carrossel de hologramas

 carrossel de hologramas 


tu nada disseste
sequer uma torta palavra
apenas seguiste
minha estranheza engraçada
e nossas largas passadas
pisaram fofas

nossos corpos inclinados
desprovidos de roupas
projetados à frente
cruzaram a rua dos tempos
sobre os tetos das casas
sobre pessoas e plátanos
carrossel de hologramas
luzes furtadas das coisas
daquele lugar

para o próximo encontro
deixarei flores perfumadas
no parapeito da tua janela
entremeada pela trepadeira
e te levarei ao meu sonho
com cores de primavera

wasil sacharuk








prados longínquos

 

prados longínquos

nestes prados 
que miras longínquos
amigo paisano,
eu já deitei meus achegos
dobrei os meus vincos
acolherei desenredos

logo se devo 
não nego

o porvir é tal pingo
ferrado nos pregos
se fez espírito amanonciado
se vai a la cria
deitando a crina no minuano
trotando vadio haragano
para descansar sobre os prados

quando se toca a vacaria
no compasso de cantoria
ou poesia das grotas
descreve o sul com amor
versos livres de pajador

já reservei a fatiota
e uma pilcha engomada
pois vá que na próxima invernada
o inferno reclame o gaudério

a morte não guarda mistério
mas leva rumo tramposo
que derruba e nunca dá pouso
vitória e nem refrigério

se xerenga ficar minha sina
decerto depois se ilumina
no clarão guasqueado
que acende o boleio riscado
do estalo das três marias

e mais dia menos dia
não rende segurar o tranco
se a morte desce o barranco
e vem declamar poesia

wasil sacharuk








SACHARUK - OIGALÊ Full poesia falada spoken word

 

SACHARUK - OIGALÊ 

 O Renascer das Águas e da Poesia

 Em uma performance que transita entre o lirismo do pampa e a crueza da realidade urbana, o poeta Wasil Sacharuk entrega um relato emocionante sobre a finitude, a memória e a reconstrução necessária após a avalanche das águas.. Sacharuk começa com o "desenredo" da vida e a aceitação da morte, que "não guarda mistério, mas leva rumo tramposo". Ele utiliza um vocabulário rico em regionalismos (galdério, pingo, minuano, pilcha) para situar o espectador no rincão. 

O ponto de virada ocorre quando a poesia deixa o campo bucólico e mergulha na tragédia de maio. O poeta descreve com precisão cirúrgica o cenário de desespero: crianças nos telhados, militares com vozes embargadas e a "essência da vida a se destemperar líquida". É um testemunho histórico transformado em arte, onde o medo se transmuta em vontade de existir.

"A morte não guarda mistério, mas leva rumo tramposo, que derruba e nunca dá pouso."

"O que restou do nosso universo não enche um verso."

"De cada molécula de medo se fez uma nova vontade de existir."

"Das sementes da gratidão sempre brotará a nova coragem para recomeçar."

Vale assistir a esta performance não apenas pela beleza estética do Spoken Word, mas pela sua função social. Sacharuk não apenas declama; ele exorciza a dor coletiva e planta a esperança de que, mesmo após a destruição, a vida — e a praça — podem ter "novos brinquedos" e uma nova natureza.

"O que restou do nosso universo não enche um verso." 🌾

#SpokenWord #PoesiaGaúcha #WasilSacharuk #Resiliência #RioGrandeDoSul #CulturaRS #PoesiaFalada #Reconstrução




récita V

récita V

não me fales
da perfeição
sequer das ruínas
eu as sei
se sou fênix
a reunir resistências
ruínas contam
memórias das coisas
meus significados são coisas
eu sou coisa
que nem mesmo sei

,........

galga indomada
potra sem cilha
estribo ou sela
ancas escarranchadas
galopa desenfreada
corpo afora

.............

o benquererte
testou a complacência
da maré
desafiou a liberdade
do grande oceano
mergulhou os pés
à margem dos enganos
e o rio provou o revés
engoliu a foz
estourou os canos

wasil sacharuk







âmago

 âmago


és a presa
eu o demônio
meu hálito vermelho
invade tua boca
contra tua vontade
tão indefesa

da textura que te veste
ao âmago do etéreo 
a tudo fiz meu
tudo!

tua alma
teu útero 
é meu!

wasil sacharuk







negra

 não digas nada (negra)


preciso mergulhar aos confins
 desse olhar diamante
estender uma ponte
unindo nossas pupilas,

não digas nada
negra

deixa-me querer
nada é impossível 
as três da manhã
ainda despencam 
pétalas das hastes

visito os ninhos
das garças estabanadas
pelas rotas abandonadas
pelos dias que passam
 batendo as asas

preciso tuas mãos frias
sobre minha fronte
ver tuas ancas
 serpenteando dilemas
salvando meus sonhos

não digas nada
negra

agora sozinho
no escuro das estradas
pelas noites devastadas
os camaradas passam
e não dizem nada

preciso tuas mãos frias
sobre minha fronte
e não digas nada
no meu último dia,
negra

e não digas nada

nada

wasil sacharuk








navegantes do escuro

navegantes do escuro

pairam estranhezas
ofuscantes tal lampião
navegantes do escuro

voam soturnas
até quando
despencarem manhãs
secarem ao sol
fluídos do amor
no velho lençol

sobrevoam estranhezas
sobre as cabeças
borboletas falenas
mais de cem
as conheces tão bem

e aos nossos pés
navegam desengonçadas
difusas crenças

esperamos tanto
pela noite alucinada
para dançar e dançar
divertir pirilampos

e tu danças
eu canto
alto
no céu
por ti

se aqui
ninguém entende
o que sentes
ninguém pensa
o que sinto

mas sabemos colorir
as amarguras impressas
nas paredes sem cor

e tu cantas
eu danço
alto
no céu
por ti

se aqui
não há lugar
para andar sem destino.


wasil sacharuk








SACHARUK - HERESIA Full - poesia falada spoken word

SACHARUK - HERESIA  Em um mundo saturado de ruídos, o poeta Wasil Sacharuk utiliza o silêncio e a modulação vocal como ferramentas de constr...