




SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...